Quando Já É Tarde Demais

Quando Já É Tarde Demais

Hoje, ao chegar ao prédio do meu novo apartamento em Benfica, Lisboa, deixei-me ficar por momentos à entrada, contemplando aquele bloco de nove andares igual a tantos outros do bairro. Trazia o saco das compras da mercearia, o peso do pão alentejano e das laranjas dava uma sensação familiar e reconfortante, aquele aconchego caseiro pelo qual me tenho esforçado desde há uns tempos para cá.

A noite já estava fresca. Enfiei melhor o casaco, sentindo a brisa brincar com as minhas madeixas soltas que escapavam do rabo-de-cavalo apressado. Mal estiquei o braço para carregar no intercomunicador, avistei o Vasco.

Parado a poucos metros de mim, parecia receoso, quase sem coragem de se aproximar. Rodava nervosamente a chave do Peugeot entre os dedos o mesmo porta-chaves prateado que lhe ofereci em tempos de aniversário. Pela postura tensa, percebia-se o turbilhão das emoções: os ombros rígidos, o olhar inquieto, como quem tenta decifrar a resposta no meu rosto antes ainda de a ouvir.

Mariana, deixa-me falar contigo, por favor pediu ele, num tom inusitadamente suave, quase tímido, e deu um passo, para logo hesitar outra vez. Pensei muito, sabes? Podíamos tentar de novo. Eu… errei.

Suspirei devagar. Quantas vezes já ouvira aquelas palavras? De formas e momentos diferentes, mas o resultado era sempre o mesmo: as frases bonitas acabavam engolidas pelos velhos hábitos, pelos mesmos erros, por novas mágoas. Encarei-o sem emoção:

Vasco, já discutimos isto. Não volto atrás.

Aproximou-se mais um pouco, até quase invadir o meu espaço, os olhos brilhando de quem acredita realmente que, desta vez, tudo poderá ser diferente.

Mas tu vês como ficou tudo… a voz dele vacilava. Sem ti… tudo se foi abaixo. Não consigo sozinho.

Fiquei em silêncio. A luz amarela do candeeiro iluminava-lhe o rosto e reparei, talvez pela primeira vez com clareza, como ele estava mudado nestes últimos meses. Rugas fundas à volta dos olhos, barba mal feita, o ar completamente cansado nada a ver com o Vasco que conheci, nem mesmo depois de quinze anos juntos.

Deu mais um passo à frente, numa súplica evidente:

Podemos começar do zero? Eu compro um apartamento para ti, como sempre quiseste. E um carro o que sonhavas. Basta que voltes…

Por um instante, quase vacilei. A franqueza da sua expressão, a ânsia de corrigir tudo, fez-me duvidar. Mas passou logo. Revivi na cabeça todas as promessas que escutei algumas até com lágrimas e que depois se esfumaram sem deixar rasto, sempre seguidas por recaídas e novas decepções.

Não, Vasco repeti firme. Decidi e não volto atrás. Foste tu que me enxotaste, que me humilhaste. Não te perdoo.

Pousei o saco das compras num banco de madeira do jardim para descansar o braço. Prometia arrefecer ainda mais, e voltei a fechar melhor o casaco.

Tu não entendes, pois não, Vasco? falei serenamente, não com zanga, mas com firmeza. Não é a casa nem o carro.

Ele abriu a boca para replicar, mas fiz-lhe sinal para se calar. Fez que sim com a cabeça, resignado.

Lembras-te de como tudo começou? deixei escapar, fitando ao longe, embrulhada nas minhas memórias. Éramos jovens e apaixonados. Trabalhavas numa empresa de construção, eu comecei no ensino primário. Alugávamos um T1 minúsculo, mas éramos felizes. O ordenado mal dava; muitas vezes era preciso esticar os poucos euros que sobravam até ao final do mês, mas nunca faltava riso. Cozinhávamos a dois, chorávamos juntos os fracassos, desenhávamos sonhos para o futuro, filhos, passeios no Jardim da Estrela, os momentos simples em família…

Vasco acenou em silêncio. Lembrou-se, tal como eu, daqueles dias claros em que nenhuma dificuldade parecia insuperável. Vem-me à memória a nossa primeira casa: a cozinha apertada, o sofá a ranger, a torneira sempre a pingar que nunca consertámos até mudarmos. As sessões de pizza no chão, os projectos para amanhã…

Depois vieram as miúdas disse eu, com o tom já meio saudoso. A Leonor primeiro, cinco anos depois a Matilde. Ficavas cheio de orgulho delas. Vi-te no hospital assim, embevecido, com a Leonor ao colo, todo trocado de nervos e felicidade. Quando nasceu a Matilde, encheste a casa de rosas, e até levaste um bolo de chocolate, contrariando o médico!

