Quando o encontraram, toda a gente virou costas. Mas dois anos depois, falam dele nos Estados Unidos e no Japão.
Olha, tu nem imaginas, Amélia saiu ao quintal para apanhar um pouco de salsa para o almoço e de repente ficou parada, sem conseguir dar mais um passo. Junto ao monte de compostagem, bem agarradinhos um ao outro, miavam dois minúsculos gatinhos. Um era robusto e felpudo, o outro A Amélia agachou-se devagarinho e pegou ao colo aquele mais fraquinho.
Valha-me Deus, o que foi que te aconteceu, pequenino?
Os olhos do bichinho quase nem se viam de tanto pus, e eram tão juntos que parecia que a natureza nem tinha tido espaço suficiente para os separar. As patinhas tremiam, o pêlo estava todo emaranhado em nós. Ao lado, a irmã fazia mesmo contraste: gordinha, bem cuidada, toda perfeitinha parecia mesmo uma princesa.
A Amélia nem disse nada. Voltou a casa a correr, foi buscar o estojo dos medicamentos e começou a limpar o focinho do gato, molhando o algodão em água morna, com todo o cuidado do mundo.
Vais sobreviver, prometo-te isso.
As primeiras semanas foram uma verdadeira montanha-russa, sempre em idas e voltas ao veterinário. Uma alergia à ração, problemas desta e daquela articulação, fraqueza nisto e naquilo parecia que a lista nunca mais acabava. Chamaram-no Martim, e ele foi lutando com unhas e dentes para viver, mesmo quando cada dia era uma luta.
Olha-me este trapalhão! ria-se a Amélia, ao ver o Martim a tentar lavar-se, só para acabar de barriguinha para o ar por causa das articulações esquisitas. Martimzinho, és mesmo o meu pequeno milagre!
A irmãzinha não tardou a ser adotada tão bonita, arranjaram logo quem a quisesse bem. Já o Martim ficou ali, em casa da Amélia. E olha, acredita, ela nunca se arrependeu, nem por um instante.
A meio ano disto, quando o gato cresceu mais um bocadinho e ganhou forças, a Amélia olhou mesmo a sério para o focinho dele. Aqueles olhos tão juntos, que dantes pareciam defeito, agora só lhe davam um ar eternamente surpreendido. Como se estivesse a descobrir o mundo a cada instante, sem nunca se habituar ao espetáculo.
Oh Martim, tu ficas com cara de quem se esqueceu de desligar o fogão! desatou a rir, tirando mais uma foto.
E o telefone dela foi-se enchendo de imagens do Martim: a dormir nas posições mais disparatadas no sofá, a olhar para tudo com cara de quem acabou de ver um OVNI, a tentar saltar para o parapeito da janela sempre a falhar, porque aquela coordenação nunca melhorou muito.
Uma amiga um dia veio fazer uma visita à Amélia, e ao ver o Martim, quase se engasgou com o café.
Mas, Amélia, o que é ISTO?
É o Martim, o meu rei.
E ele tem SEMPRE essa cara?
Sempre. Como se tivesse acabado de descobrir que a Terra anda à volta do Sol.
A amiga nem esperou, sacou logo do telemóvel e tirou uma data de fotos.
Olha, inscreve-o no concurso do Rabo Mais Comprido! Esta semana vai haver aqui no bairro.
A Amélia deu de ombros. O Martim tinha de facto um rabo bem respeitável, mas duvidava que chegasse para bater recordes. Mas lá foi pelo menos passeavam e viam outros gatos curiosos.
No concurso, os organizadores ficaram minutos a apreciar o Martim, a trocar impressões a meia voz. Bem, a Amélia achava era que estavam todos lixados da vida a olhar para a figura dele.
Sabe disse uma rapariga de t-shirt com o logotipo do evento , o seu gato é mesmo único. Tem de lhe fazer um vídeo e pôr na net!
Achas que alguém liga?
Tenho a certeza.
Em casa, a Amélia ficou a olhar tempo demais para o telemóvel sem decidir nada. Depois espreitou para o Martim, na sua pose habitual meio torto, olhos tão abertos, parecia ter avistado um fantasma.
Pronto, Martimzinho, bora lá ver se viras famoso?
O primeiro vídeo teve uns trezentos gostos. O segundo, já ia para mil e quinhentos. E o terceiro
O terceiro rebentou com tudo.
Amélia, estás a ver isto?! o marido dela correu pela sala com o tablet na mão. O teu Martim tem setenta mil seguidores!
