Sem Volta: Quando Não Há Retorno

Sem Caminho de Volta

Beatriz pousou a chávena sobre a mesa e olhou para o marido. Ele estava ao espelho do hall a compor o colarinho da camisa nova. Era uma camisa justa, com um padrão miúdo aos quadrados, o tipo de camisa que costumam vestir rapazes de vinte e poucos anos, não homens que fariam cinquenta dentro de um mês.

– Manuel, vais trabalhar ou tens outro compromisso?

– Claro que vou trabalhar, onde mais haveria de ir?

– Só quis confirmar. Nunca te vi usar assim.

Ele voltou-se. No olhar dele havia algo diferente. Um distante desassossego, um leve impaciência. Como se estivesse com pressa para sair, e ela fosse o obstáculo.

– Bia, as pessoas renovam o guarda-roupa. É normal.

– Não disse nada.

– Exactamente. Não dizes, mas olhas.

Ele vestiu o casaco. Não o clássico cinzento, já com sete anos de uso, sempre pendurado no cabide, mas um novo, curto, azul-escuro. Beatriz seguiu-lhe os passos com o olhar e depois levou a chávena à cozinha. Março estava no início, chuvoso e cinzento. No parapeito da janela ficava o vaso de gerânio, que ela regava à terça-feira. As folhas eram firmes, um cheiro fresco, caseiro. Encostou a testa ao vidro, pensou que a última vez que ela e Manuel saíram juntos fora em outubro. Ao teatro, uma peça de que gostou, mas que ele atravessou em silêncio até casa.

Vinte e cinco anos. Há muito que deixara de os contar em dias.

Beatriz trabalhava como contabilista numa pequena empresa de construção na periferia de Lisboa. Era um sítio sereno, previsível, e a equipa mal mudava com os anos. Sempre a trataram com respeito até os mais velhos a chamavam Dona Beatriz. Era metódica, pontual, nunca atrasava nem se despedia antes da hora. Em casa, a ordem reinava. Trocava a toalha da mesa todos os domingos: a listrada de linho clara dava lugar a outra igual, lavada e engomada. O roupão era fofo, cor creme, comprado havia três anos e ainda estimado. Gostava das noites calmas com um livro, chá e um doce de groselha preparado por ela todos os agostos. A vida organizada como um vestido bem feito: nada a mais, tudo a preceito.

Foi em fevereiro que Manuel começou a mudar. Matriculou-se num ginásio. Sozinho, nada de outro mundo, mas o tom com que o anunciou no jantar era outro. Não decidi cuidar de mim, mas sim cansei-me de estar em baixo de forma. Beatriz não deu grande importância. Homens a aproximarem-se dos cinquenta, crisis da meia-idade, já tinha lido sobre aquilo. Aparelhos de ginásio, dietas, a urgência de provar a si próprios que o passado não chegou ao fim. Que fosse, saúde nunca atrapalhou.

Depois veio o perfume. Marcante, adocicado, uma nota artificial diferente da colónia discreta de madeira a que Beatriz estava habituada. Aquele cheirava pelo corredor mesmo depois de ele sair. Um dia, abriu o frasco no wc e leu o nome: importado, fictício, preto com prata. Repôs no sítio.

Depois, camisas novas. Outra, depois mais uma. Depois uns jeans caros e justos, gastos nos joelhos, que descobriu ao arrumar o armário. Voltou a pendurá-los, fechou a porta.

Em março, os atrasos no emprego aumentaram. Primeiro uma vez por semana, depois mais. Desculpas banais: jantar com colegas, ficar em projeto, visitar um amigo. Beatriz ouvia e acenava. Confiar tornou-se hábito ao longo desses vinte e cinco anos não se soma tudo isso só por números, mas porque a confiança é a argamassa de um casamento.

No entanto, algo pesava lá dentro. Suave, persistente, como um velho corte que dói com a água fria.

Em abril, viu que ele andava mais agarrado ao telemóvel. Antes, deixava-o na mesa e ia à vida. Agora, estava sempre no bolso. Quando tocava, saía do compartimento. Uma vez, Beatriz entrou na cozinha e viu Manuel virar subitamente o ecrã para baixo e perguntar, sem jeito, se precisava de ajuda no jantar. Nunca antes ele se oferecera para tal.

