Também Passei por Isso: Já Senti o Sufoco

Também Já Sentia Faltava-me o Ar

O Manel anunciou aquilo num domingo à noite, quando a Mariana alinhava as camisas, todas passadas a ferro, em montinhos perfeitos. Ele entrou no quarto, sentou-se na beira da cama e disse aquilo como quem comunica que ali o autoclismo voltou a não funcionar.

Mariana, sinto-me a sufocar.

Ela nem levantou os olhos. Pousou uma camisa, pegou noutra.

Mas sufocar de quê?

Desta vida toda. Da rotina. Todos os dias é igual. Levanto-me, como, vou trabalhar, volto, como, deito-me. Sempre a mesma roda.

Mariana alisou o colarinho com todo o método do mundo. Ela tinha 51 anos, o Manel 53. Vinte e seis anos enfiados naquele T3 na Rua das Flores, criaram o filho, o Simão, que já estava noutra cidade há cinco anos e só ligava em dias festivos.

E queres fazer o quê? perguntou ela, com a serenidade de quem já esperava aquilo.

Quero sair de casa.

Aí sim, Mariana parou. Não porque ficou assustada, mas simplesmente olhou-o com aquela atenção com que se escuta algo previsível, mas pouco simpático.

Sair para onde?

Arranjar um apartamento. Ficar sozinho. Respirar.

Está bem, disse a Mariana, passando logo à camisa seguinte.

O Manel ficou à espera de outro tipo de reacção. Inclinou-se para a frente com ar de quem tropeçou num degrau.

Não tens nada para dizer?

Dizer o quê? Tens idade para saber da vida, Manel. Queres ir, vai.

Nem vais armar uma cena?

Ela pôs a camisa na pilha, olhou-o de frente.

Não. Só tenho uma condição.

Qual?

Não me ligues para perguntar onde estão as coisas, como se usa a máquina ou onde pus este ou aquele papel. Se fores, vais à aventura. É assim ou não é?

Ele hesitou.

Só isso?

Só.

O Manel ficou ali, naquele beco sem lágrimas. Tinha-se preparado para berros, para alguém a puxá-lo pela manga, para conversas longas sobre o tempo, o Simão, o que se espera de um casamento de vinte e seis anos. Até já tinha metade das respostas ensaiadas. E ela, afinal, continuava a passar camisas como se as coisas da vida fossem teimosas, mas laváveis.

Muito bem, disse ele. Vou então fazer as malas.

Óptimo.

Ele rumou à despensa, ficou uns dez minutos paralisado defronte das estantes, depois começou a enfiar uns jeans, duas t-shirts, meia dúzia de pares de meias numa mala. Barbear essa, carregador do telemóvel, livro que não lia há seis meses. Quando saiu para o corredor, a Mariana já estava na cozinha, barulhenta com as panelas.

Vou-me embora, anunciou, quase em surdina.

Boa sorte, retribuiu ela lá do fundo.

A porta fechou-se. Ele ficou imóvel, à espera de passos do outro lado, uma pausa, uma investida. Nada. Silêncio completo.

Carregou no botão do elevador.

***

Arranjou casa em dois dias, por intermédio do Rui, colega do escritório. Um T1 modesto num prédio dos anos 70, no Bairro da Estação. O senhorio, o Sr. Alfredo, bigodes e peito inchado, mostrou-lhe tudo em cinco minutos, cobrou dois meses de caução adiantados e foi à sua vida. O apartamento era um poema ao essencial: sofá, mesa com duas cadeiras, frigorífico “made in Fábrica Portuguesa” e fogão a gás. Cortinas de um amarelo mostarda já com memórias de muitas lavagens.

O Manel pousou a mala, sentou-se no sofá, fez uma panorâmica digna de catálogo de móveis.

Ok, silêncio. Zero vozes a zumbir de sala em sala, zero televisão nas alturas, zero Manel, o jantar já está!. Esticou-se no sofá, fechou os olhos: Isto é liberdade.

