Olha, tenho de te contar o que aconteceu ao Simão. Ele foi à aldeia visitar a tia Leonor, que era a irmã mais velha da mãe dele. Antes de falecer, a mãe tinha mesmo pedido que ele não a deixasse sozinha e que desse sempre um olho nela.
A tia Leonor já era pequenina e velhota. O Simão já nem sabia quantas vezes lhe tinha sugerido que fosse morar com eles para Lisboa. Garantia-lhe que teria um quarto só para ela, que podia sair ao jardim, que lá havia outras senhoras da idade dela, que se iria sentir acompanhada. Mas a tia Leonor teimava dizia que nunca iria deixar a sua casa da aldeia.
Por isso, o Simão era obrigado, de três em três meses, a tirar cinco dias sem vencimento do trabalho só para poder ir estar com ela. Dois dias perdia-os na viagem e nos outros três ajudava-a em tudo lá por casa. Ainda bem que ele próprio já era chefe de departamento e podia dar-se a esses luxos de tirar mini-férias assim. E ainda por cima o patrão dele é dos melhores amigos de infância!
Naquela primavera, ele não conseguiu ir em março porque aquilo no trabalho estava mesmo caótico, só conseguiu lá chegar mesmo no fim de abril.
Quando chegou, a tia Leonor estava visivelmente pior depois do inverno. A vizinha dela, a tia Maria Augusta, contou-lhe que até tiveram de chamar o INEM duas vezes.
Então mas porque não me ligaste? Sempre que telefonei, disseste-me que estava tudo bem!
Oh, ela fez-me prometer que não te chateava, que não queria que andasses a correr do trabalho para cá. Disse que, quando morresse, então eu que ligasse.
Enfim, nesse dia o Simão foi ao minimercado buscar açúcar e sal, como a tia tinha pedido, e claro, trouxe arroz, feijão, umas latas de atum e leite condensado, porque sabe como ela gosta de ter a despensa composta. Quando voltou, estava um cachorro de rafeiro junto às escadas, aí com uns cinco meses.
Era estranho, cabeçudo e focinho comprido.
Ó tia, onde é que foste desencantar este cachorro?
Apareceu há coisa de um mês. Um dia abri o portão e lá estava ele, todo encolhido de frio, magro como tudo. Agora já vai estando mais robusto. Ficou, faz-me companhia.
O Simão fez-lhe festas, e logo o cachorro pôs a cabeça no colo dele, todo confiante. Ele sempre adorou cães. Nenhuma hipótese em miúdo, os pais nunca deixaram. Agora então, impossível. A mulher dele, a Inês, uma vez teve uma gata que durou três anos em casa e depois desapareceu. Eles nunca conseguiram ter filhos, a Inês não podia engravidar, então há muito que os dois já tinham feito as pazes com isso. Vivem para eles e viajam sempre que podem.
E como é que se chama este novo morador?
Chama-se Farrusco. Era assim que chamava ao meu velho gato.
O Simão desatou-se a rir:
Mas isso é nome de gato!
Que se lixe, o que importa é que ele responde quando o chamo.
Durante os dias em que o Simão esteve lá, o Farrusco nunca o largou. Quando chegou a hora de se despedirem, pediu à tia que não escondesse se estivesse mal, nem pensasse duas vezes a pedir-lhe remédios ou o que fosse preciso.
Já te dei tanto trabalho, sempre a vires cá só por minha causa. Mas pronto, também já não devo cá andar muito tempo
Não diga isso, tia Leonor! Quero-a comigo o maior tempo possível, não é nenhum frete, bem sabe.
Simão, posso-te pedir um favor? Se eu morrer, não abandones o Farrusco, coitado.
Prometo, vou arranjar-lhe quem o adopte.
Nem penses nisso. Quero que o leves contigo. Ele não apareceu aqui por acaso, acredita.
E nisto o cachorro veio encostar-se-lhe ao colo e olhou-o nos olhos, como a pedir promessa.
Está bem, tia, prometo. Se for preciso, o Farrusco vai comigo.