Sorri, mas o sorriso foi triste. Estas lembranças sempre me aqueceram e magoaram em simultâneo.

E depois mudou tudo, recomecei, agora com segurança. Começaste a ganhar mais, compraste esta casa nova, o carro… e tornaste-te, de repente, o chefe de família, o homem bem sucedido. E eu? Fui apenas a mulher que não faz nada. Disseste uma vez: Ficas em casa, e eu ando feito formiga!. Não percebias o trabalho de verdade: as noites em claro, as reuniões na escola, os recados, a roupa, a comida… tudo isso não era trabalho.

Os meus olhos não mostravam raiva só o cansaço de quem se tentou explicar vezes demais e nunca foi escutado.

Vasco mexeu-se, prestes a defender-se, mas calei-o de novo com a mão. Não me interrompesse desta vez era minha vez de falar até ao fim.

Foste sempre cedendo a elas. Lembras quando a Leonor, pequenina, te pedia um tablet novo de olhos húmidos passado um bocado já o tinha nas mãos. Ou quando a Matilde não queria fazer os trabalhos da escola e tu deixavas, fosse qual fosse a justificação? Pensavas que dar-lhes tudo compensava as tuas ausências…

Vasco baixou os olhos ao chão, evocando esses momentos de cedência fácil.

Eu tentava pôr regras e tu gritavas que era má para elas. Disseste que não podia ralhar porque as traumatizava, que tinha que ser cool e não um carcereiro.

Dei um passo atrás, mais pela memória do que pelo físico, exausta de tantas tentativas em vão.

Resultado: aos oito e treze anos, não sabem arrumar nada, não valorizam nada, porque tudo lhes cai do céu no primeiro pedido. Não sabem esperar, não sabem que cada coisa requer cuidado, nem percebem o preço do tempo. E quando tentei educar, refugiaram-se em ti: Pai, a mãe está chateada!, e tu alinhavas, fazias de mim a má.

Esperei para ver se percebia o que lhe estava a dizer. Quanto tempo gastei a tentar equilibrar a família que ele próprio desmoronava sem reparar…

Vasco quis defender-se, mas mordeu a língua. Pela primeira vez pareceu duvidar da sua versão dos factos.

Depois apareceu a tua Inês continuei, agora indiferente, como se contasse a história de alguém distante. Bonita, jovem, sem filhos nem problemas. Sempre a sorrir e a elogiar tudo o que dizias, nunca a reclamar ou a pedir que comprasses iogurtes porque estava tudo vazio no frigorífico.

Dei-lhe tempo para digerir as minhas palavras.

E tu convenceste-te que isso era felicidade. Disseste-me, à noite, quando as miúdas dormiam: Estou farto, Mariana. És sempre amarga. Não recebo atenção. Conheci outra pessoa que me entende e me faz feliz só por eu existir.

Recordo perfeitamente esse dia. Achei então que ele fazia o papel de herói que toma as rédeas da própria vida, argumentando que merecia ser feliz, a cultivar o convencimento de que era adulto e honesto por ser assertivo.

Pediste divórcio notei-lhe o nervosismo, mas recuperei-me logo. E acrescentaste que as raparigas ficavam comigo porque seria melhor para elas. Tinhas tudo planeado, até o valor dos alimentos, os detalhes das visitas como se a família fosse só uma questão burocrática.

Por momentos, hesitou, a sentir o que eu sentia naqueles dias a minha tentativa de segurar o que já era impossível.

E eu, nessa altura, disse-te que ficavas com elas.

Lembro-me tão bem do susto dele. Nunca esperou ouvir isso. Calculou que o divórcio lhe traria descanso, viagens com a Inês, jantares em restaurantes. Não percebeu que os filhos não são obstáculo, são a vida, e que assumir a paternidade é parte do recomeçar.

Recordo com nitidez o tribunal em Campo de Ourique: o juiz sério, o secretário a ler monotonamente, e tu já a desenhar a nova vida na tua cabeça. Mas o juiz anunciou: as raparigas ficariam ao teu cuidado. E aí é que começaste a perceber de repente, tinhas duas crianças mimadas a teu cargo.

A casa tornou-se caótica, deixaste de conseguir fugir para o trabalho quando querias. O dia-a-dia era agora só teu e delas.

E aí é que viste o resultado, continuei, calma. Educá-las sem mim era impossível. Não te respeitavam, faziam o que queriam, e tu já não tinhas a quem passar a batata quente.