A sua amiga mais antiga, Madalena, disse-lhe sem rodeios:

– Bia, não vês? É típico, crise de meia-idade. O meu, aos quarenta e oito, comprou mota e andou três meses de cabedal. Cansou-se, vendeu.

– O Manuel não é assim.

– Eles nunca são, até serem.

– Mada, não me metas ideias.

– Eu só digo com coração. Olha com atenção.

Beatriz olhou. Quanto mais observava, menos percebia. Manuel estava fisicamente ali, jantava, dormia, falava, como sempre. Mas era diferente. Distância invisível, conversas de circunstância. Outra pessoa, sem ser cruel, apenas absorto noutra vida.

Certa noite, enquanto tomavam chá, ela perguntou, servindo-lhe primeiro, como de costume:

– Manuel, está tudo bem contigo?

– Está.

– Tens estado afastado.

Ele ergueu os olhos da chávena:

– Ando cansado, muito trabalho.

– Eu entendo. Só queria saber.

– Está tudo normal repetiu, tirando uma bolacha.

Maio mostrou-se ameno. Beatriz plantou petúnias na varanda, compradas no mercado sempre à mesma senhora, rubras e brancas, em floreiras compridas. Orgia-as de manhã, apreciava florescerem. Era o seu pequeno refúgio diário.

Nesse mês, ele chegou a casa perto da meia-noite, mais do que uma vez. Dizia ter jantares de negócios. Beatriz não contestava. Ouvia os sons dele na casa de banho, depois o soalho ranger no quarto. Só dormia depois disso.

Até que perguntou diretamente:

– Manuel, tens outra pessoa?

O silêncio preencheu a cozinha. Demorou-se demais para responder.

– Porque perguntas isso?

– Por perguntar.

– Bia, não inventes.

– Está bem. Não se fala mais nisso.

Mas alguma coisa mudou por dentro. Não partiu, apenas deslizou, como um móvel saindo do seu lugar a casa era a mesma, mas andar nela tornava-se estranho.

Chegado o verão, Manuel começou a ficar fora, alegando dormir na casa do amigo. Uma vez, duas, três. Beatriz punha uma camisa no saco e nada dizia. Pensava que talvez Madalena tivesse razão, talvez fosse crise de idade. Havia de passar. Homens perdem-se e voltam. Vinte e cinco anos não se deitam fora.

Em julho, sentou-se frente a ela, com a camisa dos quadradinhos, dígitos cruzados. Olhou para a janela, para o gerânio. Beatriz esperou, já sabia o que viria. Talvez soubesse há muito.

– Bia, precisamos falar.

– Fala.

– Vou sair de casa.

Pousou a chávena, o chá ainda quente a aquecer-lhe as mãos.

– Para onde vais?

– Chama-se Isabel. Tem vinte e dois anos. Conheci-a há meio ano.

Alguém regava flores na varanda ao lado, a água gotejava suavemente.

– Desde fevereiro, então.

– Por aí.

– Quando começaram as camisas novas.

– Bia

– Não é crítica. Estou só a encaixar a história.

O olhar dele era estranho, quase culpado talvez esperasse lágrimas ou gritos, qualquer coisa que o justificasse.

– Não entendes, Bia. Preciso de sentir-me vivo. De ter futuro. Olha para nós, somos já uns velhotes.

– Tens quarenta e nove anos, Manuel.

– Pois

– Não percebo esse pois.

Ele levantou-se, vagueou, pousou a chávena vazia na pia pretexto para não enfrentar-lhe o olhar.

– Vivemos como vizinhos. Todos os dias iguais. Toalha, gerânio, chá sempre na mesma hora. Isto não é vida, Bia. É um pântano.

– É um lar disse apenas. Construído em vinte e cinco anos.

– Agradeço-te por tudo, de verdade. Mas não consigo mais.

Olhava-o e pensava que afinal talvez nunca o tivesse conhecido não porque mudara, mas porque sempre fora assim, e ela não quisera ver.

– Vens buscar as coisas hoje?

Ele pareceu surpreendido.

– Não, aos poucos.

– Como quiseres.

Ela deitou o resto do chá fora, limpou as mãos num pano e saiu da cozinha. Abriu a janela do quarto; o ar da rua trazia cheiro a alcatrão quente e tília do jardim vizinho. Pensou que no dia seguinte seria dia de regar as petúnias. E que precisava comprar azeite.

