Queres o meu marido? Fica com ele! disse a esposa, com um sorriso trocista dirigido à desconhecida care tocava insistentemente à sua porta.
Espera aí, Mariana! Alguém está a tocar à campainha. Ligo-te já, assim que descobrir quem é este e o que quer murmurou Inês, meio contrariada, antes de desligar a chamada com a sua amiga de infância. A Mariana estava-lhe a contar, com aquelas descrições hilariantes que só ela sabe fazer, tudo sobre a festa de aniversário da sogra, e a Inês já chorava a rir, parecia que estava a assistir a uma peça de teatro cómica.
Foi então que a Inês foi em direção à porta, espreitou pelo óculo e ficou espantada. Estava à espera de ver o vizinho do lado que mais ninguém conseguia entrar naquele prédio com código e tudo… Só que estava ali uma rapariga, ainda nova, com um aspeto estranho, que ela nunca tinha visto na vida.
Decidiu logo que não lhe ia abrir a porta nestes tempos, conversa com desconhecidos era coisa que não fazia. A Inês tinha uma regra: nada de conversas com gente que não conhece. Já não se deixava enganar os aldrabões aproveitam-se de quem é ingénuo, mas ela não caía nessas.
Ia retomar a chamada com a Mariana, mas a campainha tocou novamente. Aquela mulher queria mesmo falar com alguém, estava convencida de que havia gente em casa, e não arredava pé até ter resposta.
A Inês estava sozinha no apartamento; o João, o marido, tinha ido ajudar um amigo a arranjar o quintal. Voltou a espreitar pelo óculo e olhou melhor para a desconhecida.
Havia qualquer coisa nela de desconfortável e, ao mesmo tempo, de patético, mas Inês não sentiu qualquer receio.
O que é que pode acontecer se eu abrir a porta e lhe disser para seguir a sua vida? Assim despacho isto e ainda aproveito o meu fim de semana em paz pensou Inês. Deve ser alguma perdida ou a tentar vender-me alguma treta…
Ganhou coragem e abriu a porta. A mulher do corredor endireitou-se logo e ajeitou o cabelo, nervosa, antes de falar.
Boa tarde! É a Inês, certo? perguntou, mexendo nervosamente na echarpe.
Até sabem o meu nome… pensou Inês. Estes tipos das fraudes já não brincam. Sabem logo tudo.
Quem é você e o que quer? Já está aqui há quase cinco minutos. Não fui eu que a convidei, por isso despache-se disparou Inês, sem meias-palavras.
O João está por casa? perguntou a mulher, deixando a Inês meio à toa.
Mas que raio! pensou Inês, já desconfiada. Sabe até o nome do meu João. Está bem informada…
Veio cá por causa do João? arriscou Inês, embora estivesse a pensar noutra coisa para dizer.
Não, vim mesmo falar consigo. Mas, se o João estivesse, era bem mais complicado para mim respondeu a mulher, num tom estranhamente honesto.
Mais complicado porquê? O que se passa? perguntou Inês, cada vez mais curiosa.
Ele não está. O que pretende afinal?
Se calhar podíamos conversar lá dentro. Não me sinto à vontade a tratar destes assuntos aqui no corredor, onde qualquer vizinho pode ouvir… aventurou a mulher, tentando a sua sorte.
De maneira nenhuma! Não a conheço de lado nenhum e não ponho estranhos em casa. Fale o que tem a dizer, que eu não tenho tempo a perder insistiu Inês, sem lhe dar espaço.
Quer mesmo falar aqui, com todos os vizinhos a ouvir, sobre os detalhes da minha relação com o João? atirou a mulher, esboçando um sorriso irónico.
Desculpe…? Que relação? exclamou Inês, mais alto do que queria.
Oh filha, está tudo bem? Porque é que falas assim aos berros? perguntou a Dona Teresa, a vizinha, numa daquelas alturas em que o elevador parou mesmo ali.
