Maria da Conceição soube que o marido andava com a vizinha do lado no quintal, quando lá foi pedir sal para conservar os pepinos. Foi o próprio Joaquim quem abriu a porta. O seu Joaquim. De cuecas de algodão e camiseta já bem gasta.
Quim? só conseguiu sussurrar ela.
Ele ficou pálido, depois ruborizou-se, e em seguida voltou a empalidecer.
São Espera. Eu posso explicar
Atrás dele surgiu Alzira, a vizinha que ficou viúva há muitos anos. Vestia um roupão, nitidamente lançado por cima do corpo nu.
Quim, quem está aí? perguntou ela, e avistou Maria. Ai, minha querida
Ficaram os três a olhar uns para os outros por um momento. Depois, Maria virou-se e caminhou depressa em direção ao portão, quase a correr.
São! Espera! Joaquim lançou-se atrás dela, esquecendo-se das cuecas e da camisola.
A rua, que tinha uns doze lotes de quintal, encheu-se de gente a espreitar.
Joaquim Mendes, homem respeitado, presidente da associação dos quintais, ali a correr de cuecas atrás da mulher.
Isto é circo ou quê comentou Manuel, o vizinho da esquerda.
Maria correu para dentro de casa e trancou-se. Joaquim batia à porta.
São, abre! Deixa-me explicar!
Há quantos anos? gritou ela pelo buraco da porta.
O quê?
Há quantos anos tu e a Alzira andam juntos?
Joaquim calou-se. Depois, em voz baixa, respondeu:
Dezoito.
Maria escorregou, apoiando-se na porta, e sentou-se no chão. Dezoito anos. Justo a idade do filho mais novo, Filipe, que tinha acabado de fazer dezoito.
O portão rangeu, e Alzira entrou no pátio. Já estava vestida e penteada.
Maria, vem cá fora. Temos de conversar.
Vai-te embora, víbora!
Maria, somos pessoas crescidas. Não há razão para escândalos.
Maria respirou fundo, recompôs-se e saiu. Sentou-se nos degraus da casa. Alzira sentou-se ao lado e Joaquim ficou a algum lado, sem saber que fazer.
Dezoito anos murmurou Maria. Como é que isto aconteceu?
Lembras-te quando tiveste problemas nas costas? Dois meses internada em Lisboa?
Ela lembrava-se. Operação, recuperação longa. Joaquim deixou os pepinos secarem, os tomates apodreceram. Ela até se admirou como ele aguentou sem ela.
Fui eu que lhe dei uma mão continuou Alzira. Ia lá ajudar na horta, na cozinha. E pronto
E depois aconteceu resmungou Joaquim.
Dezoito anos! Maria levantou-se. Ficaram-me a fazer de parva dezoito anos!
Ninguém te fez de parva Alzira também se levantou. Tu viveste a tua vida, nós a nossa.
A nossa? Ele é o meu marido! Pai dos meus filhos!
E então? Deixou de o ser? Os filhos não comeram sempre? O quintal não esteve sempre cuidado?
Maria ameaçou levantar a mão, mas Joaquim segurou-a.
São, deixa lá isso.
Não me toques!
Ela fugiu para dentro de casa. Já havia uma multidão à porta. As novidades no bairro espalham-se num instante.
Vão-se embora! gritou Joaquim. O espetáculo acabou!
Ninguém arredava pé. Falavam e cochichavam. A Rosa do lote três dizia alto:
Eu sempre soube! Já os vi juntos vezes demais!
Estás a mentir respondeu-lhe o marido. Tu vês mal como um rato cego.
Mais cego tu! Eu vejo tudo.
À noite, Maria ficou na varanda. Joaquim andava ali à volta, inquieto.
São, diz qualquer coisa.
Dizer o quê? Divórcio!?
Divórcio? Então com sessenta anos às costas?
E depois? Aos sessenta ninguém se separa?
São, não sejas tola. Quarenta anos de vida juntos!
Dezoito deles com a Alzira.
Vivi contigo! Só às vezes ia ter com ela.
Às vezes?
Bem duas vezes por semana.
Duas vezes por semana durante dezoito anos não é “às vezes”, Joaquim. Isso é rotina.
Ele sentou-se à frente dela.
São, acredita. Eu amo-te. Mas a Alzira é diferente.
Melhor?
Não melhor. Só diferente. Contigo é a casa, os filhos, a lida. Com ela descanso. Pouso de tudo.