Nestas horas, são os pequenos pensamentos da rotina que salvam, mais do que qualquer palavra.

As primeiras semanas sem ele pareceram estranhas. Não que ela não conseguisse levantar-se, comer, ir trabalhar. Fazia-o tudo, regava as flores. Mas na casa algo mudara, ficara silenciosa de um modo diferente. Sem os objetos dele no wc, o cabide meio vazio. Beatriz comprou outro gancho e pendurou lá a mala para preencher o espaço.

Madalena apareceu logo ao fim de semana com uma tarte de couve e ficou até tarde.

– Como estás?

– Bem.

– A sério.

– A sério. Mal, mas bem. Entendes?

– Entendo Madalena calou-se. Ele explicou-se?

– Disse que estávamos velhos, que a casa era um pântano.

– Pântano

– Sim.

– Ele falava do pântano dele, não do teu.

Beatriz serviu mais chá. Já era noite, a luz da cozinha aconchegante, a tarte numa tábua de madeira. Soube, nesse instante, que sabia criar aconchego. Ali estava. Só que agora não era preciso para dois.

– Mada, ela tem vinte e dois anos.

– Eu sei.

– Não é inveja. É só aritmética. Quando eu tinha vinte e dois, ele era já adulto. Agora está com alguém dessa idade.

– Eles todos querem voltar atrás.

– O tempo não volta.

– Não. Mas isso ele ainda vai ter de perceber.

Beatriz ficou calada. Sabia que precisava ela própria de compreender algo importante, mas ainda não sabia o quê. Sentia apenas o mesmo desconforto da mobília fora do sítio.

No trabalho, ninguém sabia, e ela não fez menção de contar. Só notaram que estava mais calada, mas Dona Beatriz nunca fora muito conversadora. Uma colega mais nova, Catarina, perguntou-lhe um dia se estava tudo bem. Beatriz respondeu que sim, só algum cansaço. Catarina trouxe-lhe um café da máquina um gesto pequeno, mas que a tocou.

Agosto decorreu numa espécie de torpor neutro. Nem bom nem mau, apenas torpor. Fez doces como todos os anos, tirou a espuma para o pote que depois comia só com pão. A colheita de groselhas fora generosa, os frascos alinhados na despensa davam-lhe uma tranquilidade estranha como se a vida continuasse, acontecesse o que acontecesse.

Uma vez Manuel ligou para combinar vir buscar o resto das coisas. Veio um sábado de manhã. Ela abriu-lhe a porta, ele recolheu algumas roupas, livros, ferramentas, uma pasta de papéis. Na cozinha, ficou um instante a olhar para a mesa, para o gerânio.

– Como estás?

– Bem.

– Não guardas rancor?

– Não guardo nada, Manuel. Eu vivo apenas.

Ele foi embora. Ela ouviu-lhe os passos na escada, depois fez um ovo estrelado para si. Três ovos, um pouco de salsa. Comeu, lavou o prato, foi ver as petúnias. Já estavam a murchar, setembro quase a chegar.

O divórcio ficou concluído em outubro. Sem dramas, quase burocrático. Contratou uma advogada jovem, eficiente, que fez tudo depressa. A casa era dela de família, não havia bens a dividir. Manuel não reclamou. Talvez a nova vida não deixasse espaço para velhas disputas.

À porta do tribunal, sob a chuva miúda, ergueu o colarinho, foi ao café comprar uma regueifa de sementes de papoila. Chegou, fez chá, cortou pão. Ficou ali a olhar o outono, impávido, pelas janelas.

Na psicologia conjugal, lia ela num artigo ao calhas na net, a rutura acontece muito antes da separação formal. Era verdade. Algo tinha rasgado muito antes quando notara o silêncio dele ao voltar do teatro, quando virou o telemóvel sobre a mesa. Ela só não quisera chamar aquilo pelo nome.

Novembro trouxe o frio e um novo ritmo. Inscreveu-se num curso de aguarela, depois de anos a adiar. Todas as quartas à noite ia ao atelier perto de casa, onde cheirava a papel e aguarrás e ninguém sabia nada dela. Os trabalhos não eram nada de especial, manchas esborratadas, proporções erradas. Mas dava-lhe prazer o exercício, aquela calma atenta só de água e cor.

A professora, uma senhora de cabelo branco e brincos de prata, disse-lhe um dia:

– Pinte mais solto, não tenha medo, o papel aguenta.

