Quando o encontraram, todos se afastaram. Passaram-se dois anos, e agora escrevem sobre ele na América e no Japão.
Benedita tinha acabado de sair ao quintal para colher salsa para o almoço, quando parou subitamente, como se o tempo tivesse estagnado. Junto à pilha de compostagem, dois minúsculos gatinhos estavam abraçados, miando baixinho com uma tristeza que se entranhava até aos ossos. Um deles parecia robusto, com o pelo farto e brilhante, mas o outro Benedita agachou-se com cuidado e pegou ao colo o mais frágil, quase translúcido.
Ó meu Deus, que se passou contigo, desgraçadinho?
Os olhos do gatinho estavam tão colados de pus que mal se viam, postos tão próximos um do outro que parecia que o mundo à sua volta era apertado, sem espaço suficiente para ele. As patas tremiam-lhe, a pelagem já formava novelos, como um lenço mal lavado. A irmã, pelo contrário, era um recorte de harmonia: bem alimentada, olhos brilhantes, proporções perfeitas parecia uma pequena escultura.
Sem dizer palavra, Benedita regressou a casa, trouxe o estojo da farmácia e foi tratando dos olhos do pequenino, com um disco de algodão ensopado em água morna e umas gotas oftálmicas.
Vais sobreviver. Vais, sim senhor.
As primeiras semanas pareciam um sonho interminável, como se estivesse sempre a atravessar corredores brancos de hospitais que nunca acabavam. Era uma alergia ao alimento, outra ao remédio, falha de coordenação, fragilidade nas articulações a lista de diagnósticos parecia um rosário cujo fim não chegava nunca. O pequenino foi batizado de Raul, e todos os dias lutava para estar ali; cada manhã era uma batalha, mas ele aguentava, persistente no seu caminho tortuoso.
Vê lá que figura, sorria Benedita, ao vê-lo tentar lamber-se e tombar para o lado, as articulações a falharem-lhe como dobradiças cansadas. Raulito do meu coração, és mesmo um prodígio!
A irmã, claro, encontrou casa em poucos dias uma gata tão bonita não ficaria sozinha muito tempo. Raul, no entanto, ficou ali, fiel a Benedita. E ela nunca, mas mesmo nunca, duvidou de que tinha escolhido bem.
Meio ano mais tarde, já ele crescido e mais forte, Benedita deteve-se a contemplar o rosto do seu companheiro. Aqueles olhos estranhamente juntos, que pareciam antes um defeito, agora davam a Raul um ar de eterno espanto, como se, a todo o minuto, descobrisse algo extraordinário e não soubesse como reagir.
Sabes, Raul, tens cara de quem se esqueceu do ferro de engomar ligado, riu-se ela, ao tirar-lhe mais uma fotografia.
O telemóvel recheava-se rápido de imagens: o Raul largamente estendido num sofá, patas para o ar; Raul boquiaberto, com olhos de quem acabou de entender que o mundo gira; Raul a tentar saltar para o parapeito da janela, para logo falhar, sem nunca ganhar jeito ao equilíbrio.
Uma tarde, apareceu a amiga Aurora. Ao avistar Raul, quase se engasgou com o café.
Benedita, mas isso é mesmo um gato?
É o meu Raulito, claro. O príncipe cá de casa.
Ele ele fica sempre assim a olhar?
Sempre. Como se todos os dias alguém lhe dissesse que Lisboa afinal fica na Lua.
Aurora nem hesitou; sacou do telemóvel para uma sessão relâmpago de fotos.
Inscreve-o no concurso “Rabo Mais Longo”! Vai ser na junta esta semana!
Benedita deu de ombros. O rabo de Raul de facto era vistoso, mas duvidava que chegasse a recorde. Ainda assim, iam ver, passear um pouco e rir pelo caminho.
No concurso, os jurados passavam o Raul de mão em mão, exames a medo, sussurros de admiração. Benedita achou que só podiam estar pasmados com aquele ar incomum.
Olhe, chegou-se uma moça de t-shirt azul, logo a seguir, o seu gato é único. Tem de partilhar isto na internet, faça um vídeo ou assim!
Acha mesmo que alguém vai ligar a isto?
Tenho a certeza.
Em casa, Benedita ficou tempos a rodar o telemóvel entre os dedos, a pensar se valeria a pena. Depois olhou o Raul, sentado torto como sempre, olhos tão redondos e abertos, sintonizado com coisas invisíveis.
