12 de março de 2026 Diário
Se o bebé se parecer com o antigo, recuso dou a vida e depois abandono! dissea Eurídice, com a voz sem vida.
Já é tarde, querida, agora só nos resta aguardar o diagnóstico resumiu o médico, frio como pedra ou acabou por ficar sem filhos.
Saí da sala de consultas e sentei-me no sofá do consultório para recuperar o fôlego. A vontade de chorar era enorme, a dor da rejeição apertava no peito. Levantei os olhos e, através da janela, o vento outonal de Lisboa sacudia as árvores, arrancando as últimas folhas como se o tempo fosse arrancar-me a esperança.
Senti-me tão frágil quanto aquele ramo à deriva, completamente impotente. Ainda três meses atrás desejava aquele filho como se fosse um tesouro; hoje tudo mudou num piscar de olhos.
Depois da consulta, passei antes de um casal feliz que se abraçava no corredor; o marido segurava a esposa, ambos sorrindo. A cena me feriu ainda mais. Segui até ao ponto de ônibus, o coração a bater descompassado.
Cheguei finalmente ao apartamento, tranquei a porta do quarto e fiquei ali quase uma hora, sem dizer palavra. Minha mãe, Maria da Conceição, batia à porta, insistindo que eu comesse alguma coisa, mas eu não respondi. Ela foi para a cozinha e sentouse, pensativa. O silêncio que pairava no apartamento era denso como nevoeiro.
Quando finalmente me levantei, senteime à mesa à frente da mãe e permanecemos ali, em silêncio, por longos minutos.
Se for semelhante ao antigo recuso dou a vida e depois abandono, repetiu Eurídice, a voz sem cor.
Maria estremeceu imediatamente; as palavras da filha a trouxeram à razão:
Já era demais! Eurídice, pensa no que dizes! chamoume usando o meu nome completo, como só as mães sabem fazer.
Uma mulher forte que abandona o próprio filho e por quê? O que vão dizer os parentes? Os colegas? Como vais viver? O que dirão as gentes? E ainda, o pai não será um irresponsável.
E daí, que se importem quem me lamente? gritei, sentindo-me como um animal encurralado, os olhos grandes e assustados, os lábios trêmulos, os ombros caídos.
Eu vou ter pena de ti e ajudarte, respondeu Maria, firme. E não deixarei que abandones o teu neto ou a tua neta
Tu mesma vives à sombra da fome, o salário nunca chega; que ajuda há?
Vamos sobreviver, insistiu a mãe. Em tempos de escassez, as pessoas conseguiam sobreviver; agora é tempo de paz estamos no ano de mil novecentos e oitentaenove.
Respirei fundo. O medo já me consumia e o futuro era uma incógnita ainda maior. Não sabia ainda que os próximos nove anos me trariam ainda mais tormento. Mas naquele instante só sabia: Vítor tinha-me deixado.
Casámosnos há meio ano; antes disso, namorámos durante um ano e meio. Nada prenunciava o desastre que se abateria sobre o nosso casal jovem e bonito.
Lembro-me com clareza do dia em que Vítor chegou a casa como outra pessoa. Tentava ser o mesmo de sempre, mas a sua postura distante, o olhar perdido, denunciavam um homem que já não me amava. Ele já sabia que eu ainda nutria esperanças; isso o consumia, pois se tivesse saído antes, não teria sentido o peso da culpa. Por um mês questioneio incessantemente, e só quando finalmente partiu descobri o motivo.
A mãe de Vítor apareceu na nossa porta, chorando de dor ao saber do seu filho. E a história remonta à época da escola. Quando Vítor terminou o 12.º ano, partiu numa excursão de jovens aventureiros pelas serras da Serra da Estrela. Lá conheceu Beatriz, uma rapariga de Vila Real, e apaixonouse perdidamente. Não se separaram durante duas semanas; trocaram endereços, mas ao mudar de apartamento Vítor perdeu o contacto de Beatriz. Sem cartas, sem notícias, acabou por esquecera.
Anos depois, ao reconciliarse consigo próprio, percebeu que Beatriz fora o seu grande amor. Três anos depois encontroua novamente quando ela publicou um anúncio no jornal local de Coimbra; Vítor respondeu, convidoua a ficar na sua cidade e reservou-lhe um quarto de hotel. O reencontro reacendeu a chama; apesar de estar casado, decidiu abandonarme, Eurídice, e seguir com Beatriz.
No trabalho, todos me apoiaram. Uma nova colega, recémchegada, comentou tristemente:
Um filho é felicidade, mas há cinco anos que o meu marido e eu não conseguimos ter um.
Exactamente respondi, amarga. Não sinto mais alegria ao esperar o primeiro filho; sinto só a dor de ter sido abandonada.
Em casa, Maria tentava aliviar a minha tristeza, mas uma visita inesperada mudou tudo. A sogra Vira Teresa chegou, desabou em lágrimas e implorou que Vítor e eu fôssemos felizes juntos. Não poupou esforços para protegernos, embora soubesse que Vítor partira para milhas de distância.
A presença de duas futuras avós a minha mãe e a sogra trouxe-me ao mesmo tempo peso e alívio. O que mais me assustava era o futuro do bebé: e se herdasse os olhos, o nariz, a boca de Vítor? Como seria viver olhando para a própria traição?
Quando saí do hospital, fui recebida por uma multidão: minha mãe, a exsogra Vira, uma amiga íntima com o marido, a irmã mais velha com a sobrinha, e todo o pequeno grupo da minha equipa. Todos queriam segurar o filho nos braços e desejar saúde à mãe e ao bebê. Quando o pequeno foi entregue, a exsogra segurouo, sorriu, chorou e sussurrou:
Vítor é um ladrão.
Pensei que não me ouviria, mas ouvi. Aproximouse, pegou o menino nos braços e disse:
Ele não se chamará Vítor, mas sim João.
A mãe e a sogra suspiraram de alívio: tudo parecia estar bem.
Passaramse vinte anos. Em 2010, João estudava o terceiro ano do liceu. Em casa, cuidava das duas irmãs mais novas, ajudando a mãe como verdadeiro cuidador. Quando o pequeno João nasceu, a minha irmã Eurídice já casara cinco anos antes; o marido tornouse um padrasto dedicado e quase pai de duas filhas.
Eu amava os meus filhos, mas nunca consegui criar laço com o meu filho João, fruto de uma decisão que ainda me dói recordar. Ainda hoje me assusto ao pensar que, num momento de desespero, prometi deixar o recémnascido no hospital se se parecesse com o antigo.
Vítor acabou por se divorciar de Beatriz após cinco anos; ela mudouse para o estrangeiro com a filha. Vítor casouse novamente, parece viver bem, e ainda encontrase ocasionalmente com João. Eu não interfiro na sua vida, sintome indiferente ao antigo marido; a única pessoa que ainda me toca é o pai biológico do meu filho, João.
Hoje percebo que a vida tem sido uma sucessão de escolhas difíceis, mas que a coragem de enfrentar a própria dor traz clareza. Aprendi que, antes de julgar a trajetória dos outros, devo olhar para dentro e aceitar as minhas próprias falhas. Assim, sigo em frente, cuidando dos meus filhos e lembrando que a força não está em fugir das responsabilidades, mas em abraçar, mesmo quando tudo parece contra nós.
**Lição pessoal:** a verdadeira dignidade nasce quando, apesar das perdas e das decepções, escolhemos permanecer presentes e amar aquilo que nos foi confiado.


