7 de maio
Hoje foi uma daquelas tardes que vão ficar marcadas no meu calendário, como um divisor de águas na minha própria casa. Nem sempre me dou ao trabalho de escrever, mas hoje sinto que preciso colocar isto no papel para não esquecer a lição e, quem sabe, libertar no processo um pouco do peso que ficou no peito.
A história começa com a Dona Filomena, minha querida sogra (ou talvez não tão querida assim, ultimamente…), armada como sempre das suas intenções de proteger o “menino dela” e destruir o nosso frigorífico no processo. Mal eu tinha terminado de limpar o pó da sala, já o prédio inteiro ouvia o seu vozeirão ecoar no vão das escadas:
Então, mas o que é isto? O raio da chave não entra! Fecharam-se aí dentro, foi? Leonor! Frederico! Sei perfeitamente que estão em casa, o contador não mente! Abram-me a porta já! Tenho os sacos pesados, pá, já nem sinto as mãos!
A voz estridente da Dona Filomena, capaz de pôr em sentido qualquer escuteiro, chocava contra as paredes do prédio como se fosse sirene de emergência. Ali estava ela, à porta de casa do filho, a tentar enfiar à bruta o velho molho de chaves dela numa fechadura novinha em folha, reluzente. Ao lado, acocorados no chão de mosaico, dois sacos de compras aos quadrados, do supermercado da esquina, de onde espreitavam ramos de coentros já murchos e o gargalo de um frasco com algo entre branco e suspeito.
A Leonor, que subia as escadas a caminho do terceiro andar, parou e encostou-se à parede para recuperar o fôlego e tentar acalmar o coração. Cada visita da sogra era mais um teste à resistência dela, mas hoje tínhamos mudado as regras do jogo. Hoje era o “Dia D”. O suficiente já tinha sido dado.
Inspirou fundo, ajeitou bem a alça da mala no ombro e, com o rosto de uma serenidade forçada de quem treina para campeã olímpica de diplomacia, subiu o último lanço com passos firmes.
Ó Dona Filomena, boa tarde, disse ela ao chegar ao patamar, quase a sorrir. Não grite tanto, senão ainda chama a polícia. E com esses safanões ainda parte a fechadura. Sabe o que custa uma destas?
A sogra virou-se de rompante. Na cara dela, pintada pela laca do cabeleireiro de bairro, os olhos faiscavam de indignação.
Olha-me esta! gritou ela, mãos nas ancas Estou aqui há meia hora, a suar bicas, a ver se entro, e vocês nada! Porque é que a chave não dá? Mudaram o canhão?
Mudámos, sim senhora, respondeu a Leonor, sacando as novas chaves da carteira. Foi ontem, esteve cá o serralheiro.
E ninguém avisa a mãe? Dona Filomena quase nem respirava de tão ofendida. Venho de Algés só para vos trazer mantimentos, a desgastar estas pernas, e encontro-me barrada à porta? Anda, dá-me aí uma chave nova, que preciso de meter carne no congelador antes que azede!
A Leonor chegou-se à frente da porta, tapando a passagem, e olhou a sogra olhos nos olhos. Há uns tempos teria perdido o rumo, corrido buscar duplicados e a desculpar-se para evitar que alguém se chateasse com ela. Mas depois do que aconteceu há dois dias, não lhe restava paciência para se anular.
Chave para si já não há, Dona Filomena, nem haverá.
O silêncio que se seguiu pesava tanto que se podiam ouvir as moscas voar. A sogra olhava para a nora como se esta tivesse começado a falar mandarim ou criado um segundo par de braços.
Tu… mas tu o que é que estás para aí a dizer? resmungou ela, agora num tom ameaçador Andas a trabalhar demais, perdeste o juízo? Eu sou a mãe do Frederico! Eu sou a avó dos vossos futuros filhos! Este apartamento é dele!
É NOSSO, foi comprado com crédito da Caixa, pagamos a meias e se bem se lembra, o sinal veio da venda da casa da minha avó, em Penafiel, retorquiu a Leonor. Mas nem é isso o mais importante: o verdadeiro problema é que a Dona Filomena passou todos os limites.
A sogra levantou as mãos, quase deixando cair o frasco suspeito.
Limites!? Eu faço isto por amor! Venho sempre ajudar-vos, vocês só comem porcarias, desbaratam o dinheiro todo! Vim aqui fazer uma vistoria, pôr a casa em ordem… e diz-me agora que há “limites”?!
Só faltava mesmo a vistoria… Leonor começou a sentir a raiva gelada subir-lhe pelos ossos Vamos recordar o que fez anteontem? Eu e o Frederico estávamos a trabalhar. A Dona Filomena entrou aqui com a sua chave, fez o quê?
Limpei o frigorífico!, respondeu ela com orgulho Aquilo estava uma lástima! Tanta coisa estragada, queijos a cheirar mal, iogurtes estrangeiros, valha-me Deus… deitei tudo fora, lavei as prateleiras, trouxe comida a sério fiz um panelão de caldo verde, amassei croquetes.
