Rumo a Uma Nova Vida — Mamã, até quando vamos ficar neste fim de mundo? Nem estamos numa cidade pequ…

Rumo a uma nova vida

Oh mãe, até quando vamos ficar neste fim de mundo? Nem sequer estamos numa vila a sério, isto é a aldeia da aldeia começou Inês, a minha filha preferida, logo que entrou em casa depois do café com as amigas.
Inês, quantas vezes já te disse: aqui é a nossa casa, as nossas raízes estão aqui. Eu não vou a lado nenhum.
Estava deitada no sofá, com as pernas doridas em cima de uma almofada. A esta postura ela chamava Eça de Queirós em repouso.
Sempre a mesma conversa das raízes, mãe. Daqui a dez anos, até essas raízes vão secar, e aposto que vai aparecer outro besouro qualquer que vais querer que eu chame pai.
Depois destas palavras, que me magoaram, levantei-me e fui até ao espelho do guarda-roupa.
Olha que as minhas raízes ainda estão bem vivas, não inventes.
Por isso mesmo é que digo: ainda estão bem, mas mais uns anos e já foste. Depois podes escolher: abóbora, nabo ou batata-doce, decide lá o que preferes cozinhar.
Inês, se queres mesmo sair daqui, vai tu. Já podes fazer tudo sozinha, dentro da lei, há dois anos. Para quê que precisas de mim?
Por consciência, mãe. Se eu for em busca de uma vida melhor, quem cuida de ti aqui?
Tenho seguro, ordenado certo, internet e de certeza que aparece algum besouro como tu própria disseste. Para ti é fácil ir embora: és jovem, moderna, entendes-te com tudo o que é novo e até gostas dos adolescentes, mas eu já começo a fazer contas para ir para o além.
Lá vêm as piadas, parece mesmo que tens a minha idade! E só tens quarenta anos…
Disseste isso só para me estragar o dia, não foi?
Se fores a ver pela idade de gato, só tens cinco corrigiu a filha, a rir.
Estás perdoada.
Mãe, antes que seja tarde, vamos apanhar o comboio e começar de novo. Aqui não há nada que nos prenda.
Olha, há um mês consegui finalmente que escrevessem o nosso apelido certo na fatura do gás. E estamos inscritas no centro de saúde local! lancei os últimos argumentos.
O seguro dá para todo o lado e não precisamos vender a casa. Se não resultar, sempre podemos voltar. Eu trato de abrir-te os olhos para o mundo!
O médico bem me avisou na ecografia: Ela não vai dar-lhe descanso. Achei que era piada. Não admira que depois tenha ganho medalha de bronze no Mentalistas Portugueses. Pronto, vamos lá, mas prometes que se não correr bem, deixas-me voltar, sem dramas?
Palavra de honra!
O teu coautor da certidão de nascimento prometeu o mesmo no registo… e vocês até são do mesmo grupo sanguíneo.

***
Não nos perdemos com a capital de distrito: fomos logo tentar a sorte em Lisboa. Juntámos todas as economias dos últimos três anos, alugámos sem hesitar um T0 minúsculo na periferia, encostado entre o mercado municipal e a central de autocarros, com rendas pagas para quatro meses. O dinheiro evaporou-se antes sequer de o começarmos a gastar.

A Inês estava calma e cheia de energia. Em vez de arrumar as coisas ou organizar a casa, atirou-se logo à vida da cidade da arte à noite. Em pouco tempo, já era da casa: falava e vestia-se como os lisboetas, conhecia todos os sítios na moda, fazia amigos com facilidade, como se tivesse nascido do ar cosmopolita de Lisboa e não vinda de uma aldeia perdida.

Eu, por outro lado, vivia entre o calmante da manhã e o comprimido para dormir da noite. Logo no primeiro dia, apesar dos apelos da Inês para dar uma volta pela cidade, comecei logo a procurar trabalho. A capital oferecia empregos com salários ridículos e contratos ainda mais suspeitos. Uma conta de cabeça bastou para prever: aguentávamos meio ano, no máximo, e depois era voltar para trás.

Discuti com a Inês, que insistia para inovar: Vai estudar, mãe, faz-te designer, sommelière, ou pelo menos esteticista de sobrancelhas! Anda de metro, toma café fora, adapta-te! Mas não me sentia pronta a estudar nada. Queria era garantir o básico. Arranjei emprego de cozinheira numa escola particular e, à noite, lavava loiça no café do bairro.

Outra vez o mesmo, mãe, sempre de volta dos tachos! Assim nunca sabes o gosto que Lisboa tem. Devias experimentar, pelo menos, algo novo lamentava Inês.

Ela lá se ia adaptando. Passava tardes nos cafés onde os rapazes lhe pagavam bebidas todos vindos também do interior. Ia a sessões de coaching esotérico sobre sucesso e dinheiro. Não queria ter um emprego fixo nem compromisso com nada. Ainda se estava a ambientar à cidade.

Passados quatro meses, usei o meu ordenado para renovar a renda, já tinha deixado o segundo emprego e preparava refeições para outra escola. Inês já tinha desistido de três cursos, tentado ir à rádio fazer locução, participado numa curta-metragem de estudantes (onde foi paga com massa com atum industrial), e enrolou-se com dois músicos boémios um era mesmo um asno completo, o outro era um gato com filhos de várias mães, sem intenção de sossegar.