Os dois primeiros dias nem foram maus. Acordava quando lhe apetecia, comia coisas aleatórias que tinha ido comprar por impulso, vagueava de meias pela casa como um pequeno ditador. À noite telefonava ao amigo Paulo e falavam durante horas, riam-se, É isso mesmo, Manel! Já devias era ter feito isto há mais tempo.

No terceiro dia ficou sem meias lavadas.

Olhou de lado para a máquina de lavar, tão compacta, tão portuguesa. Abriu a porta, espreitou: ok, não era nenhum monstro. Revirou o armário em busca de detergente pumba, Para roupa colorida e branca, nada como simplificar. Enfiou tudo a olho, aventurou-se pelos botões, carregou no primeiro que pareceu fazer sentido.

A máquina arrancou.

Uma hora depois, meias húmidas, cor de salmão. Meditou um instante, percebeu que tinha lavado as meias com aquela t-shirt nova, encarnada. Clássico. As meias foram secar no radiador, demoraram até ao serão seguinte.

No quarto dia tentou cozinhar uma refeição à homem solto. Comprou peito de frango, batatas, cebola. Da cozinha saiu uma fumarada honesta, só menos delicada que o barulho do óleo no fundo da frigideira. O peito prendeu-se à frigideira como se estivesse ali por contrato. As batatas ficaram descascadas pela metade, a cebola atacou-lhe os olhos até às lágrimas.

O que saiu, visualmente, lembrava uma experiência de laboratório. Duro por fora, cru por dentro. Comeu metade, o resto foi para o lixo. Pediu uma francesinha do restaurante ali do lado.

Uma semana depois, fez contas às entregas. Gasto equivalente ao orçamento mensal do casal para supermercado. Fez-se de forte: comprou arroz, fez arroz de ervilhas, sobreviveu. Ganhou moral.

Só que a casa nova impunha o seu ritmo, devagarinho, como maré cheia.

***

O grande teste foi ao décimo dia.

O Manel estava no duche quando percebeu que o chão da banheira começava a parecer um pequeno lago. Desligou a água, inspeccionou o escoamento. Népia, a água empancada. O termo sifão veio-lhe à cabeça, a Mariana dizia muitas vezes: É preciso limpar o sifão, senão a água deixa de correr. Ele assentia e fugia.

De cócoras à caça do dito cujo, desmontou tudo com perícia de aprendiz. O tubo abriu-se em modo cascata e, sem cerimónia, despejou-lhe meio rio Douro na casa de banho. O Manel derrapou, tentou tapar a fuga com a toalha inundou-a.

Correu pela casa descalço, já em modo Peniche no inverno, a procurar o tal ventil de que o senhorio tinha falado. Na cozinha, debaixo do lava-loiça, fechou a água. Salvou-se a casa, o orgulho ficou bem molhado.

Primeira vontade? Telefonar à Mariana, ela sempre sabia destas coisas. Mas ouviu-lhe a voz cá dentro: Nada de perguntas práticas!. Pousou o telemóvel.

Acabou por ligar ao Paulo.

Ó Paulo, sabes arranjar um sifão?

O quê? Eu? Isso chamas ao senhor Joaquim, um mestre em canos.

No dia seguinte, o senhor Joaquim, canalizador já de vida feita, tratou do problema em quinze minutos. Cobrou como se o Manel tivesse encomendado um aqueduto romano. O Manel ficou a olhar.

Isto é preço de tabela? arriscou.

É, sim senhor, respondeu o canalizador, já de costas.

A Mariana nunca chamava ninguém por dá cá aquela palha, pensou o Manel. Ela mesma mexia, comprava juntas no AKI. Ele não sabia como nem em que horas mas a canalização funcionava.

***

Por essa altura, ao Manel ocorreu uma ideia rasteira: ligar à Sónia, uma ex-qualquer coisa antes da Mariana, há uns vinte anos. Sabia, pelas amigas, que estava divorciada, viam-se nos anos dos amigos comuns de vez em quando.

Sónia, olá! É o Manel Correia.

Manel? Chiça, tanto tempo!

Olha, agora estou a viver sozinho… Queres jantar qualquer dia?

Houve silêncio.

Separaste-te?

Estou… em pausa. Quase.