E então, Raulito, vamos ser famosos?
O primeiro vídeo teve trezentas visualizações. O segundo mil e quinhentas. Mas o terceiro
O terceiro vídeo virou tudo de pernas para o ar.
Benedita, viste isto?! o marido entrou a correr com o tablet. O Raul já tem setenta mil seguidores!
Ela mirava o ecrã em espanto. As notificações explodiam, comentários em catadupa:
“Que criatura mais querida!”
“Olhos dele são o meu humor todas as segundas-feiras!”
“Adotava já, onde arranjou?”
“Tem cara de quem nunca percebeu como veio parar a este corpo.”
Rapidamente, uma página pessoal era pouco. Benedita abriu conta só para o Raul e começou a publicar histórias: o dia em que Raul perseguiu um raio de sol e foi contra a porta, como adormecia de olhos entreabertos, as pálpebras a dançarem, como filosofava no parapeito da janela, qual poeta de Almada entre dois pensamentos.
Seguidores cresciam em rajadas. Quinze mil, vinte, trinta Os números galopavam, Benedita já nem sabia se era sonho ou realidade.
Logo vieram mensagens de jornalistas. Primeiro do jornal de Setúbal, depois do Diário do Distrito. Passado pouco tempo, até do Público quis saber.
Bené, olha que tens aqui um americano a pedir entrevista! o marido passou-lhe o telemóvel. Deves ao mundo uns segredos.
Afinal, era um grande jornal americano, o The Mirror, pronto para publicar sobre o estranho gato português. Logo chegaram outros: uma revista alemã, site australiano, jornal japonês.
Raul, és uma estrela mundial, sorriu Benedita, afagando o bicho. Até em Tóquio falam de ti, consegues acreditar?
Raul olhou-a com o espanto habitual e virou-se de patas para o ar, barriga exposta, como se o assunto não fosse nada com ele.
Já em breve, veio uma equipa da Alemanha. Benedita inquieta: e se ele se assustasse? Se se escondesse ou ficasse desengonçado? Mas Raul foi igual a si próprio: sentou-se torto, olhos em órbita, tentou saltar para o sofá e falhou redondamente.
Fantástico! exclamava o operador de câmara. Ele é tão natural!
No final, o realizador apertou-lhe a mão.
Obrigado por salvar este gato. O mundo precisa de mais pessoas assim.
Benedita sentiu-se quase levitar quando a equipa partiu. Será que isto lhe estava mesmo a acontecer? Que era mesmo ela a dona deste gato estranho, aquele mesmo que salvara do lixo?
À noite, sentada no sofá, com Raul aninhado no colo, Benedita ouvia o rumor da chuva contra a janela, a luz amarela da sala a aquecer a alma e os dedos a acariciar o velho herói felino.
Ouve, Raulito, murmurou, houve quem dissesse que não valias o esforço, que não se gasta dinheiro nem tempo num animal assim. E agora vê: escrevem sobre ti mundo fora. Dizem que só de olhar para ti ficam melhores, que o teu olhar os salva dos dias mais duros.
Raul ronronou, fitando-a com os olhos de quem acaba de descobrir o segredo da vida.
És a prova de que todos merecem uma oportunidade. O que parecem ser defeitos podem ser marcas únicas. O amor cura, Raulito, faz mesmo milagres.
O telefone vibrou: uma mensagem da Lituânia. Benedita sorriu. Nunca pensara falar a jornalistas do mundo, nem que o seu animal se tornasse famoso, nem que a sua história saísse do quintal para os confins do planeta. Mas o importante não era isso. O importante era Raul, feliz, a viver a vida à sua maneira, a dar alegria a milhares com o seu ar espantado. Ele não trepava às árvores, não caçava ratos como os outros, mas sabia como ninguém oferecer carinho através do riso.
Obrigada, Raulito, murmurou. Por existires, por nunca desistires, por mostrares que nunca há casos perdidos faltam é braços e paciência.
Raul ronronou fundo, fechou os olhos. Mesmo a dormir, a expressão de espanto não o abandonava, como se nem ele acreditasse no caminho que percorreu.
E algures longe, alguém abria a página do estranho gato de Almada, observava-lhe as fotos e entendia: a beleza é subjetiva, a bondade, absoluta. E só a bondade é capaz de transformar um gato doente do composto de um jardim na luz brilhante que aquece milhares de corações.







