Simplesmente Continuar a Viver
Mafalda, uma menina pequenina e endiabrada com dois totós despenteados apontados cada um para seu lado, corria feito foguete pelo alpendre ensolarado da casa de campo dos pais, perto de Viseu. Os olhos brilhavam de excitação, as bochechas coradas de tanta traquinice. Mal viu o amigo mais velho do irmão a dirigir-se calmamente para o portão de saída, cravou os calcanhares no soalho, parou em seco a arfar e lançou-se atrás dele.
Sem pensar duas vezes, Mafalda saltou para o lado do rapaz e agarrou-lhe a mão com aquelas palminhas quentes e determinadas. Esticou o pescoço, olhou-o de baixo para cima com uma sinceridade tão transparente que mais parecia água fresca, e desatou numa risada tão sonora que até os pardais pararam de chilrear:
Nunca te largo! Quando for crescida, caso contigo. Só tens de esperar, prometo!
O rapaz ficou um segundo desconcertado, arqueou as sobrancelhas, mas logo sorriu com aquela ternura própria dos adultos diante dos disparates de uma criança. Despenteou-lhe ainda mais os totós com uma mão suave, que a miúda quase até se esqueceu do fôlego perdido.
Eu espero, Mafaldinha.
Com ares de conspirador, inclinou-se a falar-lhe nos olhos, com a voz mole de quem conta um segredo só entre amigos:
Até lá, porta-te bem, faz os trabalhos de casa e ouve os teus pais. Só assim podes ser uma noiva digna do meu calibre, hein?
Nada severo, só aquele tom doce com que se fala a crianças em quem se vê futuro. Mafalda fez cara séria, pensou nos conselhos como se ponderasse questões de estado, e no fim acenou com a cabeça como quem aceita nomeação para ministra:
Está bem! Vou ser a melhor, tu vais ver!
O sol enchia o ar de alegria, os risos faziam cócegas no vento, e os sonhos puros da infância pareciam tão possíveis quanto a existência do Pai Natal
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Mafalda estava sentada no quarto, folheando distraidamente o manual de matemática. O sol já não entrava e o silêncio era só cortado pelo rumor abafado da conversa que vinha do lado da sala. O irmão, Rafael, falava animadamente ao telefone, coisa rara entre muros habitados por adolescentes.
Mafalda colou-se sem dar por ela à porta do corredor, tentando pescar pedaços de conversa. A certa altura, ouviu o nome do Guilherme. O coração tropeçou. Era sobre o amigo do irmão, a tal paixão secreta que só ela achava não aparecer na testa.
O irmão diz qualquer coisa sobre o encontro, o café, o sorriso dela… Não havia dúvidas falavam da nova rapariga do Guilherme.
De repente, Mafalda já não estava na cadeira, mas de pé e em bicos de pés junto à porta do quarto do irmão, como uma agente secreta improvisada. Encostou o ouvido à madeira fria e fincou ali toda a esperança de criança (já quase adulta) desconfiada. Tudo latejava lá dentro, a alma e os ciúmes.
Quando Rafael desligou e abriu a porta, Mafalda endireitou-se num salto, mas já era tarde foi apanhada.
O Guilherme tem namorada nova?! saiu disparado, antes que o irmão pudesse dizer olá sequer. O tom saiu a tremer, mas ela tentou parecer casual como quem comenta o tempo.
O irmão fitou-a um segundo, compreensivo mais do que zangado. Toda a casa já sabia que o olhar dela brilhava diferente quando o nome Guilherme pairava no ar; que ela guardava fotografias, batons, tudo o que tivesse um quê de ligação àquele vizinho giro de sorriso maroto.
Outra vez? bufou o irmão, encostando-se com ar de sábio ao batente da porta. Mafalda, já tens dezasseis anos. Já era tempo de largares esta paixoneta de infância, não achas? Isso passa. Só mania de criança.
Ela ergueu o queixo com aquela teimosia que só as jovens portuguesas sabem encarnar. Cruzou os braços e atirou convicção pelo olhar:
Nunca! Não entendes nada! Ele vai apaixonar-se, vais ver! Isto não passa, é mesmo amor!
Aquela voz tão corajosa, mas tão de quem também tentava convencer-se a si própria… Vieram-lhe à memória todos os sorrisos do Guilherme, os gestos, os pequenos toques que colecionava como relíquias de menina sonhadora.
