Retorno para Casa: Enfrentando a Escuridão do Outono.

Olívia voltava para casa do trabalho. Outono, lamaçal, escuridão… Nem mesmo os lampiões eram suficientes: iluminavam apenas um pequeno trecho ao redor, e além disso, a escuridão persistia. Olívia não gostava do outono. E este, em particular, era especialmente difícil. Foi nessa estação que ela terminou com o noivo. Restavam apenas dois meses para o casamento. Aconteceu uma coisa terrível: ele levantou a mão para ela. Isso, Olívia não podia perdoar.

Claro, ele se desculpou depois, dizendo que nem sabia como aquilo havia acontecido. Mas garantia que jamais voltaria a se repetir.

— E como você pode ter certeza disso, se nem agora entende como aconteceu? — questionou Olívia, furiosa.

— Olívia, você me provocou, eu simplesmente perdi o controle. Desculpa! Prometo que nunca mais!

Olívia não acreditou nessas promessas. Bateu uma vez, bate novamente. E o pior, nem uma razão plausível havia. Qualquer desculpa servia. Se ao menos ela tivesse feito algo de errado, como traí-lo ou insultar sua mãe. Mas não. Tudo que ela disse foi que estava cansada e que ele mesmo poderia preparar o jantar. Então, a conversa virou discussão sobre responsabilidades domésticas, insultos mútuos e, em seguida, a bofetada…

Naquele mesmo dia, Olívia juntou suas coisas e anunciou a todos que o casamento estava cancelado. Seus pais viviam em outra cidade, mas ela já tinha emprego e amigos onde estava. No entanto, não tinha onde morar. Há um ano morava com o noivo. Lembrou-se dos tempos difíceis da juventude. Alugou um pequeno apartamento na periferia da cidade. Os vizinhos não eram os mais agradáveis, mas o preço estava dentro do seu orçamento.

Com esses pensamentos, ela andava pelo beco escuro, torcendo para que ninguém a atacasse ali. Quando estava a uns cem metros de casa, Olívia viu a silhueta de uma pessoa. Algo estranho na forma como a figura oscilava.

“Deve ser um drogado ou um louco”, pensou Olívia, tentando dar a volta no indivíduo. Sua visão não era das melhores, por isso não conseguiu ver quem era até se aproximar.

Era uma jovem mulher, balançando de forma estranha porque segurava um bebê nos braços. Em outubro, o tempo não é ameno, e naquele dia a temperatura havia caído quase a zero. A mulher usava apenas uma jaqueta fina e estava de chinelos. E o bebê estava apenas enrolado em um cobertor.

Inicialmente, Olívia pensou em passar direto. O fato de ser uma mulher com criança não eliminava a possibilidade de ser uma drogada ou mentalmente instável, especialmente naquela área.

Mas sua consciência a repreendeu pela falta de empatia. Lembrou-se que a indiferença era o pior dos sentimentos e, superando o medo, aproximou-se da desconhecida.

— Está tudo bem com você? — perguntou Olívia.

A mulher ergueu a cabeça, olhando surpresa para ela, como se não tivesse notado a aproximação.

— Sim… está tudo bem, — respondeu rapidamente, olhando para o prédio.

— Você não está com frio? A noite está fria.

A mulher não respondeu, mas ficou claro que Olívia tinha razão. Ela estava congelando.

— Você mora aqui? — continuou Olívia.

— Sim. Já estou indo para casa, — forçou um sorriso com os lábios já arroxeados.

Olívia poderia ir embora, mas como deixá-la ali?

— Eu moro no prédio ao lado, que tal subir comigo para se aquecer?

A mulher hesitou por um segundo, depois assentiu.

Elas subiram ao apartamento de Olívia. Embora Olívia temesse que a mulher pudesse ser uma ladra ou coisa pior, sentia que algo havia acontecido.

— Posso colocar meu filho em algum lugar? — perguntou ela.

— Claro. Pode deixá-lo no sofá enquanto eu preparo um chá.

A desconhecida apareceu na cozinha minutos depois, ainda esfregando as mãos que estavam visivelmente dormentes.

Olívia serviu o chá e empurrou a xícara para a mulher.

— Obrigada, — murmurou ela, aquecendo os dedos gelados.

— Tenho uma pizza congelada. Vou colocá-la no forno, — sorriu Olívia. — Jantaremos juntas.

— Estou envergonhada… — murmurou a visitante, desviando o olhar.

— Ora, eu não comeria tudo sozinha!

A mulher sorriu, compreendendo o encorajamento de Olívia.

— Obrigada, — disse depois de alguns minutos. — Eu realmente estava com frio.

— Meu nome é Olívia, — apresentou-se a anfitriã.