Está bem, podemos jantar.

No restaurante do centro, a Sónia apareceu bem posta, cabelo curto, andar seguro. Ele notou, entre garfadas e copos de vinho, que ela estava elegante. Já ela percebeu logo ao segundo copo que ele estava ali mais despachado que disponível para romance.

Então e vives onde? quis ela saber.

Pronto, aluguei um apartamento na Rua da Boavista.

Gostas?

Quis dizer «sim», mas saiu-lhe um «é razoável; a máquina de lavar dá-lhe para não centrifugar, o fogão também já pede reforma».

Sónia olhou-o com aquele olhar de quem não espera grandes feitos: aquele misto de pena sem paixão, como quem vê um turista perdido sem mapa.

Jantaram a custo, cada um a falar dos seus filhos. Ela não voltou a ligar. Ele também não.

***

Mais ou menos por essa altura, o Manel convocou o Paulo e o Hugo para um copo. Sexta à noite porque o Paulo tinha reunião com a professora do filho da parte de cima, e o Hugo precisava de estar sóbrio para ir com a mulher à terra dos sogros no sábado.

Juntaram-se os três num bar, cervejas a correr, bola na TV, conversa puxada por fios de pura rotina. A certa altura, o Paulo saca a pergunta:

E então, Manel, esse novo autodidatismo doméstico?

Vai-se andando.

A Mariana não te telefona?

Nada.

O Paulo e o Hugo trocaram olhares.

Mas nem para saber se tomaste os remédios?

Nem um bom-dia.

Isso é ou sinal óptimo ou calamidade absoluta, opinou o Hugo.

Como assim, calamidade?

Quer dizer, se calhar está óptima sem ti.

O Manel terminou a cerveja. Não queria pensar nisso. Na verdade, pensava nisso todos os dias. Só não queria admitir.

Às oito e meia, os dois tiveram que ir. Cada um para o seu lar. O Manel ficou sozinho, pediu mais uma cerveja e segurou o bar até fechar.

***

A Mariana, nos primeiros dias, realmente sentiu-se meio baralhada, mas não era bem vazio. Era mais uma sensação de espaço a mais. Como se alguém tivesse empurrado o sofá da sua vida para o lado, e ela ainda não sabia se gostava ou não disso.

Ligou à Zefa, a amiga do café.

Ele foi-se embora, disse a Mariana.

Foi-se embora?! Para onde?

Arrendou casa. Diz que estava a sufocar.

A Zefa suspirou.

E tu, filha? Como estás?

Para dizer a verdade, não estou assim tão mal. Nem uma lágrima me saiu.

Se calhar só te cai mais tarde.

Talvez. Logo se vê.

A seguir foi a Irene do grupo de mulheres, a velha companheira de consultas. A Irene não tinha papas na língua:

Graças a Deus! Mariana, já te dizia há dez anos.

A sério, Irene, não exageres…

E quando foi a última vez que fizeste algo por ti?

Mariana pensou. Demorou.

Fui ao cabeleireiro no verão passado…

Pois.

Nessa semana, aceitou ir a uma aula de yoga com a Irene. Apareceu com o fato de treino ainda com etiqueta, percebeu logo que não tinha flexibilidade nenhuma.

Não te aflijas, sorriu a instrutora, rabo-de-cavalo e bom humor. Aqui começamos todos duros.

Duas semanas depois já ela dobrava os joelhos sem aviso prévio. Frequentava a aula três vezes por semana. A seguir, ia com a Irene ao café e ficava à conversa até se esquecer das horas. Descobriu que já não se lembrava da última vez que tinha ficado assim, em paz, sem aquela urgência de voltar para casa para meter o jantar ao Manel.

À noite lia. Antes, adormecia à quinta página. Agora lia uma hora, uma hora e meia devagar, sem pressa.

Um dia o Simão telefonou.

Mãe, o pai diz que está a viver sozinho.

Verdade.

E como estão?

Olha, vai-se andando. Mas eu, sinceramente, estou bem.

O Simão calou-se.

Mãe, vão divorciar-se?

Ainda não sei. Não pensei nisso.