Beatriz pensou que isso servia para muita coisa na vida.

Madalena telefonava todas as semanas, às vezes passava por lá. Conversavam de tudo. O nome de Manuel ia surgindo menos e cada vez menos importante. Deu por isso com alívio discreto. Não que tivesse deixado de importar, mas porque a vida começava, pouco a pouco, a ocupar o espaço do que tinha acontecido.

Perguntava-se às vezes o que tantas mulheres perguntam nessa altura: Onde é que falhei? Nunca achava resposta honesta. Sabia cuidar da casa, foi fiel, nunca fez escândalos, trabalhou, não exigiu nada a mais. Talvez tenha sido esse o seu erro, pensou. Não ter feito menos, mas acreditar que bastava.

Depois, afastava a ideia. No fundo, não sabia o que teria feito de outro modo.

O inverno trouxe neve. Comprou botas novas, castanhas, salto raso, práticas. Uma colega disse que lhe ficavam muito bem. Uma ninharia, mas alegrou-lhe o dia.

Em janeiro, telefonou-lhe Madalena, num tom inquieto.

– Bia, estás sentada?

– Estou a lavar os pratos, porquê?

– Sabes do Manuel?

– Não. Não vemos nem falamos.

– Teve um ataque cardíaco. No meio de uma discoteca.

Beatriz desligou o fogão.

– A sério?

– A sério! Contou-me a Paula, do trabalho dele. Diz que caiu mesmo na pista, chamaram o INEM.

– Sobreviveu?

– Sim, está internado. Dizem que foi forte.

Ficou em silêncio, vendo a neve grossa cair lá fora.

– Como é que ele tem andado?

– Sempre na farra. A tal miúda, festas e discotecas, ginásio, sem limites. O corpo já não aguentava.

– Entendi.

– Vais lá?

– Não sei.

Pôs o telefone de lado, ficou à janela. Crianças faziam um boneco de neve no jardim. Procurou perceber o que sentia: inquietação, algum cansaço e, lá no fundo, alívio de estar em casa.

No dia seguinte, ligou para o hospital. Confirmaram o estado estabilizado, permitiam visitas.

Preparei um saco: água sem gás, maçãs, bolachas caseiras, que fizera para si na véspera. Fechou o casaco, saiu.

O cheiro do hospital era igual a todos: misto de limpeza e ansiedade suspensa nos corredores. Indicaram-lhe o quarto. Entrou sem ruído. Manuel estava junto à janela, notoriamente mais magro, com o rosto gasto. Não era um homem rejuvenescido, era só alguém que tentara rejuvenescer à força e não conseguiu.

Quando a viu, não acreditou de imediato.

– Bia

– Olá, Manuel.

Pousou o saco na mesinha, chegou-se a uma cadeira.

– Não pensei que vinhas.

– Mas vim.

Ele olhava-a, muito por dizer, mas ela não quis decifrar.

– Como te sentes?

– Melhor. Ontem estive mesmo mal, hoje estou melhor. Dizem que só saio depois de uns dias.

– Então, repousa.

– Bia – hesitou. – A Isabel não veio. Liguei-lhe logo que fui internado. Disse que vinha. Não apareceu.

Beatriz olhou as maçãs, depois para ele.

– Podia prever isso.

– Como?

– Intuição.

Fechou os olhos, calou-se longamente.

– Fui idiota, Beatriz.

– Parece.

– Não parece. Fui mesmo. Aquela miúda pensei que ia ser novo. Percebes?

– Percebo.

– E afinal fui só um velho que ela tolerava por dinheiro.

Beatriz não respondeu. Lá fora, céu de inverno muito azul. A neve alinhava-se no parapeito.

– Quero pedir-te perdão.

– Agora não fales muito, estás doente.

– Não, preciso. Percebi. Comparava-te a ela, devia ter-te dado valor. Construíste um lar, chamei-lhe pântano. Fui injusto.

Olhou-lhe as mãos no lençol. Elas não mudam tanto, vinte e cinco anos.

– Beatriz quero voltar para casa.

O silêncio caiu denso.

– Ouveste?

– Ouvi.

– Quero regressar. Vi que sem ti era vida. O resto era nada.

Beatriz foi à janela. Um pássaro cinzento pousava num galho nu. Pensou honestamente, sem pena de si.