Atirou para o lixo queijo Roquefort que custou vinte euros ao quilo, começou Leonor, contando nos dedos. Mandou o meu molho pesto caseiro pela sanita abaixo, achou que era “sopa verde” estragada. Fez desaparecer dois bifes do lombo porque achou que estavam “velhos”. Mudou todos os meus cremes para o armário da casa de banho, onde ficou um forno, e estão todos estragados. Prejuízo? Sei lá, duzentos euros. Mas não é o dinheiro: é andarem a remexer nas minhas coisas.
Salvei-vos de uma intoxicação, gritou Dona Filomena. Esse queijo francês é um veneno! E carne boa tem que ser vermelha, não cheia de nervos! Vocês deviam comer peito de frango como vos trouxe! E sopa, muita sopa!
Aquela sopa feita com ossos que a Dona já roeu a semana passada? não resistiu Leonor.
Isso é sabor, miúda! Nos anos oitenta comiamos até ossos e ninguém morreu… Tu, Leonor, estás é mimada. No teu frigorífico é só iogurtes, ervas, iogurtes outra vez… Onde é que está a bela da marmelada? Onde estão os enchidos? Eu até trouxe uns pepinos em conserva, couve à antiga é comer, que faz bem à saúde, rapaz!
Leonor olhou para os frascos. O líquido turvo dos pepinos não inspirava confiança já o cheiro da couve forte atravessava o saco de plástico.
Não comemos tanto salgado, o Frederico está proibido pelo médico, suspirou Leonor. Já lhe disse vezes sem conta para não aparecer sem avisar, para não mexer nas nossas coisas, para não fazer inspecções Mas como a senhora tinha chave, achava que isto era extensão da sua despensa. Por isso é que mudámos o canhão.
Tu não tens vergonha! A sogra carregou, tentando empurrar Leonor da porta. Vou ligar já ao Frederico! Vais ver como ele resolve isto! O filho abre-me a porta!
Tem à vontade, Leonor respondeu. Ele deve estar a chegar.
Dona Filomena, bufando, tirou do bolso do casaco o velho telemóvel. Com dedos trémulos, lá carregou nos botões, sempre a lançar olhares de fúria à nora.
Frederiquinho! Meu querido filho! gritou tão alto que até a Leonor estremeceu. Sabes o que é que a tua mulher inventou agora? Não me deixa entrar em casa! Trocaram-me a fechadura! Estou feita mendiga nas escadas, cheia de sacos, as costas rebentadas, o coração nas mãos! Ela quer-me matar! Vem já resolver isto!
Foi ouvindo a resposta do filho e a cara passou de exultante para incrédula.
Como assim “eu sei”? Tu sabias das fechaduras? Como é, Frederico, deixas a tua mãe à porta?! Estás feito capacho? Vais deixar uma mãe à chuva? Estás cansado? De quê, do cuidado de tua mãe? Eu dei tudo por ti!
Desligou, mirando Leonor com ódio.
Estão de acordo, é? Não faz mal. Já cá está ele, quero ver se me nega a entrada na cara.
Leonor virou costas, pôs a chave à porta, e só respondeu:
Eu entro, Dona Filomena. Espere pelo Frederico cá fora. Não entra em casa.
Isso é o que vamos ver! lançou ela, fincando o pé na porta.
Mas a Leonor foi mais rápida. Saltou para dentro e enfiou a porta, trancando à chave e ainda lançando a tranca de segurança. Sentada junto ao metal frio da porta, escutou a tempestade a desabar do lado de lá: punhos na madeira, berros, pisadelas no chão.
Ingrata! Cobra no ninho! Vou chamar a GNR, digo que castigas o meu filho à fome! Abre já a porta! Tenho a couve a azedar!
Da cozinha, fez-se de surda. O frigorífico, depois da “invasão”, exibia-se assustadoramente limpo, quase intocado. Abriu a porta: no meio das prateleiras vazias, lá estava o panelão de caldo verde, abadessado a chouriço e gordura, com cheiro a repolho velho a abrir caminho pelas narinas.
Sem pensar duas vezes, Leonor pegou na panela e despejou tudo pela sanita, acionando logo o autoclismo duas vezes. A panela foi para a varanda não tinha cabeça para esfregar nada hoje.
De copo de água na mão, Leonor deixou-se cair numa cadeira, as mãos a tremer. Lembrou-se de todas as manhãs em que Dona Filomena invadia a casa às sete, com pretexto de “sacudir o pó dos móveis”. Todas as vezes em que metia as roupas a lavar com detergente barato, a cheirar a lixívia, só porque “o amaciador dela não limpava a sério”. Todas as críticas, todas as “lições” de como fazer um homem feliz à moda antiga.
O frigorífico foi a gota de água. Era ali, naquele espaço pequeno e branco, que ela guardava o pouco que restava só para si. Quando viu os seus queijos e peixes especiais deitados ao lixo, trocados por panelas e frascos misteriosos, ficou claro: ou se defendia, ou acabaria solteira. Não ia viver só para agradar a sogra.