Não ficaste triste?

Fiquei surpreendida. Mas não triste.

O Simão meditava sempre um bocadinho antes de processar as coisas.

Olha, se precisares de qualquer coisa, telefona.

E tu também. Não só nos anos.

***

Houve um momento em que a Mariana parou a meio da cozinha e ficou ali cinco minutos, só a olhar pela janela.

Lavava a caneca matinal quando, de repente, pensou nos vinte e seis anos. Mais de metade da vida adulta. Ali dentro havia um bocadinho de tudo sim, também havia coisas boas. A primeira casa deles, que pintaram com as próprias mãos. O Simão, pequeno, ajoelhado em mercurocromo. Uma viagem ao Algarve há muitos anos, em que riram os três durante dois dias sem razão. O riso ficou as razões, essas, sumiram no tempo.

Tudo isso agora era passado, como fotografias que já não se tocam.

Esperou que aquilo lhe passasse. Passou. Não logo, mas passou.

Pôs a chávena a escorrer e foi vestir-se para o yoga.

***

O Eugénio apareceu por acaso.

Foi por causa da vizinha de baixo, a Dona Lurdes, octogenária cheia de memórias e de vontade de conversa à entrada do prédio. Pediu à Mariana para mudar uma lâmpada, porque o filho só vinha na semana seguinte e não via nada no corredor. Mariana lá foi, e quando estava a trocar o foco, apareceu o filho mas não o que vinha para a semana, outro, o que não estava previsto.

Chamava-se Eugénio, tinha uns 48 anos, barba, bom casaco, e aquele ar cansado de quem trabalha horas a mais.

Mãe, já arranjaste quem te faça as coisas de casa? sorriu ele ao ver a Mariana.

A Mariana ofereceu-se, disse Dona Lurdes, inchada de orgulho.

O Eugénio ficou grato.

Obrigado. Eu devia ter vindo, mas nem pensei que a mãe já estava toda às escuras.

Não é nada, sorriu a Mariana.

Conversaram uns dez minutos ali na porta. Descobriu-se que ele também estava no ramo da construção, mas noutra empresa. Ela mencionou que trabalhava como contabilista. Ele despediu-se com vontade de voltar.

Três dias depois, tocou-lhe à campainha. Levava compras para a mãe, e uns chocolates para a Mariana em sinal de agradecimento.

Era escusado, protestou a Mariana, mas aceitou as guloseimas.

Importa-se se entro? Queria só perguntar-lhe sobre o seu Manel, a minha mãe disse que ele sabia imenso de fornecedores…

Mariana hesitou.

O Manel está a viver noutro lado, mas posso dar-lhe o contacto.

Já percebi, disse o Eugénio, sem escândalo evidente. Não a chateio mais.

Uma semana depois ligou de novo: tinha resolvido o problema sozinho, mas gostava de ir tomar um café, como vizinhos. Mariana pensou e aceitou.

Foram até à pastelaria da esquina. Conversaram sobre trabalho, sobre a mãe dele, sobre como o bairro tinha mudado. Ele simpático, atento, com um sentido de humor que aparecia dois segundos antes das piadas.

Está casada há muito tempo? perguntou ele, sem malícia.

Vinte e seis anos. Ou melhor, estive. Agora nem sei bem.

Percebo, disse ele. Nada de perguntas.

Mariana gostou disso.

Voltaram a encontrar-se. Ele não apressava nada, telefonava só de vez em quando para saber como estava. Aquela falta de pressa foi como abrir a janela num quarto abafado: soube-lhe bem.

***

O Manel começou a perceber falhas inesperadas em si.

Por exemplo, não sabia esperar. Antes, tudo aparecia feito: comida, roupa lavada, arranjos. Agora era esperar que as meias secassem, que o arroz estivesse pronto, que o canalizador viesse, que a constipação passasse (apanhou uma e ficou três dias a suar em cima da cama, água morna e paracetamol comprados à pressa).

Ou isso de comer em silêncio vinte e seis anos sempre com gente à mesa. Primeiro o Simão, depois a Mariana. Ela falava ou estava calada, mas era um silêncio humano. Aqui era mesmo o vazio.