— Eu sou Ana. E meu filho é o pequeno João.

— Prazer em conhecê-los.

Ana não parecia mais uma ameaça para Olívia. Pelo contrário, estava desorientada e assustada.

— O que aconteceu com você, Ana? — perguntou Olívia.

Ela suspirou e imediatamente ficou vermelha de vergonha.

— Meu marido… Ele bebeu e começou a me ameaçar. Pegou uma faca. Então eu agarrei meu filho e saí correndo. Não pense mal dele, — ela murmurou, — quando está sóbrio, é um bom homem. Mas quando bebe…

— Ana, não se pode suportar isso, eu sei do que falo, — afirmou Olívia em voz baixa. — Meu ex também me bateu, e eu fui embora. Se bateu uma vez, baterá de novo. E ninguém sabe o que passa na cabeça de um bêbado. E você tem um filho pequeno. É preciso sair dessa situação.

Ana sorriu, triste.

— Eu sei, mas não tenho para onde ir. Meus pais faleceram, e meu irmão ficou com a casa deles, me enganando. Não tenho economias, não posso trabalhar agora — João é muito pequeno. Não tenho amigos próximos, e quem quer uma mulher com um filho? Então aguento para que meu filho durma em uma cama quente. Quando o meu marido chega bêbado, procuro sair com o bebê. E só volto quando ele adormece. Hoje não consegui sair a tempo…

Olívia sentia uma pena imensa de Ana. Quando terminou com o noivo, havia recebido muito apoio. Dos pais, dos amigos. Tinha onde ficar, além de ter um emprego. E não tinha um bebê. Sim, era fácil falar sobre partir. Para Ana, no entanto, não havia uma alternativa clara. Havia centro de ajuda, mas as condições eram incertas.

— Já vou embora, não quero incomodar mais. Certamente ele já adormeceu. Muito obrigada, — Ana disse isso enquanto Olívia refletia sobre toda a situação.

— Espere.

Olívia nem sabia como chegou àquela decisão. Talvez tivesse apenas vislumbrado um pouco do terror que a vida de Ana se tornara, entendendo seu medo, dor e tristeza. Sentiu um desejo profundo de ajudá-la.

Ana olhou interrogativamente para a anfitriã. Olívia tinha ainda uma oportunidade de mudar de ideia, mas não o fez.

— Vamos, pegue suas coisas e as do João. Depois, você fica comigo. Vamos nos virar. Entre com pedido de pensão, ele que pague. Talvez encontremos uma babá para que você possa trabalhar.

— Não, não posso aceitar, — respondeu Ana, assustada. — Mal me conheces.

— Mas sei que não posso deixar você nessa situação.

Enquanto o marido de Ana dormia, elas transferiram as coisas dela e do filho para o apartamento de Olívia. Ana teve que dormir no chão, mas elas decidiram resolver isso depois. João dormiu no carrinho, que também trouxeram.

Os amigos de Olívia ficaram horrorizados com sua atitude. Como assim? Não é como resgatar um gatinho! Mas Olívia só ria, dizendo que dariam um jeito.

E elas conseguiram. Olívia e Ana tornaram-se melhores amigas. Após o divórcio, Ana solicitou a pensão alimentícia, o que foi suficiente para o filho. Quando o menino cresceu um pouco, Ana encontrou um emprego online, facilitando muito a vida. Mais tarde, colocou João numa creche particular, já que as creches públicas não aceitavam crianças tão pequenas, e assim pôde voltar a trabalhar.

Agora, tinham fundos para alugar um apartamento de dois quartos. Olívia tornou-se a madrinha de João, e ele a adorava.

Quando João completou três anos, Olívia conheceu um homem e, em breve, elas se separaram. Logo depois, Ana também encontrou alguém.

Mas a amizade delas continuou. Frequentemente se encontravam e logo se tornaram amigas de família. A vida das duas se estabilizou e Ana nunca deixou de agradecer a Olívia. Sabia que, sem a ajuda da amiga, talvez não tivesse sobrevivido.

Ana e Olívia casaram-se novamente e Ana logo teve outro filho. Uma menina.

Primeiro, ligou para o marido, depois imediatamente para a amiga.

— Você já teve o bebê?! — indagou Olívia, entusiasmada. Ela também estava grávida, mas ainda faltavam três meses.

— Sim! Uma menina!

— Parabéns!

— Obrigada.

— E o nome? Você não disse até agora.

Ana sorriu. Sim, tinha sido uma surpresa que queria preservar.

— Um nome lindo. Quem o possui, tem grande força interior. E são muito bondosos. Eu tenho certeza disso. Chamei minha filha de Olívia.

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