Rafael nada disse. Sabia bem todas as palavras do mundo não serviam para nada naquele momento. Aquela paixão, que parecia tão de miúda, ocupava na verdade o lugar inteiro do coração da irmã…
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Um raio de luz atravessou as cortinas e varreu o quarto com calor de junho. Mafalda apareceu na sala tal e qual uma gema de ovo fresca: vibrante, contagiante, de sorriso mais largo do que o Mondego depois das chuvas. Os olhos brilhavam como só brilham olhos de quem tem o peito a explodir de alegria.
Sem fôlego da excitação, foi a correr ter com o irmão que sorvia o café calmamente e despachava as notícias no tablet:
Ele pediu-me em namoro! saiu-lhe, quase aos berros, a voz a tilintar de felicidade como sino na aldeia. E foi num fôlego só: Trouxe-me um presente no aniversário, uma caixinha linda com o meu nome gravado, e disse que agora que já sou maior de idade podia confessar que gostava de mim! O Guilherme gosta de mim!
Quase pulava de entusiasmo, as mãos apertadas de nervos enquanto tratava dos caracóis, porque nunca se sabe quando aparece uma câmara de televisão ou um pedido de casamento surpresa.
Rafael pousou calmamente a chávena no pires e sorriu como quem acabou de acertar no Euromilhões sem querer admitir, já estava à espera daquele dia. O Guilherme, metade dos jantares, só falava de Mafalda: queria saber o que ela gostava, se preferia tulipas ou margaridas, de manhã ou à noite, e arrastava sempre a conversa para como seria ir acampar todos juntos. Oh, o romance à portuguesa…
É bonita, dedicada, inteligente… Só falta mesmo fazer dezoito repetia Guilherme, cabisbaixo a olhar para o horizonte das serras, como se esperasse o milagre da adolescência apressada. Tu não te importas, pois não, Rafael?
O irmão sempre respondia o mesmo: Olha, se ela for feliz, só posso bater palmas. Sabia do valor do rapaz amigo, o tipo em quem se pode confiar para empurrar o carro na subida e ouvir desabafos nos cafés de bairro.
Parabéns, ó melhor irmã do mundo disse Rafael, enquanto a puxava para um abraço apertado. Que sejas feliz! E já agora, vê lá se me apresentas amigas tuas…
Mafalda afundou-se no abraço do irmão, ainda sem acreditar que não estava a sonhar. A felicidade pairava no ar, os gatos ronronavam no parapeito contentes até parecia que a casa toda sorria.
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A jovem encontrava-se agora sentada num banco frio de plástico, num corredor de hospital, daqueles que cheiram a detergente e tristeza. Os muros sujos de bege e a luz pálida que vinha da janela pareciam carregar luto no ar. Mafalda, de mãos caídas sobre o colo, os caracóis desfeitos, o olhar vazio como de quem vê sem estar, deixava o tempo correr sem lhe ligar.
Os dedos estavam tão imóveis como a roupa amarrotada. Já não era a rapariga de totós vivazes, nem a jovem apaixonada; era mais uma boneca quebrada, sentada numa estação onde ninguém chega. Só lhe passavam pela cabeça os segundos finais a discussão sobre as fitas do casamento, a risada do Guilherme, as promessas de perfeição… E depois, nada. Um acidente na estrada entre Mangualde e Viseu, e a vida desfaz-se como prato de louça arremessado ao chão. Ninguém sobreviveu. Nem Guilherme, nem os outros. Uma fração de segundo e o futuro passava a ser passado num instante.
O silêncio foi cortado pelos passos. Rafael apareceu do fundo do corredor, com os olhos vermelhos como ginjas no Natal e o rosto da cor de papel reciclado. Sentou-se ao lado dela, encostado aos azulejos, e envolveu-a nos braços a tremer, a segurar nela como tábua de salvação.
Mafalda? murmurou, com aquela voz baixa de quem tem medo até de falar alto.
Ela virou-se muito devagar. Os olhos secos, como se o sal tivesse acabado; mas neles escurecia uma dor tão funda que parecia o mar, desses que não deixam ver o fundo.
Sobre o quê? saiu-lhe a frase num tom sem vida, só porque não sabia fazer mais nada.
O irmão respirou fundo, à procura das frases certas.
Sobre o que quiseres respondeu, apertando mais o ombro dela, como se na força do gesto pudesse devolvê-la à terra firme. Desabafa, chora, grita… Não guardes tudo dentro.
Mafalda abanou a cabeça. Chegou a tremer, mas nem lágrimas nem sequer soluços.
Não consigo admitiu no fim, com um fio de voz. Não tenho lágrimas. Vontade de viver também não.
