Foi mesmo de cair o queixo. Entrei no hospital para visitar a minha amiga e lá estava o meu marido a cuidar dela, como se fosse um enfermeiro de novela. Olhei para o meu saldo e, sem hesitar, bloqueei tudo contas, cartões, eles próprios. Adeus, Maria e Rui, um abraço bem apertado para a vossa nova vida.
O MEU MARIDO DIZIA QUE ESTAVA NUMA VIAGEM DE NEGÓCIOS MAS NO HOSPITAL, OUVI A SUA VOZ POR UMA PORTA ENTREABERTA… A PLANEAR, COM TODA A CALMA, A MINHA RUÍNA.
Naquela manhã, ajeitei a gravata de Rui e dei-lhe um beijo extra sob as luzes espelhadas da nossa casa em Cascais, sempre certa de que tinha mordido o melhor pedaço da vida. Ele disse que ia para o Porto uma reunião importantíssima, segundo ele, onde ia finalmente provar ao meu pai que respeitava dinheiro e sucesso, sem depender do património da minha família. E eu, a crer nele como sempre.
Sou Margarida a herdeira sossegada que lhe pagava os fatos por medida, o BMW X5 e os negócios de empreendedor que, na verdade, tinham todos no meu nome. Confiava plenamente.
No fim do dia, decidi ir visitar Maria à clínica privada em Coimbra, onde ela dizia estar internada com febre tifóide. Levei um cesto de fruta até a pensar no quanto devia arrepiar-se ao saber que a amiga vinha a caminho.
Quando cheguei ao hospital, em frente ao quarto 305, a porta estava entreaberta. Silêncio absoluto nada de gemidos, só gargalhadas.
Depois ouvi a voz.
Rui.
Abre a boca, querida. Lá vai o aviãozinho
Senti o gelo a descer-me pela espinha. Rui devia estar na autoestrada para o Porto, a muitos quilómetros dali. O coração a querer saltar, espreitei pelo vão da porta.
Maria não estava doente, pelo contrário parecia um anúncio de shampoo: relaxada nos lençóis brancos, enquanto Rui lhe dava uvas com uma ternura que já se gastou comigo há anos.
Mas não era só traição amorosa.
Maria, a suspirar pela clandestinidade, passava a mão pela barriga. Grávida. Rui riu-se, já sem máscaras, e expôs o seu plano mestre com uma calma de quem decorou tudo em frente ao espelho.
Espera só mais um bocadinho, murmurou ele. Vou transferindo dinheiro da empresa da Margarida para as minhas contas. Quando tivermos o suficiente para a nossa casa, lanço-a para fora. Ela pensa que sou fiel coitada, é só o meu banco privado.
Algo dentro de mim quebrou.
A Margarida ingénua evaporou.
Não confrontei ninguém. Não chorei. Tirei do bolso o telemóvel, gravei tudo todas as palavras, toques, planos de burla e traição.
Depois saí.
Limpei as lágrimas, liguei ao chefe de segurança, e falei como se estivesse a tratar de uma troca de pneus.
Filipe. Bloqueia todas as contas do Rui. Cancela cartões. Prepara a equipa jurídica. Amanhã esvazia a casa onde a amante está instalada.
Rui deve ter pensado que era o génio da operação.
Não percebeu que acabou de declarar guerra à mulher errada.
Naquela manhã, Lisboa estava mais cinzenta que o normal mas eu, curiosamente, até andava animada. Eu sou Margarida e estava a ajeitar a gravata do Rui em frente ao espelho gigante do nosso quarto, na nossa villa em Cascais, onde passei cinco anos a acreditar no felizes para sempre. Ou assim pensava até aquele fatídico dia.
Queres que te prepare alguma coisa para a viagem? Perguntei, com aquele tom preocupado de esposa. O Porto não é ali ao lado.
Rui sorriu aquele sorriso que apaga preocupações. Beijou-me na testa.
Não, amor, tenho pressa. O cliente no Porto quer uma reunião de urgência logo à noite. Este projeto faz falta ao meu portefólio. Quero mostrar ao teu pai que não preciso do nome da família.
Orgulhosa, fiz que sim com a cabeça. Rui era trabalhador embora o BMW, os fatos italianos e os capitais para os seus negócios fossem todos da minha conta herança que administro e multiplico. Nunca lhe cobrei nada. Casamento é para partilhar certo?
Conduz devagar, pedi. Manda mensagem quando chegares ao hotel.
Rui acordou, agarrou nas chaves e saiu o clássico desaparecimento pela porta de madeira trabalhada, deixando-me com um pingo de ansiedade. Provavelmente, era só o prazer de finalmente ter a casa só para mim.
Mais tarde, depois de várias reuniões, lembrei-me da Maria minha amiga desde a faculdade. Tinha enviado mensagem no dia anterior: internada no hospital em Coimbra com febre tifóide. Ela vivia sozinha, numa casinha que é propriedade minha. E deixei-a lá viver sem pagar renda pura generosidade.
Pobre Maria, murmurei. Deve sentir-se muito só.
Olhei para o relógio duas da tarde. As reuniões tinham acabado, e decidi: ia visitá-la. Coimbra está perto, com sorte nas portagens. Ia surpreendê-la com uma marmita de cozido e um cesto de fruta.
Liguei ao meu motorista, João mas ele estava doente. Peguei no Mercedes vermelho e fui, a imaginar Maria a saltar da cama de alegria. Até pensei em ligar ao Rui para lhe contar como era uma esposa bondosa. Já julgava ouvir os elogios.
