“Quando foi a última vez que você se olhou no espelho? – perguntou o marido. A resposta da esposa su…

Quando foi a última vez que olhaste para ti ao espelho? perguntei à minha mulher. A reação da Sofia foi inesperada.

Eu terminava o café da manhã, observando Sofia de soslaio. Trazia o cabelo apanhado com um elástico daqueles da escola, cheio de bonequinhos. Não era raro vê-la assim.

Mas a Vera, do andar de baixo, tinha sempre um ar novo, fresco. O perfume caro dela ficava no elevador muito depois de ela sair.

Sabes, pus o telemóvel de lado, às vezes acho que vivemos como bem, como vizinhos.

Sofia parou, ficou imóvel com o pano de limpeza na mão.

O que queres dizer com isso?

Nada demais. Só isso: quando é que olhaste para o espelho pela última vez?

Foi aí que ela olhou mesmo para mim. E percebi que algo fugiu ao meu controlo.

E tu? Quando é que olhaste mesmo para mim pela última vez? perguntou ela, baixo.

O silêncio foi desconfortável.

Sofia, não faças um drama disto. Só digo que uma mulher tem de se cuidar, estar sempre impecável, ora essa. Olha para a Vera, é da tua idade.

Hmm… Vera murmurou Sofia, como se tivesse aprendido alguma coisa ali.

Após uma pausa, disse:

Ó Pedro, olha: vou sair daqui uns dias. Vou para a minha mãe, pensar nas tuas palavras.

Pronto, está bem. Vivemos separados um tempo, refletimos. Mas repara, não te estou a pôr na rua!

Sabes, pendurou o pano cuidadosamente ao lado da banca, talvez eu tenha mesmo de me olhar ao espelho.

Saiu a preparar as malas.

Fiquei sentado na cozinha, a pensar: Era isto mesmo que eu queria. Só que, em vez de sentir alegria, senti um vazio enorme.

Três dias vivi como de férias. Café devagar de manhã, à noite fazia o que queria. Nada de novelas sobre traição e amores sofridos.

Liberdade, percebem? Aquela liberdade masculina tão desejada.

À noite encontrei Vera à entrada do prédio. Trazia sacos da Continente, saltos altos, o vestido caía-lhe impecável.

Pedro! cumprimentou com um sorriso. Está tudo bem? Já não via a Sofia há algum tempo.

Ela está na mãe, descansa menti facilmente.

Pois. Às vezes precisamos de uma pausa, não é? Da rotina, das obrigações.

Falou de forma leve, como se não soubesse o que era limpar um chão ou cozinhar o jantar.

Vera, e se fôssemos tomar um café, um dia destes? Assim como vizinhos.

Porque não? Amanhã à noite?

Planeei aquela noite inteira o dia de amanhã. Camisa, calças ou jeans? Perfume, mas nada exagerado.

De manhã, tocou o telefone.

Pedro? voz desconhecida. Sou a Manuela, a mãe da Sofia.

O coração deu um salto.

Sim, diga.

A Sofia pediu para avisar: vai buscar as coisas no sábado, quando não estiveres em casa. Deixa as chaves com a porteira.

Mas como assim, buscar as coisas?

O quê, esperavas o quê? e ouvi o tom de ferro da sogra na voz. A minha filha não vai ficar à espera que decidas se ela te serve ou não.

Dona Manuela, eu não disse nada disso…

Disseste tudo o que precisavas. Adeus, Pedro.

E desligou.

Fiquei ali sentado a olhar para o telemóvel. Que raio é isto? Eu não pedi divórcio, só queria uma pausa, tempo para pensar.

Elas já decidiram tudo por mim!

O café com Vera foi estranho. Ela foi simpática; falou sobre o banco onde trabalha, riu com as minhas graças. Quando tentei segurar-lhe a mão, afastou-se discretamente.

Pedro, perceba não posso. És casado.

Mas estamos separados, agora.

Por agora. E amanhã? olhou-me com atenção.

Acompanhei-a até ao prédio e subi para o meu. A casa recebeu-me com aquele silêncio de solteiro.

No sábado, evitava estar em casa. Não queria cenas, nem lágrimas. Que Sofia levasse as coisas sem alarido.

Às três da tarde, estava roído de curiosidade. Que levaria ela? Tudo? Só o essencial? Como estaria?

Às quatro, não aguentei: regressei.

À porta estava um carro, matrícula de Lisboa. Ao volante, um homem de uns quarenta anos, bem-parecido e de boa camisola, ajudava alguém a carregar caixas.

