Reformada revela: “Já passaram mais de seis anos desde que vi o meu filho pela última vez” – Há qua…

A pensionista disse-me, com a voz perdida no nevoeiro do sonho, que a última vez que viu o seu filho tinha sido há mais de seis anosou seria há seis luas? O tempo era líquido ali.

Há quanto tempo o seu filho já não fala consigo? perguntei-lhe, enquanto atravessávamos juntas uma rua de Lisboa feita de azulejos líquidos e as gaivotas voavam para trás no céu cor de sardinha.

Ela olhou para o rio, que corria ao contrário, e disse:

Já passaram seis anos desde que deixou de me procurar. Depois de sair com a mulher dele, ainda telefonava de vez em quando, mas depois desvaneceu-se, como pão quente na mesa de pequeno-almoço. Uma vez, levei-lhe um bolo de aniversário de pastel de nata, fui ao apartamento dele em Almada e Nessa altura, os olhos dela tornaram-se duas fontes e a sua voz desfez-se em lágrimas que caíam para cima.

E depois…? perguntei, enquanto se ouvia ao longe o som de um elétrico a tocar fado.

A minha nora, Filomena, abriu a porta e disse-me que não era bem-vinda na casa deles. O meu filho, Duarte, nada disse; só olhou para mim como se eu fosse um peixe fora de água, desviando o olhar para o chão de mosaicos. E ali, àquela porta, foi a última vez que o vi respondeu, enquanto o cheiro do mar se misturava ao de alecrim.

E nunca mais a ligou? perguntei, sentindo um frio que vinha de dentro, como se o tempo tivesse parado na Rua Augusta.

Liguei-lhe uma vez, quando decidi vender o meu T3 em Benfica e comprar um apartamento mais pequeno. Claro que lhe dei algum dinheiro, uns 15 mil euros. Ele veio, assinou os papéis, levou o dinheiro e nunca mais soube dele. Foi como se a ponte Vasco da Gama tivesse desaparecido debaixo dos meus pés.

Sente-se sozinha, ou já se habituou à solidão? insisti, observando as sombras dos eléctricos bailarem nas paredes.

Estou bem, caríssima respondeu ela, com um sorriso de quem já viu muitos nevoeiros passarem sobre o Tejo. Em jovem, fiquei sozinha com o Duarte porque o meu marido, António, partiu atrás de outra mulher e de outras promessas. Criei o meu filho só com as minhas mãos, trabalhando em dois turnos na padaria e sonhando com noites completas de sono. O Duarte cresceu na ternura do cheiro a pão quente e nas minhas canções de embalar de Amália. Um dia, disse-me que queria arranjar casa própria. Fiquei feliz, imaginei que estava a tornar-se adulto no ritmo da cidade… mas havia outra razão, a Filomena. Foi ela quem quis que tivessem o próprio espaço, longe das interferências da velha mãe. Depois, engravidou.

Consegues falar disso assim tão facilmente? Não sentes que o teu filho te abandonou na velhice? estranhei, enquanto em sonho víamos ao longe o Castelo de São Jorge a desdobrar-se em dois.

Já me habituei. Gosto do meu apartamento novo em Campo de Ourique. Tenho o suficiente reforma certa, contas em dia para o que preciso, algum dinheiro guardado no Banco de Portugal. De manhã acordo, ponho a chaleira ao lume e sento-me na varanda a beber chá, olhando Lisboa a acordar, entre névoa e sol. Quando era jovem, só sonhava poder dormir uma noite inteira, pois trabalhava como uma formiga, sempre a correr. Pensava que ia envelhecer rodeada de netos e vizinhos barulhentos, mas fui destinada a outro caminho suspirou ela, enquanto o sol subia e descia quase ao mesmo tempo.

Porque não tem um animal de estimação, um gato ou um cão? A vida parece mais leve a dois.

Ela sorriu de um modo estranho, como se o tempo lhe tivesse contado um segredo só para ela:

Sabes, querida, até os gatos abandonam, às vezes, os seus donos E não posso ter um cão, porque nem sei se amanhã, ao acordar, ainda estarei aqui. Não posso prometer companhia a quem não sei se posso proteger. Já cometi esse erro uma vez, e foi suficiente para uma vida.

A mulher tentou compor o corpo, mas o sonho pesava. Não aguentou. E chorou lágrimas que se transformaram em pequenas flores de jacarandá, espalhando-se pelo chão do seu quarto, enquanto Lisboa girava devagar à volta do sol, como um carrossel adormecido.

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