Olá, Dona Teresa! Está tudo, obrigada. Sabe como é, coisas de fim de semana. Está a chover lá fora? tentou Inês mudar de assunto, a ver se despachava a vizinha.
Parece que vai cair uma chuvada, sim senhora respondeu a Dona Teresa, sem se mexer dali, evidentemente a ouvir tudo.
Entre resmungou Inês, para a mulher do corredor, com um gesto rápido, só para despachar a cena com a vizinha.
Assim que entrou, a mulher começou logo a olhar com atenção à volta da sala, como se estivesse a analisar cada objeto.
Tem cinco minutos. Pode falar cortou Inês, bloqueando a passagem para o resto da casa. Isto não é nenhum museu.
Chamo-me Beatriz começou a mulher, tirando o cachecol e o casaco. E o João e eu… estamos apaixonados.
Que original! Não arranjou uma história melhor? interrompeu Inês, lançando-lhe um sorriso irónico.
Não vê o que há de tão estranho assim? Isto acontece a todos, já devia estar habituada. Não é a primeira mulher que vê um marido sair porta fora… respondeu Beatriz, tentando passar para a sala.
E tem mesmo a certeza de que ele não gosta de mim e só quer saber de si? rebateu Inês, sem tirar o sorriso da cara.
Absoluta! Senão não estava aqui deste lado afirmou Beatriz, com arrogância.
Olhe, o problema é que o meu João não sabe gostar de ninguém. Nem de mim, nem de si, nem de ninguém. Acho que aí enganou-se, amiga atirou Inês, sem se exaltar.
Beatriz ainda tentou contra-argumentar, mas, nesse instante, ouviram a chave a rodar na fechadura… e o João apareceu no hall de entrada, a olhar para a cena.
Beatriz? O que é que fazes aqui num sábado? Aconteceu alguma coisa no trabalho? perguntou o João, de sobrolho franzido.
Não, ela não veio por causa de nada do trabalho respondeu Inês, visivelmente divertida.
Então porquê? Passou-se alguma coisa? indagou o João, cada vez mais baralhado.
Não, querido. Ela hoje veio buscar-te para si. De vez ironizou Inês, a tentar não se rir.
Beatriz, sem coragem para encarar a conversa, vestiu o casaco à pressa e deu meia volta.
Vais-te já embora? E o João? Não era por ele que vinhas? Olha que por mim podes levá-lo à vontade. Eu até te ajudo a pô-lo à porta gracejou Inês, só para a provocar.
Mas quando deu por ela, Beatriz já tinha saído do apartamento.
O que é que se passou afinal aqui? perguntou João, sinceramente confuso.
Boa pergunta respondeu-lhe Inês. Foste tu que me havias de explicar. Porque é que esta alma entrou aqui, cheia de certezas, a pedir divórcio e a dizer que tu ias mudar-te para casa dela?
Falas sério? Eu não sei de nada disto, juro-te garantiu ele, de cara lavada. Aquela rapariga tem andado toda estranha no trabalho mas nunca lhe dei confiança. Já estou farto disto tudo. Tu sabes como sou, prometi-te uma vida tranquila.
Pois… Bem sabes que eu não vou em cantigas. Mas isto das mulheres hoje em dia… algumas fazem tudo para dar um novo rumo à vida delas, mesmo que à custa de outras! respondeu Inês, abanando a cabeça.
O João tirou os sapatos e foi direito à cozinha buscar um copo de água, enquanto Inês ficou um segundo a pensar, a sentir alívio e até algum divertimento pelo espetáculo atrapalhado da Beatriz. Sorriu, tranquila. Fosse como fosse, o que contava é que ninguém ia abalar a paz do lar deles nem com intrigas nem com novelas mal planeadas. No fundo, era bom saber que havia gente capaz de tudo, mas melhor ainda perceber que, afinal, o amor deles era mais sólido do que se pensava.