O barulho lá fora foi amainando. Talvez Dona Filomena economizasse forças para o próximo round.
Uns vinte minutos passaram e ouvi o barulho da chave na fechadura. Fiquei tenso. Frederico entrou, exausto. Gravata torta, olheiras profundas.
Atrás dele, Dona Filomena vinha menos brava, olhos ainda aguçados, determinada como sempre.
Vês, meu filho? entoou logo Tua mulher perdeu a vergonha, trancou-me à porta. Vai buscar os sacos, trouxe croquetes acabados de fritar…
Mas Frederico fez-lhe frente, tapando a entrada.
Deixa os sacos aí fora, mãe. Não vais entrar.
Dona Filomena ficou de boca aberta. O saco dos pepinos escorregou-lhe das mãos e tombou no chão.
Como? Expulsa-me, Frederico? Por causa desta rapariga?
Mãe, basta de ofensas. Já chega. Falámos disto ontem: só entras se avisares antes. Vieste sem avisar, entraste com a chave, mexeste nas nossas coisas, atiraste fora a nossa comida. Isto não é ajuda, é ultrapassar os limites.
Ajuda? Só faço isto por vocês! elevava a voz Até vos dou comida feita! Se não quiserem ajuda, digam de uma vez!
Não queremos esse tipo de ajuda, Frederico respondeu, firme. Não comemos sopas com ossos velhos. Nem croquetes cheios de pão. Sabemos cuidar de nós.
Pois muito bem, declarou a Dona Filomena, olhos semicerrados. Já vi que já não precisam de mãe. Esquece quem ficou noites acordadas contigo, Frederico! Esquece quem te deu tudo!
Mãe, não é preciso dramatizar. A chave era só para emergências. Água, fogo. Não para inspecções. Como não respeitou, foi trocada. E não vai voltar a ter.
Pois então fiquem com a chave! berrou ela, fazendo até o cão do vizinho ladrar. Aqui nunca mais volto! Estão bem madeirenses? Quando precisarem de ajuda, não venham atrás de mim!
Agarrou as tralhas. Um dos sacos rasgou e cenouras murchas rolaram chão abaixo.
Vejam bem! Tudo para vocês… e isto é o agradecimento. Tsc!
Cuspiu no tapete, virou costas e desceu aos empurrões pelas escadas, de rajada de impropérios. Só quando bateu a porta do prédio é que o silêncio regressou.
Frederico fechou a porta, lançou o ferrolho, e veio sentar-se.
Então, está tudo bem? perguntou baixo, largando-se no puff.
A Leonor abraçou-o. Ele cheirava a escritório e a nervosismo.
Sim. Olha, obrigada. Achei mesmo que ias ceder.
Também eu temi. Mas percebi que se não dissesse nada, perdia-te. Não quero acabar divorciado por causa de caldo verde rançoso.
Ela riu, um riso nervoso, mas libertador.
Olha que tens aí fora cenouras a precisar de ir para o lixo disse ela.
Eu trato disso, vai descansar. Hoje foste tu a comandante da muralha.
À noite ficaram na cozinha, apenas os dois. O frigorífico era um espaço livre, limpo, uma página em branco. Fizeram o que nunca podiam: encomendaram uma pizza gorda, com extra queijo, cheia de tudo o que Dona Filomena considerava um atentado à saúde.
Aposto que vai aguentar um mês sem falar. Depois liga a queixar-se das tensões, adivinhou Leonor.
Pode ligar. Mas a chave não volta a ter.
Nunca, prometeu Leonor.
A campainha tocou, ambos estremeceram. E se ela voltava?
Frederico foi ao olho mágico.
Quem é?
Entrega do supermercado! respondeu um jovem.
Leonor lembrou-se: durante a limpeza das cenouras, tinha finalmente feito a encomenda online.
Dez minutos depois estavam a arrumar sacos: alface crocante, tomates frescos, bifes de salmão, iogurtes, e, claro, um novo queijo com bolor azul.
Arrumar o frigorífico foi um prazer. Era dela. O seu território. As suas regras.
Frederico, amanhã mudamos também o trinco de baixo, está bem?
Ele sorriu e abraçou-a.
E punha lá uma câmara de vigilância, para garantir.
E ficaram ali, banhados pela luz do frigorífico, a sentirem-se os mais livres do mundo. Porque felicidade é isto não é só quando te entendem, é quando ninguém se mete na tua vida nem no teu tacho. Às vezes ganha-se paz trocando a fechadura e mudando as regras do jogo com a família, mesmo que doa. Depois, vem o melhor: aquela quietude rica onde, finalmente, se pode viver em paz.
Hoje aprendi isto: há batalhas que precisamos travar para começar a viver de verdade na nossa própria casa. E o sabor da vitória, mesmo misturado com lágrimas, vale sempre mais do que um prato feito por obrigação.