Sentei-me no banco, esperei.

Dez minutos depois, saiu uma mulher de vestido azul. O cabelo apanhado numa mola bonita, maquilhagem leve, olhos destacavam-lhe o rosto.

Fiquei incredulo: era a Sofia. A minha Sofia, mas diferente.

Trazia a última mala, e o homem correu a ajudá-la, amparando-a como se fosse frágil.

Não aguentei. Levantei-me e fui até ao carro.

Sofia!

Ela voltou-se. O rosto sereno, bonito. Sem o cansaço habitual.

Olá, Pedro.

Isto És tu?

O condutor retesou-se, mas ela acalmou-o, pousando a mão sobre a dele.

Sou, sim. Só que tu deixaste de me ver há muito tempo.

Sofia, espera. Podemos conversar.

Sobre o quê? sem raiva, só surpresa. Tu disseste que uma mulher deve estar deslumbrante. Resolvi ouvir-te.

Não era isso que queria dizer! senti o coração a saltar.

O que é que esperavas, Pedro? inclinou a cabeça. Que eu ficasse bonita, mas só para ti? Interessante, só em casa? Que gostasse de mim, mas não tanto que resolvesse sair de um casamento onde ninguém me vê?

Ouvi, e sentia-me a desmontar por dentro.

Sabes, continuou de voz doce, percebi que descuidei-me. Não por preguiça, mas porque me habituei a ser invisível. Na minha casa, na minha vida.

Sofia, eu não queria…

Querias sim. Querias uma esposa invisível faz tudo, não incomoda. E, quando cansa, troca-se por modelo mais brilhante.

O homem murmurou-lhe algo. Sofia acenou.

Tenho de ir, Pedro. O Vítor espera.

Vítor? Quem é esse?

Alguém que me vê respondeu ela. Conheci-o no ginásio. Há um fitness mesmo perto da mãe. Imagina, aos quarenta e dois, pratiquei desporto pela primeira vez.

Sofia, por favor! Vamos tentar de novo. Fui um parvo, eu sei.

Pedro, responde: lembras-te da última vez que disseste que eu estava bonita?

Fiquei mudo. Não me lembrava.

E perguntaste pela última vez como me sentia?

Percebi que tinha perdido. Não para Vítor, mas para mim próprio.

Vítor ligou o carro.

Eu não estou zangada, Pedro, disse-me ela, a sério. Ajudaste-me a perceber: se eu não me vir a mim, ninguém me verá.

O carro arrancou.

Fiquei às portas do prédio, a olhar para a minha vida a partir. Não era só a Sofia era a minha vida. Quinze anos que julguei rotina, e agora sei: era felicidade.

E eu não dei por nada.

Meio ano depois, encontrei-a no Centro Vasco da Gama. Por acaso.

Sofia examinava pacotes de café em grão, lia tudo nas etiquetas. Ao lado, uma rapariga de vinte anos.

Esse parece bom, dizia Sofia. O teu pai diz que arábica é melhor que robusta.

Sofia? Aproxima-me.

Ela voltou-se, sorriu naturalmente.

Olá, Pedro. Esta é Madalena, filha do Vítor. Madalena, este é Pedro, fui casada com ele.

Madalena acenou, simpática. Bonita e com ar universitário, olhava para mim curiosa, sem agressividade.

Tudo bem? arrisquei.

Bem, sim. E contigo?

Vai-se andando.

Pausa desconfortável. Falar com uma ex-mulher que é outra pessoa?

Ali, ao pé do café, olhei para ela. Bronzeada, blusa leve, corte novo. Feliz. Sim, feliz.

Que tal a vida amorosa? perguntou ela.

Vai-se andando, suspirei.

Sofia olhou para mim, séria.

Queres encontrares uma mulher bela, como a Vera, mas dócil como eu fui. Inteligente, mas não ao ponto de perceber como olhas para outras.

Madalena escutava tudo com olhos arregalados.

Essa mulher não existe, disse Sofia, calma.

Sofia, vamos? interveio Madalena. O meu pai aguarda no carro.

Sim, claro. Sofia pegou no café. Tudo de bom, Pedro.

E foram, deixando-me diante das prateleiras. Pensei: Sofia tem razão. Procuro alguém que não existe.

À noite, sentei-me na cozinha, com um chá. Pensei nela, em quem se tornou. Às vezes, perder é o único modo de valorizar o que temos.

Talvez a felicidade não seja numa mulher conveniente mas sim, na capacidade de vê-la verdadeiramente ao nosso lado.

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