Ficámos em silêncio. Vinham-lhe de volta as cenas do desastre doméstico: o arroz a queimar porque recebia chamadas de obra, a loiça acumulada e a Matilde a chorar por um par de ténis novo só porque todas as amigas tinham. Nessa noite, ligaste-me aflito, sem saber o que fazer.

Tentaste impor regras nada de telemóveis antes dos trabalhos, cada uma limpa o quarto, não há mesada à toa. Mas bastava uma birra e cedias. E ainda havia a Inês: tentou ao início parecer simpática, mas mal houve confusão, desinteressou-se logo e acabou por te dizer que não estava feita para isto.

A Inês foi-se embora ao fim de três meses, disseste tu, quase sem voz. Não quis ficar para esta aventura queria uma vida sem problemas.

E eu aí é que percebi o buraco que cavei: sem ti, tudo ruía. As raparigas não obedeciam, a casa virava caos, no emprego andava esgotado. Julguei que assim é que seria feliz, livre. Só que estás aprisionado é na confusão de todos os dias.

Vi-me com pena, mas não era para te atacar. Só para te mostrar: ambos passámos muito.

Engraçado quase sorri com leveza, sem gozo , quando fiquei sozinha pude finalmente respirar. A sério, Vasco. Sem aquela sensação permanente de peso nos meus ombros.

Nos primeiros tempos custou, mas tornei-me coordenadora pedagógica numa associação escolar aqui em Lisboa. Deixei a escola primária para ajudar a desenhar programas, apoiar outros professores, envolver-me em projetos inovadores. Descobri-me competente, orgulhosa, e até o ordenado melhorou não só dava para tudo, como também poupava para pequenos mimos.

O olhar deslizou pelo pátio do prédio. Agora alugava este T2, onde tinha tudo o que precisava: comida, roupa, fins-de-semana no cinema, manicura para animar, livros novos para devorar, cafés de esquina para relaxar. Já não corria ao supermercado para estocar jantares ou escrava do fogão para satisfazer a família. E finalmente voltei a dormir noites inteiras, sem barulhos, sem exigências de última hora. Vivo tranquila, sem dever nada a ninguém.

Olhei-o nos olhos. Não era por vaidade, só pelo simples alívio de ter reencontrado equilíbrio.

O Vasco calava-se, incerto. O que ele sempre quis liberdade, leveza, admiração da amante revelou-se um engano. A vida real estava nos detalhes que desprezou: as pequenas rotinas, as chatices, mas sobretudo a dedicação. Afinal, o que tantas vezes tomou por resmungo meu, era cuidado silencioso. O café de manhã antes do trabalho, as loiças apanhadas sem reclamar, as palavras certas para as raparigas quando ele desesperava.

Peço-te para voltares porque não sei viver sem ti disse ele por fim, já sem orgulho. Amo-te, Mariana.

Era sincero. Veio de dentro e não do medo da solidão. Pela primeira vez, admitiu o seu erro sem desculpas.

Fiquei a olhar-lhe, a tentar discernir se teria mudado mesmo, se as suas palavras eram só mais uma tentativa de fuga à sua própria confusão.

Peguei de novo no saco das compras e disse baixinho:

Fico feliz por perce-beres. Mas não volto. Já não sou a mesma pessoa. E tu também tens de mudar não por mim, mas por ti e pelas nossas filhas. Elas precisam de um pai a sério, não apenas de um papagaio de cartões e prendas.

Não era rancor, só verdade crua e serena.

Ele quis argumentar, mas já eu caminhava para o prédio, sem me virar.

Mariana! chamou ele atrás de mim.

Parei, mas não olhei.

Vou continuar a pagar a pensão e a marcar os encontros com as meninas ao sábado. É melhor assim.

Entrei. Ficou só, sob o céu frio deste novembro lisboeta. O vento zunia junto às paredes, gelando o corpo mas aposto que o que mais lhe doía era o silêncio dos nossos anos partidos.

Revi os nossos dias: as brincadeiras das miúdas à mesa, a preparação das mochilas, os planos que fizemos e nunca cumprimos. Agora percebi o que de facto se perdeu não foi apenas uma esposa, foi a guardiã do lar, a bússola certa quando ele só via nevoeiro, o alguém que amava o homem verdadeiro, com defeitos e dúvidas.

Hoje, enquanto apagava a luz da sala já sozinho, aprendi isto: há alturas em que julgamos que a liberdade está na ausência de peso. Pensamos que largar tudo nos faz mais leves, mais felizes. Mas a certa altura, percebemos que o verdadeiro valor está em quem caminha connosco nas manhãs iguais, nos desaires e nas pequenas alegrias. E quando damos por nós, isso já ficou para trás e, então, já é mesmo tarde demais.

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