Começou a ligar a televisão para não ouvir o silêncio à refeição. Ajudou um pouco.

Na terceira semana, ligou ao Simão:

Olá, filho.

Olá, pai. Tudo bem?

Vou andando… Estou na Boavista.

A mãe já me disse.

E a tua mãe está bem?

O Simão calou-se um instante.

Está, diz que está óptima. Vai a yoga, vê as amigas.

O Manel ruminou aquilo.

Não sente a minha falta?

Pai, telefonaste só para perguntar isso?

Claro que não… só perguntei.

Está bem, pai. Vocês estão os dois bem. Isso é bom.

O Manel desligou e ficou a olhar para as paredes, sem conseguir dar um nome ao que sentia. Nem dor, nem raiva só um vazio igual ao de procurar uma coisa e já não saber o que era.

***

No vigésimo terceiro dia, cruzou-se no elevador com a vizinha do 2.º esquerdo, jovem, olhos vivos, chamada Leonor ela própria se apresentou.

Mudou-se agora, não foi? começou ela.

É só temporário, disse o Manel.

Separou-se?

Ele nem se escandalizou.

Sim.

Não faz mal sorriu Leonor. Vive no 4.º? Era onde morava o Sr. Sousa, o que cantava fado às terças.

Não, estou no 3.º, com cortinas mostarda.

Ah, o apartamento do Sr. Andrade. Ele só aluga a homens sozinhos, diz que as famílias dão muito trabalho.

Desceram juntos. Ela trabalhava numa veterinária, tinha gato e plantas por todo o parapeito.

Um dia, o Manel ajudou-a com os sacos das compras. Foi brindar à hospitalidade dela com um chá, casa acolhedora, aroma a canela. Mas ele só conseguia pensar que nunca tinha a cozinha tão arrumada: no dele, o lava-loiça já ameaçava revolta.

Continuaram a cruzar-se. Nada de extraordinário. Ele sentia-se esquisito como uma frase inacabada.

Certa tarde ela perguntou:

Vai ficar por aqui muito tempo?

Não sei, para ser sincero.

Tem ar de quem está em trânsito.

Talvez esteja.

Olhe, também estive assim dois anos depois do divórcio. Às vezes, o pior é não sair desse entre-portas. Depois, pensa-se: Dois anos, para quê?

Ele gravou aquilo.

***

No trigésimo primeiro dia, foi ao mercado e comprou cravos. Não porque alguém mandasse ou houvesse um aniversário só porque ficou parado a olhar para eles e lembrou-se que a Mariana sempre gostou mais de cravos do que de rosas as rosas são obrigatórias demais, dizia ela.

Comprou o ramo, pagou em euros e foi à Rua das Flores.

No metro levou o ramo, houve quem olhasse, quem nem reparasse. O Manel ia a pensar o que diria. Imaginava a Mariana a abrir a porta, primeiro surpresa, depois feliz. Afinal, vinte e seis anos juntos.

Chegou à porta, carregou no novo botão. Ouviu passos e vozes feminina, masculina.

A porta abriu só com a corrente a meio. Viu o rosto da Mariana, o olhar sereno.

Ó Manel.

Vim cá.

Estou a ver.

Trouxe-te isto. Mostrou os cravos.

Ela olhou, não com raiva, não com lágrimas, sem o drama que ele esperava.

Não te posso abrir a porta.

Porquê?

Mudei as fechaduras.

Vejo. Mas, Mariana, porquê?

Por trás dela passou alguém, sombra masculina. O Manel espreitou.

Quem é?

Isso já não é contigo.

Mariana, espera… Eu… percebi uma coisa.

O quê?

Abriu a boca, fechou ainda com as palavras por iniciar.

Que era bom contigo. Que não valorizei. Que tudo isto foi uma parvoíce.

Ela olhou-o, paciente.

Sabes qual é o problema, Manel? Tu percebeste que estavas bem. Mas não percebeste porquê. Achas que o problema era faltar-te a Mariana. Não era. O que te faltava era quem passasse as tuas camisas.

Não é justo, Mariana.

