Quando ele decidiu apresentar sua namorada aos pais, eles ficaram radiantes.

Quando Miguel disse aos pais que queria apresentá-los à sua namorada, eles ficaram contentes. A mãe e o pai de Miguel eram do tipo que entendiam que um dia teriam que deixar o filho partir, que ele precisava criar sua própria família. Afinal, já não era mais tão novo: daqui a pouco faria vinte e cinco anos. Era uma idade apropriada para se envolver em um relacionamento sério.

Miguel morava com os pais. Mas não porque fosse um filhinho da mamã ou por falta de dinheiro para alugar um lugar. Ele estava simplesmente a poupar para comprar o seu próprio apartamento e não queria se envolver com empréstimos bancários.

E os pais apoiavam-no. Tinham um apartamento grande, havia espaço para todos. Além disso, respeitavam a vida privada uns dos outros. Nunca exigiam saber onde Miguel estava quando chegava tarde.

E Miguel também não abusava. Não exigia que cozinhassem para ele ou que lavassem a roupa.

A vida era confortável para todos e ainda conseguiam economizar algum dinheiro.

Agora havia uma namorada. A primeira que ele decidiu apresentar aos pais.

— O que devo preparar para o jantar? — perguntou a mãe. — O que a Rita gosta?
— Mãe, não se preocupe muito. Ela cuida da figura — sorriu Miguel. — Não come nada frito, nem gorduras, e também não bebe álcool.
— Bem, isso é admirável — disse a mãe com um sorriso. — Vou preparar algo leve e dietético.

Rita agradou-lhes. Era uma rapariga inteligente e culta. Realmente, quase não comeu nada e a mãe de Miguel ficou um pouco incomodada quando Rita recusou provar a sobremesa leve que ela tinha preparado, dizendo que o açúcar era prejudicial e todos deveriam pensar sobre isso.

Rita ainda comentou que seria bom mudar o estofado do sofá.
— A casa de vocês está ótima, mas dá para ver que o gato arranhou o sofá. Não é caro, posso dar os contatos de um profissional.

Claro, não havia maldade na observação. Mas até aquele momento, a mãe de Miguel nem tinha se preocupado com isso. O sofá não estava desfeito, apenas tinha uns arranhões. Quando o gato Tico era jovem, algumas vezes tinha atacado o sofá com esse objetivo. Mas logo entendeu que não podia fazer isso. E se não olhassem com atenção, nem notavam.

No entanto, após a partida de Rita, a mãe de Miguel não conseguia deixar de olhar para o sofá. Aqueles arranhões agora a incomodavam profundamente.

No entanto, Rita foi simpática e educada no resto do tempo. Demonstrou gratidão pela hospitalidade e os pais de Miguel decidiram que não havia nada de errado no que ela disse. Ela tinha boas intenções. E a questão alimentar é uma área bem pessoal. Melhor não tentar forçar alguém a comer o que não gosta ou evita por alguma razão.

Uns meses depois, Miguel ainda estava a namorar com Rita. Ela foi a casa deles mais algumas vezes, mas sem grandes celebrações.

Então, Miguel resolveu ter uma conversa com os pais.

— Mãe, pai, quero ir morar com a Rita. Amo-a e queremos desenvolver o nosso relacionamento.

Os pais trocaram olhares. Parecia-lhes que tudo estava a avançar um pouco rápido demais. Mas, por outro lado, não era da conta deles; apenas os filhos podiam decidir o ritmo que queriam levar.

— Compreendo que possa ser desconfortável se trouxer a Rita para cá. E seria errado. Por isso, vou fazer um empréstimo para comprar um apartamento. Já tenho metade do valor, então a prestação não será alta.

— Se é o que queres… — encolheu os ombros a mãe.

— Sim, quero. Mas o apartamento que encontrei precisa de algumas obras. Podemos ficar com vocês até a obra terminar? É apenas um mês, no máximo.

— Claro, filho, podem ficar — concordou a mãe. Ela realmente não via problema nisso. E também gostavam da Rita.

Em breve, a namorada mudou-se para a casa dos pais de Miguel. Receberam-na bem e disseram-lhe para se sentir à vontade, como se estivesse em casa.

É apenas uma expressão de cortesia, dita para que a pessoa relaxe. Mas Rita interpretou-a de forma literal. E isso tornou-se um grande problema.

Alguns dias depois, quando a mãe de Miguel foi preparar o jantar, não conseguiu encontrar o óleo de cozinha.

— Rita, viste onde está o óleo? — perguntou à futura nora.

— Oh, deitei fora — piscou os olhos.

— Porquê?

— Achei que seria melhor começarmos todos a comer de forma saudável. E, para ser sincera, sinto náuseas com o cheiro de fritos.

A mãe de Miguel suspirou. Talvez ela tivesse razão, mas estavam habituados a outras rotinas. O pai de Miguel adorava as almôndegas que a mãe preparava. E todos em casa gostavam de batatas fritas.

— Rita, peço desculpa, mas estamos habituados a fritos. Eu não te peço para comeres o que faço, mas também não nos forces a mudar os nossos gostos.

— Desculpe, não era a minha intenção — disse Rita com os olhos no chão. — Apenas me preocupo com a saúde.

A mãe de Miguel sentiu-se incomodada.

— Isso é louvável. Mas somos como somos. Não nos tentes mudar.

— Está bem, percebi.

