– Quem és tu?

Quem é?  DonaMadalena da Silva, acompanhada de Nuno, subiu ao varão da casa e fitou o estranho que se aproximava. Sou a neta, melhor dizendo a bisneta dela. Sou a filha de Alexandre o filho mais velho de DonaMadalena.

DonaMadalena sentavase na escadinha de pedra, banhada pela luz dourada do sol, e sentia o calor dos primeiros dias de primavera. Ah, como há muito tempo que a estação floresceu! Só o Altíssimo sabia como a velha Senhora havia sobrevivido ao inverno rigoroso.

Já não aguento mais um frio assim! pensou DonaMadalena, soltando um suspiro de alívio. Não temia mais a partida; ao contrário, aguardava aquele momento. Já tinha guardado legumes na horta, comprado os mantos de linho que tanto desejava.

Nada a prendia ao mundo.

***

No seu tempo, DonaMadalena teve uma família numerosa o marido, Felisberto da Silva, um homem alto e robusto, e quatro filhos três rapazes e uma menina. Viviam em harmonia, ajudavamse mutuamente e raramente brigavam. Aos poucos, os filhos foram crescendo e espalhandose por diferentes cantos.

Os dois primogênitos ingressaram numa universidade e depois mudaramse para cidades maiores, como Lisboa e Porto, para trabalhar. O filho do meio, porém, tinha dificuldades nos estudos; acabou por abrir um pequeno comércio que prosperou a tal ponto que o levou a viver no estrangeiro, onde acabou por ficar. A filha, por sua vez, fugiu da aldeia, foi para a capital e casouse logo depois.

No começo, as visitas eram frequentes. Escreviam cartas e, quando o telefone móvel chegou, ligavamse. Um a um, as netas foram nascendo. DonaMadalena, de vez em quando, empacotava a velha mala esfarrapada e viajava para ficar a cuidar dos netos.

Com o passar dos anos, as crianças tornaramse independentes; as visitas tornaramse escassas. As chamadas telefónicas foram diminuindo, até que já nem se lembravam de fazer uma visita o tempo e as obrigações da vida adulta consumiamas. O único motivo para regressar à casa da avó seria uma notícia triste: a morte do patriarca Felisberto. Parecia que aquele homem vigoroso viveria até cem anos, mas a realidade mostrou o contrário.

Depois do funeral, os filhos dispersaramse novamente. No início, ligavam para a mãe, mas logo os telefonemas cessaram.

DonaMadalena tentou ligar sozinha, mas sentiu que já não havia lugar para ela nos corações dos netos e afastouse. Assim, passou os últimos dez anos da sua vida. A cada ano, algum filho recordava a mãe e davalhe uma chamada; nesses momentos, ela sorria para si mesma, como quem se vê refletido num espelho.

Certo dia, enquanto descansava na escadinha, ouviuse um barulho na cerca.

Bom dia, tiaMadalena! dizia um jovem, com um sorriso largo.  Não se lembra de mim?

DonaMadalena esfregou os olhos:

Nuno! Que é que fazes aqui?

Sim, tiaMadalena! respondeu o rapaz, entrando no quintal.

Nuno era filho de vizinhos que não conseguiam passar um dia sem partilhar uma refeição à mesa. DonaMadalena lembravase dele como a criança faminta que sempre rondava a cozinha. Sempre que sentia pena, davalhe um pedaço de pão; partilhava roupas que sobravam dos seus filhos e deixavao pernoitar quando os pais lhe organizavam outra festa.

Os pais de Nuno não viveram muito. Quando faleceram, levaram o menino para um orfanato; depois, ele alistouse no serviço militar, estudou e, finalmente, regressou à terra natal, prometendo reconstruir a aldeia.

O que vais reconstruir?  agitou a mão DonaMadalena.  Todos já se foram.

Nada! Não desaparecerei!

Assim começou uma nova etapa para a avó. Nuno arranjouse a trabalhar para o senhorJorge, o maior agricultor da aldeia. Nos momentos de descanso, remendava a sua velha casinha, legada pelos pais, e ajudava DonaMadalena nas tarefas do quintal. Ela, por sua vez, tratavao como a um filho, embora nunca o chamasse filho. Passaram três anos felizes assim.

Vou embora, tiaMadalena disse Nuno um dia, como quem pede perdão  Jorge está a exigir mais trabalho e não paga. Vou buscar um salário noutro lado. Não se magoe!

Vai com Deus, menino! respondeu DonaMadalena, mas o coração apertouse. A solidão tornavase pesada e, às vezes, quase chorava. Mas algo ainda a mantinha firme na terra.