***
Mãe, queres fazer alguma coisa hoje? Encomendamos uma pizza, vemos um filme? Juro que não tenho forças para sair disse Inês, espreguiçando-se com a minha pose de Eça de Queirós, enquanto eu me despachava em frente ao espelho.

Encomenda à vontade, mando-te dinheiro pelo MBWay. Não precisas de guardar para mim, duvido que tenha fome quando voltar.
Voltar de onde? perguntou, sentando-se de repente.
Fui convidada para jantar fora respondi, meio envergonhada, como uma miúda com um segredo novo.
Por quem? Perguntou, sem esconder o aborrecimento.
Veio uma inspeção cá à escola. Servi-lhes uns pastéis de bacalhau que farias fila para comer, e o chefe da comissão pediu-me para o apresentar à chef. Achei graça: um chef na escola. Fomos tomar um café, como tu costumas sugerir e agora ele convidou-me para lhe cozinhar um jantar em casa.
Vais jantar a casa de um homem desconhecido?! Mãe! Ele não quer só jantar, estás a ver?!
Inês Tenho quarenta anos, sou solteira, ele tem quarenta e cinco, é simpático, interessante e anda solteiro também. Só me faz bem saber o que ele quiser.
Fogo Parece que te falta amor-próprio! Como se não tivesses opção!
Tu própria é que me convenceste a sair daqui para eu viver e não sobreviver.
Não havia resposta eficaz para isto. Naquele momento, percebi que tínhamos trocado de papéis e aquilo já era demais. Com o dinheiro que me transferiu, encomendei a maior pizza da lista, afoguei a noite em comida e só parei perto da meia-noite. Foi quando ela chegou, nem sequer acendeu a luz no hall, trazia um sorriso de orelha a orelha.
E então? Perguntei, num tom sombrio.
Boa pessoa, nada de estrangeirices riu-se ela, sumindo-se na casa de banho.
A partir daí, passou a sair mais: foi ao Teatro São Luiz, assistiu a stand-up, explorou um concerto de jazz, inscreveu-se no clube de leitura, entrou no clube de chás e associou-se ao centro de saúde local. Uns meses depois, inscreveu-se num curso de aperfeiçoamento, colecionou certificados, aprendeu a cozinhar pratos ainda mais exigentes.

A Inês também não ficou parada: percebeu que não podia depender de mim e tentou a sorte em empresas reputadas da cidade. Por muito que se esforçasse, todas as posições interessantes a deitavam abaixo. Sem emprego e sem amigos dispostos a pagar-lhe cafés por simpatia, foi trabalhar como barista, e dali passou a tornar-se bartender durante a noite.

A rotina foi-se impondo, desenhando olheiras, roubando tempo e energia. Não houve espaço para relações sérias: quem aparecia no bar trocava olhares, mas a paixão pura nunca passou à porta. Um dia, saturada, tomou uma decisão.
Sabes, mãe, tinhas razão: isto não é para nós, desculpa ter-te trazido. Está na altura de voltar soltou assim que entrei, já depois de mais uma noite difícil.
Voltar? Para onde? perguntei, enquanto arrumava as minhas coisas numa mala.
Para casa, mãe! Para o nosso sítio, onde escrevem corretamente o nosso nome na conta da EDP e onde temos centro de saúde. Tu tinhas razão em tudo.
Mas eu agora já me inscrevi aqui, e não quero sair daqui olhei-a nos olhos, a tentar perceber o que se passava.
Pois eu não! Quero voltar para casa! Odeio o trânsito, o ridículo preço do café, a indiferença das pessoas. Aqui não pertenço. E tu própria já estás a fazer as malas!
Estou a mudar-me para a casa do João disse-lhe, de rompante.
Como assim, vais viver com o João?
Acho que já te arranjaste, tens trabalho e podes pagar a tua parte na renda. Inês, isto é o meu presente para ti: já és adulta, linda, a trabalhar na capital. Tens oportunidades a sair das torneiras! Obrigada por me teres empurrado para isto. Sem ti, nunca teria mudado, tinha apodrecido naquela terra. Aqui, sim, sente-se a vida! Obrigada. Dei-lhe dois beijos, mas ela não respondeu logo, visivelmente abalada.
Mãe e eu? Quem cuida de mim agora?! chorou.
Seguro de saúde, ordenado, internet e algum besouro sempre aparece citei-a, a brincar.
Então vais mesmo deixar-me assim?
Não te abandono, mas tinhas prometido não fazer dramas, lembras-te?
Lembro Bem, dá-me as chaves de casa.
Estão na mala. Só peço uma coisa.
Diz.
A avó também vai mudar-se. Já falei com ela ao telefone. Vai lá ajudá-la a fazer as malas.
A avó vai viver para Lisboa?!
Sim, vendi-lhe a ideia da vida melhor, dos besouros e do nosso pântano. E por acaso, precisam de gente nos CTT aqui, e a tua avó, com quarenta anos de experiência, manda qualquer carta para o Pólo Norte sem selo, e chega sempre. Que também arrisque, enquanto tem raízes para dar e vender.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Rumo a Uma Nova Vida — Mamã, até quando vamos ficar neste fim de mundo? Nem estamos numa cidade pequ…