Claro, a mãe de Miguel comprou um novo óleo, mas agora, toda vez que preparava algo frito, sentia-se culpada. Como se a tivessem forçado a sentir remorso.

Mas isso era apenas o começo. Num dia, a mãe de Miguel chegou do trabalho e descobriu que as suas cortinas preferidas tinham desaparecido das janelas da sala. No lugar delas, havia algo fino e de cor cinza.

— Onde estão as cortinas? — perguntou à Rita.

— Ah, já estavam ultrapassadas. Coloquei as minhas, podemos deixá-las aqui. Fica mais arejado na sala, não acha?

A mãe de Miguel suspirou pesadamente. Não, não estava mais arejado, mas sim cinza e monótono.

— Rita, eu gostava das antigas. O que fizeste com elas? Espero que não as tenhas jogado fora.

— Não — respondeu a jovem, desanimada — mas achei que gostariam mais dessas.

— Não é do meu agrado — disse calmamente a futura sogra. — Leva-as contigo.

Logo, notaram que faltavam peças da louça no armário. A mãe de Miguel já sabia bem quem estava por trás disso.

— Estavam um pouco velhas; vamos oferecer um conjunto novo para vocês, para receberem melhor as visitas. Ah, e eu chamei um estofador para refazer o sofá. Escolhi o tecido segundo meu gosto, sou bastante boa nisso.

A mãe de Miguel estava a ponto de explodir. Mas evitou discutir com a futura nora. Compreendia que ela não tinha más intenções. Talvez fosse ingênua, talvez fingisse ser.

— Rita, escuta — disse a mãe de Miguel, trazendo-a para o sofá. — Sei que queres contribuir para nosso lar, mas tu e o Miguel logo terão seu próprio espaço. Esta é a casa que divido com o meu marido. Não gostaria que alterassem nada sem meu consentimento.

— Tinha as melhores intenções — respondeu Rita.

— Eu sei. Mas não faça mais nada sem nos consultar. E cancele o estofador.

Rita ficou magoada. Mais tarde, desabafou com Miguel que o seu esforço não tinha sido valorizado. Ela só queria ajudar.

Mas Miguel não lhe deu razão.

— Rita, esta é a vida deles e o lar deles. Não gostarias que mudassem algo em tua casa sem a tua permissão.

— Se fosse para melhor, eu não me importaria — replicou ela sem se dar por vencida.

— Melhor é algo subjetivo. O que é bom para ti, pode não ser para os meus pais.

Rita resmungou, mas evitou mais discussões.

A mãe de Miguel, inesperadamente, contou os dias para quando Miguel terminasse a reforma. Sempre pensara que se daria bem com qualquer um. Nunca foi conflituosa, achava que problemas não surgiriam. Não imaginava que os dilemas viriam de onde menos esperava. E, embora a futura nora não tivesse más intenções, estava exausta dela.

Rita, por sua vez, parou de alterar as coisas. Mas parecia querer, de alguma forma, ajudar, e decidiu fazer uma limpeza a fundo. “Para compensar a estadia” — dizia ela. Aparentemente, não havia nada de errado com isso, mas mesmo aí Rita deu um passo em falso.

Cada metro quadrado limpo vinha acompanhado de um comentário.

— Hoje limpei debaixo da banheira. Já parece que nunca limparam ali? Acho que esquecem esse cantinho. Não se preocupem, já está limpo.

— Obrigada, Rita — respondia a mãe de Miguel, suspirando.

— Passei o dia a arrumar a dispensa. Não se importam que deite fora algumas coisas? Havia tanta tralha, não me surpreenderia se fosse da infância do Miguel.

— Não tem problema, Rita…

— Quase que não consegui puxar o sofá. Tanta bola de pelo de gato! Assim dá alergias. Quando formos embora, não se esqueçam de limpar lá. É prejudicial respirar tudo isso.

— Muito bem, Rita…

A mãe assentia a tudo, ansiosa pelo dia em que eles se mudassem. A certa altura, desistiu de tentar explicar a Rita. Ela realmente não percebia o que podia ser dito e o que devia ser guardado. Como se costuma dizer, “a simplicidade é pior que o roubo”.

Quando o filho e a nora saíram, a mãe de Miguel desejou sinceramente fazer uma festa.

Antes de partir, Rita aproximou-se da mãe de Miguel e abraçou-a.

— Obrigada pela hospitalidade. Gostei muito de ficar com vocês.

— E eu gostei da tua companhia, Rita — sorriu a futura sogra.

Fecharam a porta atrás dos jovens, e a mãe de Miguel olhou para o marido.

— Ela é uma boa garota — riu ela. — Apenas muito jovem ainda.

— A vida vai ensinar-lhe as suas regras — sorriu o pai de Miguel. — E, para ser sincero, ela limpou muito bem a casa.

— Verdade. Mas agora temos de comprar louça nova e outro chapéu para ti. Porque a Rita decidiu que deitar fora o teu era a melhor opção, achando que era apenas lixo velho.

— Sempre disse que era hora de mudar de estilo — riu o pai de Miguel.

Na verdade, a relação entre a nora e a sogra desenvolveu-se bem no futuro. Mas nunca mais viveram juntas. E a mãe de Miguel sabia que, acontecesse o que acontecesse, não repetiria essa experiência. A harmonia é mais importante.

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Quando ele decidiu apresentar sua namorada aos pais, eles ficaram radiantes.