Ricardo tinha quase a certeza de que a esposa o traía. Por isso, resolveu dar-lhe uma lição e acabou…

Rui era dilacerado de gânduri estranhas sobre a esposa. No recanto mais nevoeiro do seu coração temia que Leonor o enganasse. O ciúme era um vento frio a sibilar pelas janelas fechadas. Por isso, decidiu agir uma decisão tão insólita que até a própria casa parecia suspirar ao ouvi-la.

Ó Rui, não vais chegar atrasado ao aeroporto? perguntou Leonor, enquanto ele falava ao telemóvel com voz distante.
Não te disse? respondeu Rui, arregalando os olhos. Afinal, a viagem ficou para daqui a uns dias. Foi adiada outra vez.
Pois sim murmurou Leonor, e esgueirou-se para a cozinha como uma sombra ágil. Pegou no telemóvel, enviou uma mensagem rápida e voltou sem fazer ruído. Este pequeno gesto cravou-se na mente de Rui, deixando lá uma marca. Estranhou como Leonor era indulgente: sempre pronta a deixá-lo sair com os amigos, a viajar em trabalho, e nem se importava com os seus regressos tardios e cheios de vinho tinto. Os amigos de Rui insistiam que era uma mulher rara Estas joias não se encontram na Ribeira! mas Rui sentia-se consumido por vermes de dúvida.

Era oito anos mais velho do que Leonor. E se ela já encontrou alguém mais novo, mais leve de espírito, mais atento? imaginava Rui, mordiscando o pensamento como quem roía um pastel de nata. Mas havia ainda lucidez suficiente em Rui para não mostrar os seus receios. Decidiu observar em silêncio, montando pela casa pequenas câmaras de vigilância, espreitando de longe como um gato desconfiado.

A viagem de trabalho chegou como um nevoeiro triste numa manhã de outubro. Rui embarcou, mas depressa sentiu o peso dos céus. Leonor, atenta como sempre, ofereceu-lhe um comprimido; um gesto que lhe aqueceu o peito. Talvez, por momentos, pensou Rui, estivesse tudo bem afinal.

Ainda assim, quando se deitou no quarto de hotel, não resistiu à tentação. Abriu o portátil, ligou-se às câmaras e pôs-se a espreitar. Cinco minutos bastaram para o envergonhar. Fechou tudo, afastou o portátil como se queimasse.

A viagem passou num piscar de olhos. De regresso, Rui despediu Leonor à porta, sentou-se à secretária, abriu o portátil e mergulhou nas imagens. No princípio, tudo normal Leonor a acordar, a comer uma torrada, a arrumar a sala. Mas ao cair da tarde, uma surrealidade invadiu o ecrã: ali estava ela, de calções e a sua t-shirt favorita, sentada numa nuvem de pó virtual, jogando videojogos com estranhos vindos do éter. Ecos de vozes distantes vinham das colunas. Ali, Rui percebeu que Leonor era viciada no estranho mundo dos jogos online.

Enfim, cada um com a sua mania suspirou Rui, tentando tranquilizar o coração ainda agitado.

Correu rapidamente o resto das gravações nada, só Leonor e os seus hábitos banais, a louça a brilhar, o cabelo apanhado. Nenhuma alma, nenhum segredo. Um silêncio onírico preenchia a casa, como se todas as respostas fossem devoradas pela penumbra.

Com um suspiro largo, Rui fechou o portátil. Uma culpa morna colou-se-lhe à pele como pôde duvidar dela? Decide então ir à florista da esquina comprar um ramalhete enorme de rosas, planeando um jantar romântico à portuguesa, com vinho verde e bacalhau, à luz das velas. Mas as câmaras ficam, pelo menos por enquanto, como olhos mudos e atentos, ignorantes do que viria ainda a acontecer…

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Ricardo tinha quase a certeza de que a esposa o traía. Por isso, resolveu dar-lhe uma lição e acabou…