Perguntou a si mesma: o que sentia por aquele homem agora? Tentou procurar algo vivo onde antes palpitava. Encontrou apenas calma. Não frieza, nem rancor apenas paz. Como uma ferida que finalmente deixou de doer.

– Manuel, vais ficar bem. Vais recuperar. Vais sair daqui.

– Não é isso que quero dizer.

– Eu sei o que queres. Percebo e agradeço teres-me dito. Mas não volto.

Ele fixou-a, abalado.

– Porquê?

Ela quis ser sincera, sem ser cruel.

– Porque sinto pena. Agora, neste momento aqui, o que sinto é fome de cuidar do teu sofrimento. Mas já não é o sentimento certo para vivermos juntos. Entendes?

– Mas podíamos tentar

– Não. Certas coisas não voltam. Não porque eu não queira. Simplesmente desapareceram, como um poço que secou.

– Bia, peço

– Vim porque te quero bem. Trouxe fruta, água. Isto é real. Voltar a viver contigo, isso não posso. Não é mágoa. Aquilo já não existe.

Ele calou-se, olhou o teto. Baixinho:

– Entendi.

– Ainda bem.

Ajeitei o meu casaco.

– Aviso a enfermeira para te vigiar. Liga ao nosso filho. Ele precisa saber.

– Não temos muita relação…

– Telefona na mesma. Faz parte.

Agarrei o saco. À porta, virei-me:

– São boas, são maçãs bravo de Esmolfe. Come.

Fechei a porta sem ruído.

O ar no corredor cheirava a calor de hospital. Passei pelo balcão de enfermagem, cumprimentei, desci as escadas. Lá fora estava frio, cheiro a ar fresco. Caminhei até à paragem.

A neve tinha parado. Silêncio e clareza de inverno. O autocarro chegou rápido, sentei-me à janela. O mundo a passar. Árvores sem folhas, candeeiros, gente com sacos de compras. A vida a andar para a frente.

Pensei que, quando o marido parte com uma jovem, o mais difícil não é o abandono. O pior vem depois: a reconstrução da vida, não adiar, não odiar, não esperar. Fazer tudo de novo, do nosso modo. Isso custa mesmo.

Olhei o vidro, pensei na quarta-feira: tinha aula de aguarela. Este tema era paisagem de inverno. Os reflexos no branco, o azul no cinzento, os desafios novos mas ia insistir.

O autocarro parou à minha porta. Saí, puxei pelo casaco, caminhei para casa. O bairro era o habitual, cada pedaço conhecido a farmácia, a padaria, o parque. O baloiço chiava, mesmo sem crianças.

Subi ao meu andar. Abri a porta. Lá dentro, calor e cheiro a lar. Mesmo. Tirei as botas, calcei os chinelos. Fui à cozinha, pus a chaleira. Arranjei a toalha, clara, alinhando-a.

Enquanto a água aquecia, fui à janela. O gerânio crescia direitinho. As folhas já com pó, passei o dedo: amanhã limpo.

A chaleira apitou.

Servi o chá, segurei a chávena. As luzes da rua acendiam-se, cedo, como de janeiro.

Pensei que sexta devia ir ao mercado buscar leite, ovos. E aproveitar, ainda havia maçã para a tarte Madalena sempre queria a receita.

É isso que farei sexta.

E, à quarta, pinto a neve.

***

Fora, Lisboa vivia, ruidosa e sem rumo. Aqui, na cozinha com o gerânio, reinava o silêncio. O meu silêncio. Não o vou dar a ninguém.

O telefone estava na mesa. Ele podia ligar, voltar a pedir. Sei que vou atender, saber como está. Dizer para obedecer aos médicos. Porque sou assim.

Mas não vou voltar.

– Sabes, Dona Beatriz, disse em voz alta, surpreendentemente firme, não era um pântano. Era vida. Só que, afinal, não era a tua.

Acabei o chá, lavei a chávena. Fui ligar o candeeiro, nunca gostei de ler com luz de teto.

No aparador, o livro marcado. Procurei a página, continuei a ler. Uma neve fina caía lá fora. O gerânio mantinha-se. E a toalha da mesa estava lisa.

Tudo ocupava, afinal, o seu lugar.

***

Ao fechar este capítulo, percebo que mesmo o silêncio, se conquistado, pode ser a melhor companhia. E é preciso coragem para o reconhecer.

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Sem Volta: Quando Não Há Retorno