****

Bom dia, tiaMadalena!  ouviuse uma voz familiar. DonaMadalena virouse para a cerca e viu o rosto já conhecido.

Nuno! É realmente tu?

Sou eu, tiaMadalena!  um jovem alto, bem vestido, entrou no quintal.  Voltei! De verdade!

Que alegria!  exclamou DonaMadalena, mexendo as mãos como quem tem fome de carinho.  Entra, entra, Nuno! Tragote um bico de chá na hora!

Chá? Isso me dá bem! sorriu Nuno.  Já volto a casa, mas não sabia que te encontraria aqui. Tragote um pouco de pão, se quiseres!

Meia hora depois, a feliz avó e o ainda mais feliz Nuno sentaramse à mesa de madeira, beberam chá de porcelana antiga e conversaram até a noite fechar.

Já me vou para o outro mundo, Nuno  diz DonaMadalena, enxugando uma lágrima.

Não, senhora! Não pense nisso!  disse o rapaz, batendo na perna.  Cheguei para ficar. Vamos viver bem aqui, tiotia! Vou ganhar dinheiro e expandir o meu negócio. Você vai ver, nunca mais vai ficar só!

Nesse instante, ouviuse uma voz doce e juvenil que quebrou o silêncio.

Alguém está em casa?  clamou uma jovem voz de menina, vestida de casaco curta e sapatos de salto alto.

DonaMadalena olhou pela janela e viu uma rapariga no pátio.

Quem é?  perguntou a avó, acompanhada de Nuno, ao observar a visitante.

Sou a Vira, bisneta de Alexandre, filho maior de DonaMadalena respondeu a jovem, com um sorriso tímido.  Liguei, mas o telefone estava desligado! Decidi vir à porta, à esperança de encontrara.

Entra!  aclamou DonaMadalena, ainda um pouco perplexa, enquanto Nuno a ajudava a segurar a mala da moça.

Vira se acomodou e, com grande entusiasmo, começou a contar a sua história.

Não gosto da cidade. Quero viver aqui na aldeia! Os meus pais não entendem. O avô Alexandre sugeriu que eu ficasse alguns meses convosco. Disseme que, se eu viver aqui, o desejo de voltar à cidade desaparecerá. Ele ligou para vocês, o pai também, eu também. Mas nunca consegui falar! Não me julguem! Não quero ser apenas uma padeira. Tenho dinheiro! E o meu pai e o avô enviaramme uma bolsa de boasvindas! Vou ficar até ao fim do semestre, pois estudo à distância, e depois partirei!

Fica o quanto quiseres!  concluiu DonaMadalena, com um brilho nos olhos.  Para mim é só prazer!

Passouse um mês. DonaMadalena observava Vira a trabalhar no horto, e não se podia dizer que fosse um trabalho de cidade! Com a ajuda de Nuno, Vira revirou o jardim abandonado, fez canteiros, instalou um pequeno estufa, comprou mudas dos vizinhos e começou a plantar com entusiasmo.

Nuno, por sua vez, usou o dinheiro que ganhara para iniciar a construção de uma quinta moderna. Contratou trabalhadores para reparar o telhado da casa de DonaMadalena e instalou aquecimento central, substituindo a velha lareira.

A avó sorria sem parar. O seu rosto iluminavase de novo; já não se sentia mais só.

De vez em quando, porém, uma sombra de melancolia atravessava o seu semblante ao lembrarse de que Vira, em breve, partiria para a cidade. Mas já se apegara à bisneta como a quem se apega ao último ramo de uva na vinha.

Como hei de fazer, Vira, sem ti no jardim?  suspirou DonaMadalena, enquanto embalava pequenos pastéis para a viagem da bisneta.

Não te esqueças de encher a barrica de água! O Nuno rega tudo! E eu volto logo!  riscou Vira.  Volto, prometo! Não consigo sair daqui de verdade! Ameite de coração, avó. E o Nuno fezme um convite: casarnos no outono! Onde mais? Ele é um homem da terra!

Um ano depois, DonaMadalena repousava ao sol, embaloaacarrinho com o bebé a dormir. Vira e Nuno já estavam na quinta, trabalhando juntos; a propriedade prosperava e trazia progresso a toda a aldeia.

Ao olhar o bisnetinho a respirar tranquilamente, DonaMadalena refletiu:

Ainda não chegou a hora de me despedir! Ainda tenho muito a fazer pelos meus netos!

E assim, a história da velha DonaMadalena da Silva ficou gravada nas memórias da aldeia, um testemunho de resistência, amor e da força das raízes que nunca se perdem.

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