Descanso! Também podia querer descanso, mas sou eu que trato dos pepinos!
Pois, é isso! Tu tens sempre algo a fazer! Pepinos, tomates, compotas! E eu a querer só sentar, beber um copo, conversar.
E comigo não conversas?
Contigo só se fala de filhos, netos, hortas. Com ela falamos da vida, de livros.
Ela lê? admirou-se Maria.
Alzira parecia-lhe uma mulher tão simples, mesmo de aldeia.
Lê. E até poemas sabe. Gosta de clássicos.
Maria quase se riu. Joaquim e os clássicos.
E agora?
Não sei. Decides tu.
Eu? E tu?
Olha, São, tenho sessenta e dois. Que decisões há a tomar? O que resta é viver o resto em sossego, só isso.
Com quem? Comigo ou com ela?
Joaquim calou-se. Depois disse:
Não posso ficar com as duas?
Maria agarrou no primeiro frasco de pepinos à mão e atirou-lho. Errou. O frasco desfez-se na parede.
Sai daqui!
Joaquim foi-se. Para casa da Alzira, claro.
Nessa noite Maria não dormiu. Pensou. Quarenta anos juntos. Dois filhos e netos. O quintal construído lado a lado.
E dezoito anos de mentira.
Mas teria sido mentira? Ele nunca prometeu fidelidade. Não jurou amor eterno. Só viveu. Com ela e com Alzira.
De manhã foi a Ernestina, do lote cinco, que chegou com um bolo.
Maria, aguenta-te.
Obrigada.
Se precisares, o meu marido dá uma carga de porrada no Joaquim.
Não é preciso. Não somos crianças.
E então, o que queres fazer?
Ainda não sei.
Eu já o tinha posto na rua, traidor!
Ernestina, o teu António não anda também a visitar a Rosa do lote três?
Ernestina corou.
Quem te disse isso?
Vi-os no meio das framboesas.
Isso não é o que parece!
Então o que era?
Estavam a olhar para as couves!
De mãos dadas?
Ernestina foi-se embora, de rompante.
Ao almoço apareceu Manuel.
Dona Maria, então, quer ajuda na terra? Alguma coisa?
Não, Manuel. Obrigada.
Olhe, o Joaquim pediu para dizer que mais logo vem buscar as coisas.
Que coisas? As cuecas?
Pois não sei. Só pediu para avisar.
Avisei. Obrigada.
Manuel ficou, sem jeito, e foi-se.
Ao anoitecer, Joaquim veio. Cabeça baixa.
Vim buscar as coisas.
Leva.
Ele foi ao quarto. Maria foi atrás.
Ó Quim, porquê a Alzira? O que tem ela?
Ele parou ao fundo do corredor.
Não sei. Com ela é fácil.
E comigo é difícil?
Não difícil. Mas tu sabes sempre tudo. Como fazer pickles, quando semear batatas, quanto pôr no envelope dos netos. Ela não sabe. Pergunta-me.
E fazes-te importante
Mais preciso.
Maria sentou-se na cama.
Quim, eu também não sei tudo. Por exemplo, não sei como se continua a vida quando um marido anda dezoito anos com a vizinha.
São
Não sei como encarar os filhos. Ou explicar aos netos porque é que o avô mora agora na vizinha.
Não expliques!
Tenho de explicar, Quim. Amanhã vem o Jorge com a mulher e o pequeno. O que digo?
Diz que discutimos.
Joaquim sentou-se ao lado.
São, e se tentamos esquecer isto tudo?
Como?
Fingimos que não aconteceu.
Pois, com a Alzira ali ao lado e a fingir?
Tens melhor ideia?
Maria chegou à janela. Via Alzira regando pepinos, sempre no mesmo roupão.
Olha faz como entenderes. Mas aos netos, explicas tu.
São!
E este ano, os pepinos fazes tu. Sozinho.
Eu não sei!
A Alzira é entendida. Aprende rápidotambém com pepinos.
Joaquim saiu com o saco de roupa. Toda a rua a olhar.
Naquela noite, Maria acordou com barulho. Alguém andava no quintal e murmurava para si. Abriu a porta. Era Joaquim.
O que andas a fazer?
A ver dos tomates. Amanhã dizem que vai estar quente, tenho que abrir as janelas da estufa.
Mas tu já não te foste embora?
