Ser feliz é uma obrigação
O meu pai saiu de casa para viver com outra mulher quando eu, Maristela, tinha apenas quatro anos. Partiu logo depois do Ano Novo, olhou-me na porta, disse “desculpa” e fechou a porta da entrada atrás de si.
A minha mãe aceitou a situação com uma calma surpreendente, quase como se fosse um fado inevitável. Na sua família, nenhuma mulher tinha tido um casamento duradouro. Mas, algumas semanas depois, numa noite silenciosa, tomou todos os comprimidos que encontrou em casaben-u-ron, tranquilizantese adormeceu para nunca mais acordar.
De manhã, chamei a mãe insistentemente. Depois, fui petiscar o que havia no frigorífico, regressei ao quarto a acordá-la, mas nada. Finalmente, cansada, adormeci encostada a ela.
Janeiro passa num instante; já escurecia quando finalmente abri os olhos. O frio acordou-me, puxei ainda mais o cobertor para cima e abracei-me ao corpo da mãe, mas em vez de aquecer, o frio aumentou. Nesse momento compreendi que aquele frio terrível vinha dela, uma ausência gélida e insuportável. O calor das lágrimas queimou-me o rosto.
A porta da entrada abriu-se lá fora. Num ápice corri até lá. Era a tia Celeste, irmã mais nova da minha mãe.
Maristela, estás em casa. E a tua mãe? Estou todo o dia a ligar-lhe, por que não atende? Já estava preocupada!
Agarrei-me ao casaco da tia, a puxá-la com força, olhando-a com olhos cheios de lágrimas. Apontava para o quarto, a boca aberta num grito silencioso, o rosto contorcido em desespero, baba e ranho a correrem, mas nada de voz.
Celeste nunca conseguiu ter filhos; depois de cinco anos juntos, o marido foi-se embora. Sempre me amou de forma verdadeira e dedicada, quase como mãe. Quando a tragédia aconteceu, tratou da minha tutela; fiquei com ela dedicação total, amor incondicional, mas a minha voz nunca mais voltou, nem após anos de tentativas e terapias.
Nesse inverno, o frio chegou com o Dia de Reis, a cidade coberta de neve, de verdade: branca, fofa, a ranger debaixo dos pés. Passei o dia a brincar no Parque Eduardo VII com as amigas, deslizando de trenó, fizemos uma família de bonecos de neve, rebolámos em montes gigantes e desenhámos anjos brancos no chão.
Pronto, está na hora, minha menina. Já tens a roupa toda dura de neve, as luvas viraram blocos de gelo. Vamos passar pelo Continente antes, para comprar leite e massa, disse Celeste, já arrumando tudo.
Gente entrava e saía no supermercado, as portas abriam e fechavam, mas ali ao lado direito da porta, repousava um gato laranja. Sentado, sereno, os olhos semicerrados, como quem diz que não quer nada, só sente o ar, mexendo apenas as patas da frente, incomodado com o frio. Aproximei-me dele, baixei-me até ficar à sua altura. Indiquei à tia para ir ela tratar das compras.
Pronto, mas não saias daqui, está bem?
Acariciei o gato com calma, que se espreguiçou de puro prazer e soltou um ronronar baixinho. Abracei o pescoço dele, encostando a minha cara à sua cabeça. Subitamente, lágrimas ferventes desceram pelas minhas faces, e o bichano começou a lambê-las, espirrando e lambendo, numa confusão.
Ai, menina, não faças isso! Ele anda na rua, está sujo.
Celeste pegou-me pela mão e puxou-me para o carro. Eu resisti, tentei escapar, mas ela conseguiu sentar-me no banco de trás e foi para o volante.
O gato aproximou-se do carro, fitando-me e miando baixinho.
Não pode ser, ele já é meu e agora vou deixá-lo sozinho sussurrei, passando as lágrimas pelo vidro.
Foste tu que disseste?! Diz outra vez, anda diz! pediu Celeste, já quase a chorar.
Não o podemos deixar! Ele vai morrer sem mim! gritei-lhe, a voz saiu por fim, quase sem acreditar.
Sem hesitar, ela saiu do carro, pegou o gato ao colo e sentou-se comigo atrás. O peludo, assustado, enterrou as garras no casaco dela, mas ao ver-me, saltou logo para o meu colo e ficou ali quietinho, confiante, e eu a sorrir como há anos não sorria.
Queres mesmo o gato? Era só dizeres, já o teria arranjado para ti há muito, respondeu Celeste, com um sorriso de quem, finalmente, me via voltar à vida.







