Quando contou ao namorado que estava grávida, Ana viu tudo no rosto do Paulo. Ficou claro que ele não esperava um bebé e dificilmente queria casar-se tão cedo…

Ao contar ao namorado que esperava um filho, Mariana viu tudo refletido no rosto de Rui. Era evidente que ele não previa a chegada de uma criança tão cedo, nem parecia querer casar-se já com aquela pressa inesperada

Mariana apaixonou-se antes mesmo de fazer dezoito anos. Rui, o rapaz da aldeia alentejana, já lhe fazia bater o coração há algum tempo, e naquela primavera tinham passado tardes inteiras a vaguear pelos sobreiros e montados, a rir junto ao açude, encantados com o pôr do sol escorrendo nos campos dourados.

Mariana planeava mudar-se para Lisboa para estudar num instituto politécnico. Mas, certa manhã com cheiro a café, percebeu, como num relâmpago, que estava grávida. Não sabia para onde fugir.

Que irá dizer a mãe, a irmã, a vizinhança? sussurrava a si própria, como se falasse à noite, ao silêncio.

Sentiu o mundo desabar. Decidiu firmemente: não iria ter esse filho. Contou tudo à mãe, chorando no velho autocarro para Lisboa. A mãe não tentou detê-la Mariana cresceu apenas rodeada pela irmã mais nova e pela mãe, que a custo conseguia pôr comida na mesa; agora a filha mais velha trazia-lhe mais este presente

Na cidade, tudo correu numa estranha névoa. Depois do vazio, Mariana cortou relações definitivamente com Rui. Ele, por sua vez, não insistiu. Um sabor amargo colou-se à sua alma uma solidão que a consumia. O estudo ficou esquecido: já não podia contar com a mãe, que ainda lhe guardava rancor.

Precisava de arranjar trabalho e um sítio para ficar; regressar à aldeia não era opção: toda a gente murmurava por trás das portas. Quis o destino no torpor do sonho que parasse diante de um painel de anúncios na Praça de Espanha. Uma folha manuscrita: Procura-se ama para menino de três anos; regime interno. Era o que precisava, pensou, como num rasgo de luz.

Mariana foi recebida numa família de professores: o pequeno Rodrigo, filho único e já esperado, afeiçoou-se a ela de imediato. Sempre que Mariana ia visitar a mãe ou a irmã ao Alentejo, Rodrigo perguntava sem cessar por ela, como se nela morasse já uma casa.

Os anos desfilaram como procissão antiga. Mariana tornou-se uma presença tranquila naquele lar. O professor Manuel Henriques e a senhora Teresa Leonor davam aulas na Universidade de Lisboa. Pouco a pouco, Mariana foi-se tornando a alma da casa: lavava, passava a ferro, enchia tudo de ordem, fazia contas de somar com o Rodrigo, fazia as compras no mercado da Estrela, cozinhava arroz de polvo e bolos de laranja.

Quando Rodrigo cresceu e já não precisou de ama, Mariana continuou a cuidar da casa. O ordenado era modesto, pago em euros, contando com comida e teto mas era suficiente; acima de tudo, ganhara acolhimento, serenidade e um bem-querer genuíno.

Contudo, havia uma tristeza oculta. Meses antes, conhecera o Igor no prédio ao lado. As conversas ao final da tarde, cheias do cheiro do Tejo, depressa se tornaram algo mais profundo. Aproximaram-se, e já passavam três anos juntos mas a Mariana não podia ter filhos

Não ocultou de Igor: um segredo é demasiado pesado no rumor dos sonhos. E outra vez foi deixada para trás. Mais uma vez o coração ressequido de tristeza, e mais uma vez sozinha.

A casa tornou-se abrigo. Cuidava de Teresa Leonor e de Manuel Henriques como se fossem da sua família de sangue; afinal, já fazia parte de tudo, era um dos pilares secretos da casa. Para Mariana, já não valia a pena sonhar com casamento: aceitara que o tempo corria sem voltar atrás.