Se calhar não é. Mas é o que é.

Foram vinte e seis anos…

Eu sei. Foram bons, nalgumas partes também. Mas não quero mais vinte e seis iguais.

Nem me dás uma hipótese?

Ela hesitou, tempo suficiente para pesar em silêncio.

Queres saber a verdade? Também estou a respirar melhor. Afinal, também me faltava o ar. Só que nunca disse nada.

Ele ficou com o ramo na mão.

Mariana…

Vai, Manel. Liga ao Simão. Fala com ele. Não sobre mim só fala, pai e filho.

A porta fechou-se suavemente, o trinco rodou.

O Manel ficou. O ramo foi descendo, até quase ao chão. Os cravos estavam vivos, não sabiam nada da vida.

Na escada, o único ruído era vindo da TV atrás da porta do vizinho.

O Manel foi ao elevador.

***

Carregou no botão, o elevador chegou num ápice. No espelho, viu-se: um homem de ramo na mão, bom casaco, ar de quem acaba de perder ou de ganhar tudo ou as duas coisas ao mesmo tempo.

Saiu à rua, já era noite, as luzes nos candeeiros, um ou outro transeunte apressado. Caminhou em direcção ao metro.

Ao passar por um banco de jardim, viu uma senhora de idade a dar pão aos pombos.

O Manel pousou ali o ramo.

Se quiser, leve, disse.

A senhora olhou, depois aos cravos.

São bonitos. Então ninguém os quis, pois não?

Pois não.

Já acontece, encolheu os ombros e voltou aos pombos.

O Manel seguiu. A rua era a mesma de sempre, as casas sem espanto, a vida igualzinha. Em qualquer canto daquela cidade, a Mariana fechara-lhe a porta e recomeçava o seu serão, sem ansiedade. O Simão andava pela vida dele, também com telefone pronto para qualquer chamada sem motivo.

E na casa das cortinas mostarda, a louça acumulava-se.

O Manel tirou o telemóvel.

***

No metro, ficou a olhar para o vidro escuro: via apenas o próprio reflexo, meio desfocado.

Isto é estranho, pensou ele, meio sem pensar.

O comboio andava. Pessoas entravam e saíam. Uns jovens, outros velhos, uns exaustos, outros cheios de energia, cada um nas suas minúcias e nos seus telemóveis. Nenhum deles sabia do Manel ou dos seus cravos, dos seus vinte e seis anos, da porta fechada.

Saiu na sua estação, subiu até à rua.

O ar estava gelado, já cheirava ao primeiro frio do ano.

O Manel parou, olhou para cima.

O céu era só céu.

Depois caminhou para casa.

***

Nessa noite, às duas da manhã, o Manel estava acordado, a contemplar o tecto. O apartamento igual, cortinas mostarda a barrar a luz dos candeeiros, frigorífico a gemer agora e depois.

E lembrou-se de uma coisa.

Há uns oito ou dez anos, ele e a Mariana tinham ido ao Ribatejo à casa de férias dos pais dela. À noite, sentados na varanda a beber chá, escutavam o silêncio, só cortado pelo chilrear. A Mariana calada, ele também, mas aquele silêncio era do bom, daqueles vivos, que não precisam de explicação.

Na altura pensou: É isto que é bom. E não disse nada. Guardou para ele, esqueceu.

Deitado no sofá alquilado, tentou lembrar-se da última vez em que pensara assim. Não conseguiu.

Lá fora, uma coisa indefinível, talvez chuva miudinha, talvez nuvens a ameaçar inverno.

Dentro de casa, silêncio.

***

De manhã, levantou-se, pôs água no fervedor e decidiu que precisava de chávenas decentes. As que o Sr. Alfredo deixou tinham um naco em falta, quase se cortava a beber.

Pensou em ligar ao Simão.

Pensou que tinha que tratar da papelada no escritório os relatórios trimestrais já lhe estavam a escorregar.

Pensou nas palavras da Mariana. Ela também sentia falta de ar. Afinal, ambos.

Nunca lhe ocorrera ela era parte daquela rotina que ele via como cela, e nunca se lembrou que, talvez, para ela também fosse uma cela, só que era ela que passava as camisas.