Um mês depois, a tia morreu. O Simão tratou de tudo, enterrou-a, fez o novenário com os vizinhos. Depois levou o Farrusco ao cemitério para se despedirem, como devia ser.
Chegou o dia de virem para Lisboa. Levou açaime e trela, e foram para a estação. Comprou bilhete para o comboio onde aceitavam animais. Quando entraram no compartimento, o Farrusco rosnou logo para um tipo que estava sentado junto à janela.
O homem virou-se, fez um escândalo:
Mas está tudo doido? Agora anda tudo a viajar com lobos?
Está calmo, homem, isto é só o meu cão, o Farrusco!
Isso é lobo! Caço destes todos os anos!
O Farrusco voltou a rosnar, dentes à mostra.
Tire lá esse bicho daqui antes que o mate!
Vai lá andando se queres chegar inteiro à tua estação, ninguém te está a incomodar.
Mais vale ir para o corredor, ao menos estou sossegado!
E assim ficou só o Simão com o Farrusco no compartimento. O Simão olhou-lhe nos olhos e, meio a brincar, perguntou:
Ó Farrusco, tu és mesmo lobo ou não? O cão só lhe pôs a cabeça no colo e abanou o rabo, quase a rir-se. Olha, mesmo que sejas, gosto de ti na mesma.
A revisora meteu a cabeça pela porta:
Então e isso é lobo ou rafeiro?
Olhe, o senhor ali faz-se esperto. Isto é uma raça especial, é cão de busca.
E tem papéis dele?
Tenho, claro, já os mostro.
Começou a vasculhar no casaco e depois, como se tivesse acabado de se lembrar de algo terrível:
Esqueci-me dos documentos dele na bilheteira! Mas sabe, sem papéis nem nos vendiam o bilhete…
Sim, claro assentiu a revisora.
Documentos não apresentou, porque, claro, na bilheteira estava a filha da dona Maria Augusta. No dia seguinte, já estavam de volta a Lisboa. O Simão levou o Farrusco logo ao veterinário da esquina. A médica olhou e perguntou logo:
Você trabalha com o circo?
Circo? Porquê?
Então, isso é claramente um lobo!
O Simão suspirou:
É lobo, mas não desses, foi a minha tia que cuidou dele na aldeia, agora veio morar comigo como ela pediu.
A médica aproximou-se, observou, e confirmou:
Isso é misto, tem um dos pais lobo alemão. É normal, são meigos, leais, quase nunca dão problemas. Deixe cá tratar dos papéis e das vacinas, assim ninguém mais chateia.
A Inês adorou o Farrusco, passou a ser ela a tratar de lhe dar banho, passeio, comida. Dez meses voaram. E um dia, nos feriados do Ano Novo, já a escurecer, a Inês achou por bem ir dar uma volta até ao parque com ele, precisava arejar.
Foram àquele parque a dez minutos de casa. De repente, quando passeavam, o Farrusco parou, cheirou o ar e desatou a correr para dentro dos arbustos no escuro.
A Inês ainda o chamou, mas nada, cinco, sete minutos sem sinal dele. Quando já pensava em ligar ao Simão, vê o Farrusco a voltar a cambalear, arrastando um embrulho com cuidado na boca.
Ela correu era um recém-nascido, ainda vivo. Apesar de ela ser médica, chamou logo a ambulância e a polícia.
Chegaram incrivelmente rápidos. Ela ficou com o Farrusco, mas depois de deixá-lo em casa, correu ao hospital já com o Simão. Disseram-lhe que era uma menina, teria cerca de um mês e perfeitamente saudável.
Deixaram junto dela uma nota: Chama-se Matilde. Por favor, dêem-na a gente de bom coração.
Quando a Inês pediu para ver a bebé, derreteu-se logo. Olhou para o Simão e ele percebeu tudo, acenou que sim. Ela disse à assistente social que era médica, que queriam adoptar a bebé e que não a entregassem a ninguém.
Dois meses depois, lá em casa já cheirava a bebé. A Matilde foi salva graças ao Farrusco, aquele cão especial que, como disse a tia Leonor, não apareceu ali por acaso.