Fui. Mas os tomates são meus! Fui eu que os plantei!
E então?
Não quero que morram!
Abriu as janelas e saiupelo portão do lado.
De manhã, Jorge chegou com a família.
Mãe, o pai?
Está na vizinha.
A visitar?
Mora lá.
Jorge sentou-se.
Como assim?
Maria contou o essencial, sem muitos pormenores.
Dezoito anos?! Mãe, mas então
Quando Filipe nasceu, sim
Jorge foi direto à Alzira. Ouviram-se gritos, o portão bateu com força. Jorge voltou.
O pai disse que vos ama às duas.
Uma sorte a nossa.
Ó mãe, não estejas assim. Pode ser verdade, quem sabe?
Achas que tu conseguias? Amar duas mulheres?
Eu? Não. Mas eu não sou o pai. O pai é diferente.
É verdade.
O neto entrou pela sala.
Avó, porque é que o avô mora com a tia Alzira?
Porque o avô está a ajudar na horta dela respondeu Maria.
Jorge desatou-se a rir.
Tu és demais, mãe
Nessa noite, mais barulho. Maria saiu. Joaquim estava a regar os legumes.
Estás tolo?
Com esta seca, morre tudo!
Vai regar a tua nova horta.
A Alzira tem o próprio quintal!
Então cuida desse.
Mas custa-me ver este assim!
Maria pegou na mangueira.
Vá, vamos lá, antes que passes o dia nisto.
Regaram em silêncio. Sentaram-se na velha bancada.
Quim, afinal, quem gostas mais?
Que pergunta é essa, São?
Uma pergunta normal. Quem?
Joaquim pensou.
A ambas. Mas de formas diferentes.
Explica.
Tu és como mão direita: habitual, forte, sem ti não sou nada. Ela é como um feriado. Raro, mas alegre.
E se eu desaparecesse?
Bate na madeira! Não digas isso.
Só pergunto. Casavas com ela?
Talvez não.
Porquê?
Porque ela também acabava sendo a mão direita. E já não havia feriado.
Então precisa das duas?
Parece que sim.
Ficaram ali a olhar as estrelas.
Quim, e se eu também tivesse o meu feriado?
Joaquim levantou-se em sobressalto.
O teu quê?
Um companheiro, talvez o Manuel que até se ofereceu para ajudar
O Manuel?! Eu a ele!
O que farias? Moras com a Alzira.
Isso é diferente!
Em quê?
São, tu não és assim.
Sabes lá! Se calhar vou começar a ler clássicos também!
Tu?!
Vou experimentar.
Joaquim suspirou.
São, a sério, o que queres?
O que queria ela? Que tudo voltasse ao que era? Mas antigamente não volta.
Quero viver tranquila. Fazer pickles. Mimosear os netos.
E?
E nada. Mora onde quiseres.
Quer dizer?
Se queres a Alzira, vai. Se quiseres vir a casa, aparece. Mas não mintas mais.
E se vier cá o Manuel?
Ele não vem. Tem a Natália do lote nove.
Como sabes?
Quim, não sou cega. Só calei-me. Como todos por aqui.
De manhã, Joaquim chegou com as coisas.
Posso voltar, mesmo?
Há colchão no barracão. Enche-o e dorme lá. Depois se vê.
Foi buscar o colchão, sacou do saco de roupas.
Os vizinhos espreitavam, cochichando. Alzira regava pepinos, fingindo indiferença.
O filho saiu à varanda.
Mãe, o pai voltou?
Está no barracão, a encher o colchão.
E tu, já o perdoaste?
Não sou santa, mas é tarde para mudar.
Passou uma semana, Joaquim foi pouco a pouco voltando à casa. Passado um mês, Maria já nem prestava atenção quando ele ia duas vezes por semana à vizinha. Um ano depois, ninguém no bairro se lembrava daquela história.
Agora, já havia outros boatos: a Rosa foi viver com o Pedro do lote cinco e a Ernestina foi para a casa do marido da Rosa.
Maria continuava a fazer pickles de pepino. Joaquim, construía mais uma estufa. Alzira, do outro lado da cerca, lia o seu livro.
Afinal, o que é o amor? Quarenta anos juntos, criar os filhos, construir a casa, plantar o pomar.
E aceitar que tudo o que é perfeito só existe na nossa esperança. Nem mesmo o amor.
Especialmente o amor.