O fervedor apitou.

Encheu a chávena lascada, bebeu o chá.

Lá fora, começava a cair um frio a sério, branco e contínuo, a pousar na janela.

Pegou no telemóvel, abriu os contactos, procurou Simão.

Hesitou. Depois ligou.

Simão, olá, é o pai. Só liguei. Tudo bem?

Tudo, pai. E tu?

Vou gerindo. Por aqui já está frio. Aí?

Aqui também já se sente.

Silêncio.

Pai… está tudo bem contigo?

O Manel olhou pela janela. O frio embrulhava-se ainda mais.

Estou a aprender, disse, finalmente.

Olha, liga sempre que quiseres.

Vou ligar. E tu liga também, não só nos anos.

Está prometido.

Despediu-se, ficou a olhar para a chávena. O chá estava bom.

Lá fora, o frio caía.

***

Por essa hora, noutro lado da cidade, a Mariana também observava através do vidro. Tinha um café na mão, a sala aconchegada e silenciosa. O Eugénio já tinha ido embora, nunca ficava a dormir era um acordo tácito, ainda não era tempo, não havia pressa.

Pensava no Manel. Nem com raiva, nem com nostalgia. Era só um pensar limpo, de quem viveu vinte e seis anos ao lado de alguém. Imaginava-o à porta, com flores, cheio de dúvidas e a cara de quem já percebeu umas coisas, mas ainda não percebeu o resto.

Não sentia raiva. Isso já lá ia. Quando ele saiu, ficou zangada, o que até a surpreendeu, porque por fora achava-se calma, mas por dentro havia uma irritação antiga ele nunca perguntou como é que ela se sentia, só reclamava da rotina, mas a rotina era ela a fazer. Ele queixava-se do tédio, mas ela nunca teve tempo para pensar se estava aborrecida.

Depois a raiva passou. Restou uma calma que lhe assentava bem.

Pegou no telemóvel, escreveu à Zefa: Yoga amanhã?. A resposta veio rápida: Já pensei que não dizias nada! Sim.

A Mariana sorriu, pousou a chávena.

Lá fora, também caía frio.

***

Nessa noite, o Manel telefonou ao senhorio e perguntou se podia prolongar a renda por mais dois meses.

Pode, claro. É só pagar.

Depois foi comprar chávenas sem lascas. Comprou duas. Depois hesitou, levou três.

Ainda foi ao supermercado, saiu de lá com frango, batata, cenoura, cebola. Achou uma receita de sopa no telemóvel, quatro passos simples. O último dizia: “Sal a gosto”.

Ficou a olhar, hesitou: Que raio será ao gosto?. Arriscou o sal, ainda pôs de mais, mas a sopa saiu decente.

Sentou-se à mesa com uma tigela cheia, comeu devagar.

Em silêncio, soube-lhe a comida.

***

A vida seguiu, como sempre segue. A Mariana ia ao yoga, encontrava o Eugénio sem pressas, o Manel cozinhava, falava mais com o Simão, via o Paulo e o Hugo de vez em quando agora sem esposas, mais relaxados.

O divórcio ficou em águas de bacalhau. Não pela decisão, mas porque era preciso avançar, e, para já, não lhes apetecia esforço.

Um dia cruzaram-se no supermercado da rua onde sempre foram. Ele estava entretido a decifrar etiquetas no leite sem lactose, com o ar muito compenetrado.

Ela aproximou-se.

Ó Manel.

Virou-se, olharam-se. Ele estava menos inchado, mais atento.

Olá, Mariana.

Olá. Estás com bom ar.

Tu também.

Ficaram ali, uns segundos.

Queres esse leite? perguntou ela.

Estava indeciso.

Este é o que costumo levar, recomendou.

Obrigado.

Foi cada um para a sua fila na caixa. Saíram quase ao mesmo tempo.

Então, disse ele. Fica bem.

Fica também, disse ela.

Para um lado, ela. Para o outro, ele.

E cada um foi à sua vida, no silêncio confortável do não saber o que viria a seguir.

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