As palavras caíram que nem pedras no chão do hospital, fazendo eco nas paredes despidas. Rafael mordeu o lábio, a conter o grito de revolta. Sabia que precisava ser forte por ambos.
Depois disso, Mafalda fechou-se ainda mais. O olhar preso num canto qualquer, indiferente ao que lhe diziam ou faziam. Os médicos vieram ver, tentaram; nada. Até as enfermeiras, já calejadas, sentiam pena. No fim, deram-lhe um calmante e o sono caiu-lhe em cima como um cobertor pesado e sombria.
Quando acordou, já não era o hospital, mas o seu quarto cortinas cor de alfazema, livros na prateleira, uma foto com um sorriso antigo. Tudo familiar e ao mesmo tempo já não. Viu o irmão, Rafael, sentado na poltrona, barba por fazer e voz cansada. Conversava baixinho com a mãe, que tinha regressado da Bélgica, onde dava aulas. A mãe parecia ter envelhecido anos, com olheiras fundas e olhar decidido.
Tenho medo por ela ouviu o irmão confessar, em tons sussurrados. A Mafalda nunca gostou de mais ninguém. Era só o Guilherme. Que vai ser dela agora?
O tempo cura, meu filho respondeu a mãe, mas sem demasiada convicção. Sabia bem demais que estes males não passam só porque era isso que se espera que aconteça. Vamos ajudá-la. Não está sozinha.
A Mafalda escutava cada palavra sem se mexer. Por fora parecia dormente, por dentro era só vazio, um buraco negro a consumir tudo. Fingiu que dormia, só porque não sabia como responder aos gestos de carinho.
Rafael saiu em bicos de pés, acenando para a mãe, que ficou sentada junto à cama, a fazer festinhas na mão da filha, só para tentar emprestar-lhe alguma força com o calor das suas mãos. O relógio ia marcando o tempo e nada parecia acontecer mas tudo era diferente.
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Nove dias. Quarenta dias. O tempo passava devagar, viscoso e cinzento como os invernos em Trás-os-Montes. Mafalda mantinha-se imóvel no parapeito da janela, pernas encolhidas, olhar perdido no quintal que um dia fora palco do seu coração. Havia a tal bancada sob o velho carvalho, onde o Guilherme lhe pedira que fosse sua para sempre. Ela lembrava tudo o nervosismo dele, como se atrapalhou ao tirar o anel, o discurso engasgado. Ela teve de rir de tanta felicidade, aceitou sem esperar pelo fim da frase.
Agora a bancada parecia só velha e o jardim deixado ao abandono. O inverno tinha devorado o outono e Mafalda nem se apercebera.
Mafalda, anda comer? chamou a mãe suavemente, interrompendo a ruminação da filha.
A mãe aproximou-se, pousou a mão gelada no ombro dela também ela não se aquecia desde então. Olhou Mafalda nos olhos, lágrimas a vacilar e a resistir, porque sabia que não podia fraquejar.
Não me apetece respondeu, sem sequer virar a cara. Só o tom abúlico de quem fala de outrem.
Tens de comer, filha. Ontem também não tocaste em nada. Nem por ti, ao menos para teres forças.
Para quê? questionou, finalmente encostando o rosto. Não estou aqui por mim.
A mãe estacou, as palavras engolidas pela dor. Só deu um suspiro tremido e afastou-se. Era impossível lutar contra o que não se vê.
No corredor, Rafael aguardava. Assentiu num gesto, que mais dizia eu sei do que qualquer discurso.
Falei com a Dra. Matos murmurou a mãe, amarfanhando o avental. Precisamos mesmo de ajuda. Isto não passa com sopas nem chá.
O irmão acenou. Já o suspeitava há muito e agora não havia volta. Ter a irmã ali, apática, toda ela só suspiros e ausência, doía mais do que um murro. Chegou o momento da ação, não das emoções.
Ligo-lhe hoje à tarde. Ela disse que podia ajudar.
E lá ficou Mafalda, cada vez mais silenciosa, fundida ao parapeito da janela, quase tanto como o vidro e o frio da paisagem lá fora.
Quando caiu a noite e a lua apareceu pálida, ela levantou-se do peitoril como se tivesse cinquenta anos e não dezanove. Mal conseguia manter-se em pé, as pernas finas tremeram. Arrastou-se até à cama e ali se deitou, dormindo a medo, na esperança de não sonhar.
Mas o sono foi tudo menos calmo.
Sonhou com o Guilherme. Ele apareceu igualzinho ao que fora: sorriso maroto, hoodie cinzenta, aquele brilho nos olhos. Só que não sorria, estava sério.
