Quando o Vasco vinha cá a casa, eu, honestamente, ficava completamente pateta. Era de felicidade, claro. Andava numa azáfama, a arranjar-me, a esconder debaixo das almofadas as roupas que tinha experimentado antes de ele chegar e a tirar os rolos do cabelo. Depois corria para a casa de banho, penteava-me, punha batom. E só então, toda arranjada, aparecia diante dele.
E como não havia de estar feliz? Convenhamos…
Eu, Nazaré, era mãe solteira e verdade seja dita, nunca fui propriamente casada. Tive um namoro fugaz com o meu Jorginho, durou um mês ou dois, e depois ele foi-se embora da nossa cidade para aquela terra dele, que nem eu cheguei a saber bem qual era. Disse-me só que era dos lados da Galiza, ou talvez de Trás-os-Montes. Por cá, trabalhava no mercado municipal, mas até nisso eu não sabia ao certo em quê.
E foi assim que o encanto dos meus olhos desapareceu, deixando-me só, e para cúmulo, ligeiramente grávida. Só um bocadinho. Duas semanas, talvez – também ainda não sabia. Depois, quando o Jorge deixou de aparecer e já não vinha cá dormir há mais de um mês, percebi… era inevitável – ia ter companhia para muito tempo.
E lá nasceu, no tempo certinho, aquele meu menino que parecia feito de encomenda, tão bonito! E como não havia de ser, com uma mãe como eu modéstia à parte e o Jorge, que sempre foi assim um príncipe bonito.
O meu filho foi uma sorte. Tranquilo como tudo: dormia quase sempre, e quando acordava, mamava com aquele cuidado e seriedade dele. Leite não me faltava, tinha tanto que podia bem alimentar mais uma criança.
O Salvador, assim lhe chamei. Salvador Jorge, porque, grávida, calhou ver na RTP um filme antigo, Guerra e Paz. Lá estava o príncipe André Bolkonski, interpretado por um ator que tinha um je ne sais quoi do meu Jorge. E não tive alternativa ficou Salvador Jorge. Soava a música! Dizia-o para mim várias vezes, a saborear o nome.
O Salvador era um filho de sol. Quando precisava de cozinhar ou limpar, punha uma manta no chão, rodeava-a de cadeiras, improvisava ali um parque, sentava lá o Salvador, dava-lhe a minha velha mala, uns rolos e uns panos, e ele ali ficava, entretido, sem um ai, sem lamúria. Nem quando, um dia, olhando da cozinha, o vi preso de cabeça entre as cadeiras (queria sair, cheira-me), ele só resmungou baixinho, tentando afastar as cadeiras com as mãos gordinhas.
E, à medida que o Salvador crescia, nada mudava. Deixava-o à vontade para brincar no quintal. Só lhe pedia que, de dez em dez minutos, viesse ao rés-do-chão, à janela, a gritar: Mãe, estou aqui!
O problema era que o miúdo não tinha relógio. Corria à janela de três em três minutos, a gritar até eu responder: Está bem, filho! E mesmo assim não arredava pé. Só quando lhe sorria, de verdade, ele voltava a ir brincar com os outros meninos. Não me sorriste ainda, dizia-me. Então sorria-lhe de coração, e ele fugia para o recreio.
Uma vez, da rua, gritou o mãeestouaqui, e quando espreitei, vi que trazia um gatito ao colo:
Mãe, a senhora ali da esquina deu-mo. Disse-me que se chama Bartolomeu. E ainda disse que ias ficar contente, que tomássemos conta dele.
O Salvador, tão honesto e aberto, não me deixou alternativa a não ser sorrir-lhe. Depois disse-lhe:
O Bartolomeu deve ter fome. Venham os dois para dentro, que dou-lhe leite!
E lá veio o Salvador feliz com o gato. O Bartolomeu, esse, ainda estava a habituar-se à nova vida.
E assim vivíamos, nós três, até conhecer o Vasco.
O Vasco era da minha idade, nunca tinha casado, homem ponderado, trabalhador, nada velho, e com trabalho certo numa fábrica de móveis ganhava bem. Começou a vir cá aos sábados, com intenção séria. Falava pouco, comia bem, não era dado a grandes copos. Eu, sempre que ele vinha, preparava uma garrafinha de aguardente branca, punha-a a refrescar no congelador, e servia-lhe num copinho daqueles pequenos, de pé. O Vasco gostava muito desses copos.
Nesse dia, tudo decorreu normalmente. Chegou, deu um aperto de mão ao Salvador logo no corredor. Sentou-se na sala enquanto eu terminava o meu ritual habitual. Depois vimos televisão os três quer dizer, quatro, que o gatinho também vinha ao colo do Salvador. Depois disso, almoço, conversa, e mais tarde, era da praxe, a sesta. À noite, planeávamos um passeio pelo jardim municipal.
Quando fechei a porta do quarto do Salvador e me aninhei ao lado do Vasco, deitei a cabeça no braço dele, e pela primeira vez o assunto veio à baila:
Estava a pensar Para já, ficamos nesta casa. Se calhar depois mudamo-nos para uma maior, ou arrendamos a minha e assim temos um extra. Mas olha, Nazaré, tenho de te dizer uma coisa Não gosto de gatos. O Bartolomeu tem de ir.
Bartolomeu corrigi, já tensa.
Sim, o Bartolomeu, pois É isso. Ficou calado, pensativo, depois disse muito sério: E o Salvador vai para a aldeia, para a minha mãe. Ar puro, há escola, e nós nós ainda somos novos, temos tempo de ter uma data de filhos nossos.
O meu corpo ficou preso ali, gelado no abraço. Por uns segundos ninguém falou. Depois levantei-me devagar, vesti o roupão, corando como se nunca me tivesse visto despida por ele. Peguei nas calças dele de cima da cadeira, levei-lhas e disse:
Pronto Pega nas tuas calças e anda, Vasco. Vai-te embora.
Mas Para onde?
Para a aldeia, para junto da tua mãe, para o ar puro Nós, os três, já temos ar puro suficiente aqui no nosso jardim!
E assim ficou.






