Minha filhinha é uma génia! vangloriavase Odete às vizinhas. Fez a sessão inteira a cinco! Ainda arranja um bico à parte e não nos dá nem um centavo!
Invejote, Odete! desabafouse a senhora ao lado. Os meus filhos só sabem pedir dinheiro. Não querem estudar. A Inês diz que vai casar logo depois da faculdade, que o marido se encarregue de tudo. E o filho ah! gesticulou a vizinha, desiludida com a própria prole. Já a tua Lurdes, ao contrário, quer viver à sua maneira, com a inteligência.
Miguel, que se afastara alguns passos dos tagarelas, murmurou baixinho para si: o caminho de volta a casa ainda era longo, a mãe ainda não tinha feito todas as compras. Se o pai ainda estivesse no trabalho, hoje seria ele o portador do saco de compras. Se soubesses o que a irmã faz na capital, nem pensais em mencionara, muito menos vangloriarte pensou.
Disseramme alguma coisa? olhou Odete, irritada, para o rapaz que resmungava. Será que não esperava cinco minutos? Ela ainda não tinha revelado todos os pormenores.
Sim, mãe, respondeu Miguel calmamente. Amanhã tenho de preparar a apresentação e escrever o trabalho. Talvez da próxima vez te deixes ouvir.
Que dizes, que pai! Não deixam ninguém falar! Muito bem, vamos
Miguel deu de ombros ao notar o alívio nos olhos das vizinhas. Elas já não pareciam tão felizes por terem sido apanhadas ao vivo pela mãe amorosa. Odete só falava da filha, num tom que fazia parecer que Lurdes era o epítome da perfeição, um exemplo a seguir.
Mas só ele sabia a verdade. Sabia, mas calavase. Não queria preocupar ainda mais a mãe
***
A senhora tem alguma vizinha chamada Ana Silva por aqui? lançouse uma voz mordaz, deixando Odete aturdida. Dois rapazes atrás dela apenas aumentavam a tensão.
A minha filha está agora na capital, estuda na universidade respondeu a mulher, orgulhosa. O que querem dela?
Na universidade? Lurdes? Falamos sério? riu a intrusa, atrevida. Ela largou a universidade logo depois da primeira sessão. Não passou nenhum exame, nada de surpreendente, pois nunca faltava às aulas, só procurava um galã.
Como ousa falar da minha filha! Vou à justiça por difamação! exclamou Odete, mas o barulho à porta feza calar. Convidar aquela ousada para o apartamento significaria admitir que ela tinha razão. Deixara fora? O que diria? À gente não interessa se é verdade ou mentira, só quer fofocar.
Entrem, interrompeu Miguel, impedindo a mãe de dar mais margem à fofoca. Não há necessidade de escândalos. Mãe, deixaos entrar.
Mas, Miguel!
Deixa entrar.
Miguel, embora de apenas dezasseis anos, mostrava uma seriedade que lhe dava quase a aparência de um adulto, ainda que a ansiedade lhe tremesse levemente um fio. Conduziu os convidados ao salão, gesticulando para que se sentassem no sofá. A senhora sorriu e escolheu a poltrona mais afastada; os rapazes ficaram em pé.
Miguel! Como ousas convidar essas pessoas à casa! Sabes o que ela disse da Lurdes!
Sei. Por isso deixeios entrar respondeu ele, irritado, mas firme. Enquanto o pai estava em viagem, ele assumia as funções de chefe da família, tentando minimizar os danos.
O que?
Talvez conheças melhor a irmã provocou a mulher, sarcástica. Sabe onde está?
Em Lisboa, a mãe não se enganou. Não mora num hostel, mas num apartamento alugado que o marido paga. Não conheço o endereço, mas o marido tem vinte anos a mais que a Lurdes, três filhos adultos e é ridiculamente rico.
O marido chamase Gregório, por acaso?
Deixame adivinhar, és a esposa dele? ficou tenso Miguel. Onde se meteu a irmã, tão descontrolada, a procurara aqui?
Graças a Deus que não. Sou a irmã dele, cansada das travessuras do irmão. Gregório tem uma esposa exemplar e uma filha do nosso parceiro de negócios. Ele detesta que outras mulheres se aproximem do marido. Vai levaro ao divórcio.
Isso não pode acontecer, certo?
Rapaz inteligente murmurou a senhora. Tens alguma pista de onde esteja a tua teimosa irmã?
Não tenho, mas a amiga dela pode saber. Posso contactara, mas antes quero saber os vossos planos. Tenho uma irmã, sabes.
Miguel, o que é tudo isto? Quem é esse Gregório? Que apartamento alugado? O que aconteceu com a minha filha? o rosto de Odete mudou de cor ao ouvir tudo. Miguel correu ao banheiro onde a mãe guardava os comprimidos.
Devo chamar a ambulância? pareceu sentir culpa a senhora.
Miguel abanou a mão. Claro que chamaria a ambulância! Quando os comprimidos foram procurados, a enfermeira Nina Victoriana prometeu chegar em cinco minutos. Devia estar por perto.
Miguel Como sabes tudo isto? implorou Odete, incapaz de aceitar a realidade. A filha era… amante? Como viver com isso?
Quando a Lurdes apareceu pela última vez, o telemóvel dela avariou, lembras? Ela usou o meu portátil para falar com a amiga e ficou presa numa sessão. Li as mensagens, fiquei surpreso e perguntei directamente. Não negou nada, só pediu que não contasses à mãe.
Miguel sentia uma dor profunda pela mãe. Ela era boa, gentil, só tinha um defeito: adorar vanglorarse dos filhos e dos seus feitos. Ele também ruborizavase cada vez que ela anunciava ao mundo as suas certidões e medalhas.
Mais tarde, quando Odete foi levada ao leito sob a vigilância dos profissionais, Miguel voltou ao salão, ansioso por descobrir os verdadeiros planos da mulher para a irmã.
Então, o que pretende fazer?
Nada de especial. Dar dinheiro e apresentar alguns contactos. Solteiros, o que é o mais importante. Se for mais inteligente, poderá casar bem.
Está bem, já volto suspirou o rapaz, prevendo uma conversa desconfortável. A amiga de Lurdes era atrevida e nociva. Tinha de se virar. O pretexto da sessão encerrada com sucesso poderia ser um presente do irmão à irmã. Mas, morando tão longe, só um courier poderia ajudar.
Aqui está entregou Miguel ao visitante um papel. Espero que cumpram a palavra.
Cumprirei, não te preocupes.
Ao sair, a mulher levantou a voz, claramente para os vizinhos que escutavam:
Desculpem o alvoroço, não havia outra maneira de conversar sem ouvidos curiosos. Espero que não circularem rumores ruins. Se for preciso, peço desculpas pessoalmente à Lurdes. Mas acredito que aqui vivem pessoas boas que não fofocam.
Os rumores começaram, mas foram fracos. Odete atacouos imediatamente, pedindo que não usassem o nome da filha. Desde então vangloriase menos e raramente sai de casa.
Miguel conversou com o pai e tomaram a decisão conjunta de mudar de casa. Odete ficou mortificada ao encarar os vizinhos, pois percebeu que os tinha enganado todo o tempo.
Num dia de sol, a família mudouse. Como dizia Miguel aos curiosos vizinhos: para a capital, mais perto da Lurdes. Afinal, lá há bons médicos, e a mãe sentiase cada vez pior.
Lurdes nunca mais voltou; casouse rapidamente e esqueceu a família por completo.
Curtam, comentem! finalizou a voz off, ecoando pelos corredores.