Os anos correram serenos como um rio lento. Rodrigo formou-se em Letras, falava inglês com sotaque quase perfeito. Recebera boas propostas de trabalho e escolheu ir para fora, trabalhar em Londres.

Mas a doença apanhou Teresa Leonor de surpresa. Mariana passou a apanhar flores e ervas do jardim e a cuidar dela durante vários anos, enquanto Manuel Henriques trabalhava noite e dia para sustentar a casa e enviar dinheiro para o filho.

Tudo terminou demasiado depressa. Nos suspiros finais, Teresa murmurou a Mariana:

Não abandones o Manuel, filha não o deixes só.

Quando Teresa partiu, abateu-se sobre o apartamento um silêncio cinzento. Manuel passou a comer calado, olhando fixamente para o prato da sopa alentejana.

Mariana sentia-se mais estrangeira do que nunca entre aquelas paredes. Percebia que era tempo de mudar: arranjar outro emprego, mesmo sabendo que não tinha profissão; ou talvez regressar à aldeia, onde também escasseava o trabalho

Numa noite de outono, após o jantar em silêncio, Mariana preparou-se e ficou diante de Manuel Henriques:

Vou-me embora, Sr. Manuel. Já não faço falta. Está na altura de partir. Obrigada por tudo.

Parece que Manuel acordou nesse instante, como se saísse de um nevoeiro. Olhou para Mariana com espanto:

Como? Vais abandonar-me? Assim, tão de repente? Queres mesmo deixar-me só?

Mariana suspirou. Manuel levantou-se, aproximou-se dela, pegou-lhe na mão e, pela primeira vez, beijou-a.

Ouve, Mariana. Sabes que tu nunca foste só trabalhadora nesta casa. És da família. E eu não quero ficar sem ti entendes?

Ela acenou. Tocou-a no fundo.

Além disso continuou Manuel a Teresa pediu-me que cuidasse de ti, porque ao fim de tantos anos aprendemos a precisar uns dos outros. Fica connosco, Mariana. Cuida de mim, que eu cuido de ti.

Choraram juntos, abraçados à janela da cozinha. E, depois, ambos sentiram o peito mais leve.

Vieram dias calmos, de rotinas e constância. Mariana esperava Manuel ao fim da tarde, o apartamento cheirava a alecrim e limpo. Às vezes, Rodrigo ligava de Inglaterra, prometendo visitá-los

Assim passaram um, dois anos de paz. Na véspera de um aniversário de Mariana, Manuel sentou-se com ela à mesa para lhe dizer que ela era tudo para ele e que desejava casar oficialmente para poder cuidar dela, garantir-lhe estabilidade, pois, sendo mais jovem, haveria de trazer-lhe sossego nos anos finais.

Mariana agradeceu-lhe, mas, com coração prudente, preferiu esperar pelo aval de Rodrigo. Quando o filho chegou, Manuel tornou ao assunto. Rodrigo aprovou Mariana era, para ele, quase uma mãe. Ele agora estava bem estabelecido lá fora, casado, com vida feita.

E assim, Mariana tornou-se finalmente esposa. Amavam-se ela e Manuel com uma ternura igual à de tantos outros casais.

Chamava-lhe sempre respeitosamente Sr. Manuel, e ele a ela, carinhosamente, Marianinha. Nunca fora Mariana tão feliz.

Rezava pela saúde do marido, pedindo todos os dias que o tempo lhe fosse leve. Quem os visse, mão dada, no Jardim da Estrela, nunca imaginaria que quase toda a vida os moldara um ao outro, e que entre eles havia sentimentos profundos e verdadeiros.

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Quando contou ao namorado que estava grávida, Ana viu tudo no rosto do Paulo. Ficou claro que ele não esperava um bebé e dificilmente queria casar-se tão cedo…