Imaginem a cena. Eu, Maria Silva, mulher comum, já ganhei uns quilinhos e uma ruginha aqui e ali a vida segue, não há o que fazer. A minha irmã Lurdes uma fashionista, esbelta como cana, sempre com a última tendência transforma cada encontro nosso numa pequena tortura. Ela faz isso, talvez sem máintenção, mas com aquele melhordobomintenção que tanto temos por aqui.
Ela chega, cruza os braços, lança o seu olhar de raiox e solta, com um sorriso doce que mais parece simpatia forçada:
Maria, ó, esse vestido não vai te deixar magra? Parece coisa da avó!
Maria, se trocasses o corte de cabelo, ganharias uns cinco anos a mais!
Ah, meninas, essa batom! A cor está há dez anos fora de moda!
E tudo isso com uma cara de quem está a dar um favor. Para mim, cada elogio afunda o humor como se fosse um alicerce a desabar; não quero nem olhar ao espelho por uma semana.
É doloroso, sim! Não sou capa de revista, mas ter a própria irmã a cutucar os pontos sensíveis é como receber um soco no estômago. No início, eu aguentava, ririndo, mudava de assunto. A gota que derramou o cálice foi o aniversário da minha mãe.
Prepareime como nunca: comprei um vestido novo, fiz penteado, maquilhagem. Sentiame uma rainha, de verdade! Reunimonos num restaurante em Lisboa, o Fado da Vila, com família, parentes bemvestidos e alegres.
Lurdes aproximouse, olhoume de cima a baixo, e, alta voz, fezse ouvir por todos:
Maria, que roupa é essa? É graça ou pecado parece a da tia Aurora, lá da aldeia! Se pedisses conselho a mim, eu encontrava algo decente!
Nesse instante, senti o chão a desabar sob os meus pés. Ela tinha, ali, diante de todos, cuspido na minha alma. Como poderia haver algum espírito festivo depois disso?
Foi então que algo mudou dentro de mim. Chega de calarse, chega de ser a lenha da família! Respirei fundo, sorri com o melhor dos sorrisos, e interrompia ao meio da frase.
Lurdes! disparei, alta e cheia de vida. Muito obrigada! De verdade, aprecio o teu cuidado. És mesmo a especialista em apontar defeitos alheios!
Lurdes pareceu iluminarse, como se eu estivesse a elogiála. Ingenuidade, pura. Continuei, ainda mais firme, levantando da cadeira um embrulho que tinha preparado:
Já que és tão experta em tudo, decidi fazerte um presente!
Todos os convidados viraramse curiosos. Entregueilhe uma caixa envolta em fita vermelha. Ela, ansiosa, começou a abrir, provavelmente à espera de perfume ou maquilhagem.
Dentro, porém, havia um certificado de papel fino, impresso com elegância: Consulta individual ao Dr. António Silva, Instituto Português de Psicologia Como elevar a autoestima sem menosprezar os outros. Lio em voz alta, para que até o motorista do autocarro que passava à porta do restaurante ouvisse.
Aqui está, irmã! disse, quando ela levantou os olhos, surpresa. Achei que te poderia ser útil. Vai ajudar a ser realmente confiante, em vez de viver à custa das minhas inseguranças. Como dizem, acertaste na mosca!
O rosto dela mudou de completa perplexidade a um lampejo de compreensão; as bochechas coraram com um rubor tão intenso que parecia pintado. O salão ficou em silêncio, antes de um dos tios soltar uma gargalhada alta, seguida por todos os demais. As púas de Lurdes, os comentários venenosos, escaparam ao fim.
O clímax chegou num instante. Lurdes murmurou algo, agarrou a bolsa e saiu correndo do recinto.
E agora, a pergunta que paira no ar: reconciliámosnos? Sim. Somos irmãs, afinal.
Desde então, Lurdes nunca mais tocou na minha aparência. Quando nos encontramos, a conversa fica só sobre o tempo. E sabem que… é até agradável.
Esta é a história. Obrigada por ficarem até ao fim! Se se identificaram, deixem um like, façame feliz! Comentem as vossas próprias histórias nos comentários já aconteceu algo semelhante? E partilhem com as amigas é sempre bom!
