Querido diário,
Hoje acordei com a lembrança de uma conversa que nunca terminamos. Tânia, com aquele sorriso tímido que sempre lhe fica nos lábios, quase não piscou ao me olhar e, de repente, ficou com aquele rubor que só aparece quando alguém está a ponto de dizer algo importante. E se tentássemos, Sérgio? ela perguntou, e eu só consegui murmurar: Já lhe disse tudo, Tatiana. Parece que o tempo insiste em repetir-se, como um velho eco que nunca se cala.
Lembro-me de quando a Madalena Pereira chegou ao mundo, quando eu ainda estava na primeira classe da Escola Básica nº1, em Vila Nova de Gaia. Nunca esquecerei a mãe dela, Lurdes, a mulher mais admirada de todo o bairro, com a barriga grande como o pão da padaria da esquina, e o pai, Joaquim, orgulhoso como quem tem a casa inteira a cuidar da horta. Lurdes empurrava a cocheira pela porta da frente, e eu ficava ali, fascinado, como se fosse um milagre.
Fui crescendo, e a Madalena também. Hoje ela sai correndo da porta da casa dos meus pais, vestida com um vestido amarelo cintilante, um laço enorme na cabeça ruiva. Ela brinca com as amigas, construindo um pequeno refúgio ao lado da cerca, enquanto eu a observo da janela da casa em frente, do outro lado da rua, exatamente onde mora a família Pereira.
Sérgio, leva a Madalena para casa, por favor! pediu Lurdes um dia, e eu não pude negar. Passei quase um ano a fazer-lhe companhia, quase como se fosse seu tutor. No início, íamos à escola em silêncio; a Madalena logo não aguentou e começou a contar-me as histórias que aconteciam nas aulas, as trapalhadas dos professores, tudo aquilo que lhe passava pela cabeça. As aulas dela acabavam mais cedo, e ela esperava pacientemente o momento de eu me libertar.
Às vezes, voltava para casa com os colegas de turma, e a Madalena caminhava ao nosso lado. Acostumei-me a esperar por ela na porta pela manhã; quando saía, eu pegava-lhe a mão e íamos juntos para a escola. No setembro seguinte, ela pediu baixinho que a deixasse ir com as amigas. Então, elas avançavam à frente, e eu ficava um pouco atrás, pronto a intervir se fosse preciso. E, claro, um dia surgiu um ganso na estrada. O bicho bufava, esticava o pescoço e batia as asas, assustando as meninas. Eu coloquei-me entre elas e o pássaro, e elas passaram a correr, gritando como se fossem crianças num parque de diversões.
No ano que veio, mudei-me para o concelho vizinho, para o colégio técnico onde estudava o curso de eletricidade, e só voltava a casa nos fins de semana e nas férias. A Madalena, como se eu fosse uma sombra que já não reconhecia, passava ao meu lado sem me cumprimentar, abaixando a cabeça. Depois ingressei na escola de navegação e passei a visitar a família raramente.
Mãe, quem é essa menina? perguntei ao jantar, quando a porta dos Pereiras se abriu e apareceu uma jovem alta, elegante, com um rosto que parecia ter sido pintado à mão.
É a nossa Madalena! respondeu a mãe, sorrindo ao olhar pela janela.
Mas como é que ela chegou aqui? fiquei perplexo.
O tempo faz o que tem que fazer suspirou a mãe, gentilmente, e acrescentou que, de vez em quando, ela ainda se divertia a olhar os meus olhos, pois os melhores presentes vêm dos pais.
Algumas vezes a vi de relance, escondida atrás das cortinas de linho que cobriam a janela. Uma manhã, saiu com baldes nas mãos, a levar água ao poço da aldeia, e o vento soprou tão forte que fez o lenço que ela usava voar como uma bandeira. Mais tarde, vestindo um traje formal de calças, foi a fazer exames. Eu, novamente, senti vontade de acompanhála, mas o último ponto de ruptura foi a voz do meu pai, que ao reparar a cerca dizia: Com uma voz assim, és capaz de ir até ao fim do mundo.
Um dia, ao sair da casa dos meus pais com baldes de água, encontrei a Madalena junto ao poço.
Olá! cumprimentoua ela primeiro, acertando-me o coração num nó.
Olá, Madalena respondi, sem saber o que dizer. Enquanto enchia os baldes, minha mente ficava vazia, sem ideias para conversar. Saí daquele dia com uma melancolia que nunca tinha sentido antes. Acho que, finalmente, apaixoneime.
Depois, veio o juramento e a designação; fui enviado para o quartel de pescadores de Viana do Castelo, no extremo norte.
***
Quando voltei à aldeia, já carregava o desejo de confessar à Madalena o que sentia. Era a idade certa, diziame a voz interior. No primeiro dia, cheguei cansado da estrada e a rotina começou. O pai, como sempre, planeou o uso mais eficiente da mãodeobra adicional. No segundo dia, fomos à serra cortar lenha, depois partir as toras e empilhálas no celeiro. Corremos contra o tempo, preparando a substituição dos troncos inferiores da sauna, que exigia refazer a soleira da porta e, depois, refazer o piso da própria sauna. Por fim, meu pai decidiu trocar o piso do estábulo… e duas semanas passaram como um piscar de olhos.
De vez em quando, espreitava pelos portões da vizinhança, geralmente trancados. De lá, às vezes surgia Lurdes, às vezes Joaquim, mas nunca a Madalena. Perguntei à mãe, hesitante:
Mãe, por que não vejo a Madalena?
Ela foi estudar na cidade, está a viver lá agora respondeu, com um leve suspiro.
Assim, voltei para Viana do Castelo. Um ano depois, a vi apenas uma vez, mas não gostei. Voltei a observara de longe, por trás da cortina de linho. Um rapaz alto, de aspecto rural, caminhava ao seu lado, falava consigo mesmo, rindo das próprias piadas, enquanto a Madalena lhe dirigia um sorriso condescendente, lançando-me um olhar que me feriu.
Descobri então que a Madalena se casou comigo não, com ele e que agora viviam num centro de retiro. Quando retorno à casa dos meus pais, às vezes a escuto ao longe…
Sérgio, deixa de te afogar em tristeza, já não és um rapaz parece que a mãe já percebeu o peso que carrego.
Hoje, ao escrever estas linhas, sinto o peso dos anos que se foram, das portas que se fecharam e das vozes que ainda ecoam na minha memória. Talvez, algum dia, eu encontre a coragem de fechar esse capítulo ou, quem sabe, abrir uma nova porta.
Até amanhã, querido diário.