Às cinco, estacionei num hospital privado top em Coimbra. Maria tinha dito que ficava no quarto VIP 305. VIP? Esperei Maria não trabalhava. Como pagava uma suite daquelas? Pensei não faz mal, se precisar, ajudo eu.
Cesto na mão, atravessei os corredores a cheirar a desinfetante tudo polido, caro, gente que não sabe o que é fila no centro de saúde. O coração saltava, mas era de entusiasmo.
O elevador tocou no terceiro. Encontrei o quarto 305, meio isolado. A porta entreaberta.
Ia bater mas congelei.
Risadas.
E uma voz quente, familiar, cruel gelou-me as veias.
Abre a boca, querida. Lá vai o aviãozinho
O meu estômago virou. Essa voz beijou-me na testa de manhã. Tinha prometido Porto.
Não podia ser.
Trémula, encostei-me para espreitar.
A cena: Maria sentada, saudável, de pijama de cetim. E ao lado dela, a dar-lhe maçã com ternura de novela, o Rui.
Meu marido.
Olhos de enamorado iguais aos da lua-de-mel.
A minha mulher é tão mimada, Rui disse, a limpar o canto da boca da Maria.
A minha mulher.
Quase caí no chão.
E a voz da Maria doce, manhosa, venenosa:
Quando vais contar à Margarida? Estou farta de me esconder. Só tenho semanas de gravidez. O nosso filho merece reconhecimento.
Grávida.
Nosso filho.
Foi como levar um choque elétrico no peito.
Rui pousou o prato, agarrou as mãos da Maria, beijou-lhe os dedos como se fosse princesa.
Calma. Se me divorciar agora da Margarida, perco tudo. Ela é esperta tudo está no nome dela. O carro, o relógio, os fundos do projeto tudo dela. Ele riu-se, quase admirando a utilidade. Não te preocupes. Casámos em segredo há dois anos.
Maria fez um beicinho. Então vais continuar a ser parasita? Disseste que eras orgulhoso.
Rui riu-se, com confiança.
Por isso mesmo. Preciso de mais capital. Estive a tirar dinheiro da empresa dela custos fictícios, projetos inventados. Espera. Quando tivermos o suficiente para o nosso cantinho e negócio, boto-a fora. Já não aguento fingir ser simpático. Ela é controladora. Tu és melhor… tu obedeces.
Maria riu.
A casa em Coimbra está segura? A Margarida não vai reclamar?
Está, disse ele. A escritura ainda não está no meu nome, mas a Margarida acha que está vazia. Não sabe que a amiga pobre é a rainha do coração do marido.
Riram alegres, sem dó.
Agarrei o cesto de fruta com tanta força que me cortei. O impulso era abrir a porta, puxar cabelos e dar chapadas que apagassem os sorrisos.
Mas uma voz interior lembrou: contra inimigos, não há lágrimas destrói-lhes o chão e deixa a casa cair.
Com a mão trémula, tirei o telemóvel e, em silêncio, comecei a filmar tudo, beijo, pancinha, confissão de roubo, gozo.
Cinco minutos, cinco eternidades.
Saí pelo corredor, engoli as lágrimas. Sentei-me num canto, a olhar para o vídeo que acabara de gravar.
Caíram lágrimas, mas duraram pouco.
Limpei-as de imediato.
Chorar? Só por gente decente.
Então sempre dormi com uma cobra, murmurei, voz a tremer, o amor a transformar-se em raiva.
Maria a irmã que nunca tive era sanguessuga de sorriso fácil. Lembrei-me dos choros falsos e dos cartões extra. Lembrei-me das desculpas do Rui as horas extra provavelmente passadas na casa que eu própria lhe cedi.
A dor transformou-se em gelo.
Abri a app do banco tudo estava no meu nome, incluindo a conta das ações que Rui geria. Os meus dedos voaram.
Check balance.
30 mil euros devia ser para o projeto.
Check transactions.
Pagamentos em boutiques, joalharia, clínica de ginecologia em Coimbra.
Riem-se agora, murmurei, mas por pouco tempo.
Não ia entrar de rompante lágrimas, acusações, teatro barato. Quero justiça igual à dor.
Levantei-me, endireitei o casaco, olhei para o quarto como quem mira um alvo.
Desfrutem do hotel hospital, murmurei. Amanhã começa o inferno.
Já no carro, liguei ao Filipe segurança e IT.
Olá, Filipe, falei, calma (o que não era habitual).
Srª Margarida, tudo bem?
Preciso do habitual, urgente e discreto.
Às ordens.
Primeiro: bloqueia o cartão platinum do Rui. Segundo: congela a conta de ações diz que é auditoria interna. Terceiro: equipa jurídica de prontidão.
Filipe nem perguntou.
Quando quer executar?
Agora. Quero que receba a notificação na cara quando tentar gastar dinheiro.
Já vou tratar.
Mais uma coisa encontra um bom serralheiro e dois seguranças de respeito. Amanhã vamos à casa em Coimbra.
Tudo feito, senhora.
Desliguei, olhei pelo espelho.
A Margarida que chorou no corredor desapareceu.
Só ficou a CEO que aprendeu o preço da misericórdia.
O telemóvel vibrou mensagem do Rui.
Amor, cheguei ao Porto. Estou cansado. Vou dormir. Beijos. Amo-te.
Ri seco, irónico.
Respondi, imperturbável.
Ok, querido. Dorme bem. Sonha bonito amanhã acordas para uma surpresa. Também te amo.
Enviar.
E, com o ecrã escuro, um sorriso torcido apareceu.
O jogo começou mesmo agora.