A Amélia não acreditava. As notificações não paravam, cada vez mais comentários:
É a coisa mais doce que já vi!
A cara dele de segunda-feira é igualzinha à minha
Como arranjo um gato igual? Onde foi buscar?
Tem sempre ar de quem acabou de perceber porque é que os portugueses gostam tanto de pastéis de nata!
Percebeu que uma conta pessoal já não chegava. Criou para o Martim uma página só dele, partilhando pequenas histórias do dia-a-dia: as tentativas de apanhar o reflexo do sol e dar de frente com a parede, as sestas com os olhos semi-abertos (com os músculos das pálpebras sempre no improviso), ou o ar filosófico à janela como quem medita nos enigmas da vida.
Os seguidores aumentavam todos os dias. Quinze mil. Vinte mil. Trinta mil A Amélia já nem dava conta aos números.
E, de repente, começaram a chegar as mensagens dos jornalistas. Primeiro um jornal aqui da zona, depois um nacional. Por fim, meios de comunicação estrangeiros.
Amélia, tens aqui uma mensagem dum americano qualquer! o marido passou-lhe o telemóvel. Fala em entrevista
Era do The Mirror, aquele jornal americano grandote. Depois veio uma revista alemã, um site australiano, até um jornal do Japão.
Pois é, Martim, agora és estrela lá do outro lado do mundo sorriu a Amélia, a fazer-lhe festas nas orelhas. Já falam de ti em Tóquio, acredita?
O Martim olhou para ela com o seu famoso olhar de espanto, rebolou-se de barriga para cima como se aquilo fosse tudo muito normal.
Algum tempo depois, vieram da Alemanha uns tipos da televisão. A Amélia estava dum nervoso miudinho, a pensar que o Martim ia fugir das câmaras ou portar-se de forma esquisita. Mas não lá ficou fiel à sua pose, olhos arregaladíssimos, a tentar saltar para o sofá e, claro, a falhar outra vez.
Fantástico! exclamava o operador. Nunca vi nada assim!
No fim, o realizador apertou-lhe a mão com força.
Obrigado por salvar este gato. O mundo fica melhor graças a pessoas como você.
A Amélia acompanhou-os à porta, sentindo-se emocionada. Tudo aquilo era real? Com aquele mesmo gatinho fraquinho que ela tinha recolhido lá no quintal, junto ao lixo?
Nesse fim de dia, já a chuva miudinha batia nos vidros e o candeeiro lançava luz quente na sala, a Amélia afagava suavemente o Martim, que dormia nos seus joelhos.
Sabes, Martimzinho, murmurou a Amélia, nem ela sabia se para ele ou para si quando te trouxe para cá, muita gente disse que não ias durar. Que gastava tempo e dinheiro num bicho sem salvação. Mas agora escrevem sobre ti por todo o lado. As pessoas sorrirem ao ver-te. Dizem que ajudas a dar ânimo nos dias difíceis, que a tua carinha os faz rir quando não apetece mesmo nada.
O Martim ronronou, olhando para ela com o seu ar de quem acabou de desvendar o mistério do universo.
És a prova de que todo o ser vivo merece uma oportunidade. Que o que uns veem como defeito pode afinal ser especial. O amor faz milagres de verdade, sabes?
O telemóvel vibrou mensagem de uns jornalistas da Lituânia.
A Amélia sorriu. Nunca lhe passou pela cabeça entrevistar com gente do outro lado do continente, muito menos tornar-se dona de um gato-celebridade. Mas no fundo, nada disso é o mais importante. O que conta é que o Martim vivia, sentia-se tão bem quanto podia e era feliz. Nunca foi trepador de árvores, mas dava alegria a milhares de pessoas só com aquela figura rara. E isso valia tudo.
Obrigada, Martimzinho sussurrou. Por estares cá. Por lutares. Por mostrares a mim e a tantos outros que não há situações sem saída, só falta de carinho e paciência.
O Martim ronronou e fechou os olhos. Até a dormir, a carinha dele tinha sempre aquele espanto talvez por nem ele acreditar no quão extraordinário tinha sido o caminho dele.
E, algures, pessoas abriam a página do gato mais insólito de Lisboa, viam as fotografias e percebiam o mais simples dos segredos: beleza é relativa, bondade é absoluta. E só a bondade consegue transformar um fraquinho e desprezado gato do quintal numa estrela que ilumina os dias de tanta, mas tanta gente.







