Imaginem a cena. A minha irmã, a Catarina uma verdadeira fashionista, sempre magra como um caniço, cheia de estilo. Eu eu sou um homem simples. Gosto um pouco mais de peso, apareceu-me uma ruga aqui e ali. Mas a vida segue, não há o que fazer.
Cada encontro nosso virava para mim um pequeno suplício. Ela fazia isso, não por malícia, mas com as melhores intenções. Aproximase, lança o seu olhar clínico e começa:
João, será que este vestido não te deixa pequeno? Parecese a uma roupa de avó.
João, se trocasses o corte do cabelo, ganharas uns cinco anos.
Ah, meninas, que batom! Essa cor já não se vê há dez anos!
Tudo isso com um sorriso meigo, quase carinhoso. Como se fosse um voto de boa vontade. Mas, depois de cada elogio, o meu humor despencava, e ficava semanas sem querer olhar ao espelho.
Triste? Tristíssimo! Eu já não era capa de revista, e ainda por cima a minha própria irmã cutucava o ponto sensível.
No início eu aguentava, brincava, mudava de assunto. A gota que transbordou foi o aniversário da mãe.
Eu tinha preparado tudo para esse dia! Comprei um vestido novo, fiz penteado, maquilhagem. Sentiame um rei, de verdade!
Reunimonos todos num restaurante em Lisboa. Convidados, parentes, tudo elegante e alegre. Foi então que a Catarina chegou, olhoume de cima a baixo e, bem alta, fez ouvir a todos:
João, que roupa é essa? Uma piada, parece a da tia Rosa da aldeia. Se me pedisses conselho, eu daria algo decente.
Nesse instante senti o chão a desaparecer sob os pés. Ela, na frente de toda a gente, praticamente escupiu-me na alma. Onde ficou o clima de festa?
Foi ali que tudo mudou dentro de mim. Chega de ficar calado! Decidi que era a minha vez. Afinal, eu tinha-me preparado para esse aniversário
Não levantei a voz. Por que faria isso? Inspirei fundo, sorri com a minha melhor lábia e interrompi a frase a meio:
Catarina! falei alto e com energia. Muito obrigada! De verdade, aprecio a tua preocupação! És a especialista em apontar falhas alheias!
Catarina ficou a brilhar, acreditando que eu a elogiava. Ingenuidade, que nada.
Como és experta em tudo, continuei, levantando da cadeira uma caixa que tinha preparado, decidi darte um presente!
Todos os presentes viraramse para nós. Oferecilhe a caixa, bem atada com fita. Ela abriua ansiosa, pensando talvez num perfume ou numa maquilhagem.
Dentro, porém, havia um certificado impresso em papel de alta qualidade: uma consulta individual a um psicólogo reconhecido, com o título Como aumentar a autoconfiança sem diminuir os outros. Lio em voz alta, para que todos ouvissem quem estava no salão, na cozinha e até o motorista do autocarro que passava ao lado! E foi então que a vi cair!
Aqui está, irmã! disse, ao notar o seu olhar surpreso. Pensei que isto te seria útil. Vai ajudar a sentireste realmente segura, em vez de viver a provarte às minhas custas! Como se diz, acertar na mosca!
O rosto dela passou de perplexidade a compreensão, e finalmente as bochechas tingiramse de um rubor tão vivo que não dá para descrever.
O salão ficou em silêncio, até que um tio riu alto, seguido por todos os demais. Todas aquelas observações venenosas saíram à superfície! Queria humilharme, mas acabou por exporse como piada.
O final foi imediato. Catarina murmurou algo, agarrou a bolsa e saiu correndo do salão
E, para responder à pergunta óbvia, sim, reconciliámonos. Somos irmãs, afinal.
Desde então, jamais a Catarina comentou a minha aparência. Quando nos encontramos, o assunto é só o tempo. E sabem? É até agradável.
Esta foi a minha história. Obrigado por me ouvirem até ao fim! Se gostaram, deixem um like, ficarei feliz! Comentem as vossas experiências já lhes aconteceu algo parecido? E partilhem com as amigas é ótimo!