Mafalda, olha para ti. Isso é maneira de viver?
Ela queria tocar-lhe, mas só atravessava ar.
Não posso sem ti sussurrou, as lágrimas a caírem-lhe do rosto.
Podes, sim retorquiu ele, carregado de convicção. Sempre foste mais forte do que julgas. Tens de continuar, ouviste? Escolhe viver. Promete.
Aproximou-se tanto que ela juraria sentir o toque dele.
Ainda tens tanto por fazer O mundo não acabou. E se precisares de mim, estou nas estrelas. Só tens de olhar para cima e chamar-me.
Ela soluçou a tentar aguentá-lo ali, mas o sonho esfumou-se e só restou uma palavra ecoando:
Promete.
Mafalda acordou, de súbito. O quarto, a luz baça, a almofada ensopada em lágrimas. Dentro do peito era um turbilhão. Gritou. Um grito mesmo, para acordar toda a casa.
Pais e irmão entraram a correr.
Mafaldinha, estás bem? a mãe já a agarrava pelos ombros, num misto de susto e ternura.
O que foi, diz murmurava o irmão, lívido.
Ela só chorava, sem conseguir responder, o corpo a tremer desalmadamente. O olhar pairava ainda no sonho, o eco da voz do Guilherme, as palavras repetidas até doer.
E ela, entre soluços, murmurou baixinho:
Prometo
E a mãe aninhou-a nos braços, balançando-a devagar, enquanto Rafael apoiava a cabeça na almofada delas sem saber muito bem o que dizer, mas com a certeza de que às vezes só estar perto já começa a sarar as feridas.
Na cabeça da Mafalda, uma ideia começava a testar forças: se ele acreditava nela, ela devia tentar. Por ele, pelo menos.
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Numa noite carregada de trovoada, a família juntou-se na sala. A mãe colocou chá na mesa, mas ninguém tocou, só olharam cada um para o seu vazio. Agora era preciso decidir.
Devíamos mudar de cidade disse Rafael, num tom resoluto mas calmo. Cada esquina aqui só faz a Mafalda lembrar-se dele. É impossível recomeçar.
Ela estava enroscada na poltrona, só os olhos vivos já não vazios, mas inquietos. Nem argumentou, nem fez questão.
Noutro sítio seria mais fácil interveio a mãe, apertando-lhe a mão. Pessoas novas, rotinas novas. Às vezes faz milagres.
Mas para onde? perguntou Mafalda, quase num sussurro.
Para Coimbra. Tenho lá um amigo que até me arranjava trabalho, a casa é boa explicou Rafael. Arranja-se tudo, até preparares candidatura para a faculdade se quiseres.
A mãe sorriu:
Só queremos que fiques melhor. É o mais importante.
Mafalda pensou nos lugares todos, nas memórias, nas árvores do quintal, nos recantos da cidade tudo repleto de passado, cada pedra carregada de saudade.
Está bem, vamos respondeu baixinho. Foi o seu primeiro sim em semanas, um princípio de aceitação, um possível primeiro passo.
Os dias seguintes passaram entre malas, caixas, suspiros e lembranças. Mafalda pouco mexeu era só sustentar o olhar nos objectos, hesitar entre guardar ou largar, decidir se os recuerdos iam ou ficavam.
Na última manhã, saiu à varanda e despedir-se do quintal foi ferida aberta, mas aguentou. Vais conseguir repetiu para si mesma. Por ele. Porque prometeste.
Coimbra recebeu-os, fresca e barulhenta, cheia de avenidas de olaias e prédios desconhecidos. A nova casa era luminosa, o bairro com cafés onde já ninguém sabia o nome dela, nem o passado.
Nos primeiros dias tudo parecia estranho e fora do tempo. Mafalda acordava com vontade de voltar atrás, sonhava com Guilherme e acordava lavada em lágrimas. Com o passar do tempo, foi reparando nos detalhes: as tulipas do parque, o empregado da pastelaria que sorria ao vê-la outra vez, os pequenos gestos do quotidiano a encostar de mansinho à alma.
A dor nunca desapareceu, mas foi aprendendo a acomodá-la. Viver continuava a ser um desafio, mas, um dia de cada vez, Mafalda começou a fazer o que prometera: continuou a viver. Porque percebeu que trazer o Guilherme consigo era isso mesmo: não parar.
E, lá no fundo, jurava que ele sorria para ela do alto das estrelas.
Porque ela resistia.
Porque ela vivia.






