Enfiada num lar
Olha bem para mim, Lúcia, nem tentes! resmungou Dona Eugénia, empurrando com força o prato de papas de aveia. Queres pôr-me num lar?! Num lar?! Julgas que sou assim descartável?
Pra ficarem lá a picar-me com agulhas e a tapar-me a cara à almofada para eu não me queixar?
Esquece, filha!
Lúcia inspirou fundo, evitando olhar para as mãos trémulas da avó.
Avó, mas qual lar?! Aquilo é um lar particular, com pinhal ao lado, e têm enfermeiras sempre presentes.
Vais ter companhia, televisão das grandes.
Aqui ficas sozinha todo o dia, o pai anda no trabalho
Companhia, pois. Já nos conhecemos desses filmes rosnou Eugénia enquanto se ajeitava nas almofadas. Ficam-me com o dinheiro, vendem-me a casa, e ainda me vão empurrar para a valeta.
Diz ao teu pai: só sai daqui de pés para a frente. Se quer saber o que é cuidar, que cuide ele. Não foi isso que fiz quando tinha sarampo? Agora é a vez dele.
O pai anda a matar-se em dois empregos para pôr comida na mesa e comprar teus remédios! Tem cinquenta e três anos, a tensão dispara, há três anos que não tira férias, não mete nem uma ida ao cinema!
Está bem, coitadinho cortou Eugénia, comprimindo os lábios. Ainda é novo, aguenta bem.
E tu nem me rales, galinha não ensina pato a nadar. Vai limpar a papa. Isto parece uma pocilga!
Lúcia saiu para o corredor e soltou um suspiro daqueles que atiram o stress para a atmosfera. Como é que se fala assim com uma pessoa?
O pai chegou às sete da tarde, de rosto cansado. Nem tirou logo os sapatos, sentou-se no puff do hall e ficou ali a olhar para o nada.
Então, pai? Lúcia veio logo, tirando-lhe o saco das compras.
Vai-se andando, Lúcia. No armazém está tudo de pernas para o ar, inventário a chegar E a avó?
O mesmo do costume. Escândalo por causa do lar, diz que queremos despachá-la.
Pai, nisto assim não dá. Estive a ver os extratos e sobra-nos três euros para comida depois de pagarmos tudo.
E ainda tenho de pagar o quarto na residência e comprar livros.
Desenrascamo-nos António ergueu-se com esforço, descalçou-se. Arranjei mais um bico. Vou fazer piquetes à noite, dia sim dia não.
Ó pai, estás doido? E vais dormir quando? Ainda cais para o lado!
António encolheu os ombros e foi à cozinha encher o fervedor.
A avó comeu?
Atirou meia papa para cima do colchão. Já troquei os lençóis.
Pronto. Vai estudar. Tens exames a chegar. Eu trato da tua avó, dou-lhe banho e tudo.
Lúcia viu o pai, ligeiramente coxeando, encaminhar-se para o quarto de Dona Eugénia.
Deu-lhe pena. O pai, que fora sempre forte e gozador, agora ia-se apagando. Os risos sumiram-se, e já mal havia vontade de viver naquela casa.
***
Uma semana depois, tudo piorou. António chegou tarde e mal se aguentava.
Pai, o que tens?
Nada, filha. Só andei tonto no metro. Está um braseiro lá dentro.
Senta-te, já te meço a tensão.
O aparelho acusou 180/110. Lúcia foi buscar rapidamente os comprimidos.
Amanhã não vais a lado nenhum. Chama o médico.
Impossível, amanhã há fiscalização. Se falto, cortam-me o subsídio. E a câmara aumentou o IMI da casa da mãe.
Vende-a, pai! Lúcia sussurrou, não fosse a avó ouvir. Vende o T1 nos arredores. Dava para tudo quinhentos mil euros! Pagávamos dívidas, contratávamos uma cuidadora.
O pai suspirou:
Tua avó não quer
Pai, ela já lá não mete os pés há cinco anos. Faz-lhe falta?
Nem teve tempo de responder: ouviu-se logo um baque do outro lado da parede.
Era Dona Eugénia a bater com a caneca no criado-mudo a exigir atenção.
António! Com quem andas tu a cochichar? Outra vez às minhas costas?! ribombou a voz dela.
António suspirou, tomou o comprimido dado pela filha e foi.
***
Há uns seis anos, o pai teve uma companheira. Maria Emília era calma, amável, levava bolos, e até planeavam uns dias juntos num turismo rural no Douro.
Acabou mal Dona Eugénia ficou acamada. Maria Emília tentou ajudar, mas a avó infernizou-lhe tanto a vida que a senhora não aguentou.
Olha para ela, a querer tudo mastigadinho! Veio à caça ao meu filho! berrava Eugénia, simulando ataques de coração sempre que António queria sair com a amiga. Rua!
Maria Emília foi-se, e o pai nem se deu ao trabalho de trazê-la de volta.
Uma noite, Lúcia preparava-se para exames quando o telefone de casa tocou. O pai ainda não tinha chegado.
Estou?
António Martins? perguntou uma voz masculina.
Não, é a filha. Passa-se alguma coisa?
Olhe, é dos recursos humanos. O seu pai desmaiou na reunião, já foi para o hospital. Tome nota do endereço.
Lúcia rabiscou à pressa no caderno de apontamentos. Mal pousou o telefone, Dona Eugénia começou a chamar.
Lúcia! Quem era? Onde anda o António? Que me traga chá, quero beber!
Lúcia entrou no quarto. A avó, soterrada em almofadas, torcia o nariz.
O pai está no hospital, respondeu, concisa.
No hospital?! Vê-se bem, só me querem matar de preocupação! Gritou comigo ontem, agora Deus castiga-o. Ninguém me poupa aqui! Quem é que me há de alimentar?! Vá, põe a água ao lume!
Lúcia saiu em silêncio.
***
Três dias de correria entre o hospital e a casa.
O diagnóstico do pai: crise hipertensiva com exaustão nervosa. Proibido levantar-se sequer.
Lúcia, e a mãe? foi logo a pergunta dele quando Lúcia entrou.
Está tudo bem, pai. A vizinha vai lá ajudando. Olha para ti, agora. Não te mexas durante pelo menos duas semanas.
Duas semanas?! Perco o emprego O dinheiro
Dorme, Lúcia ajeitou-lhe a manta. Eu trato das coisas, prometo.
Ao quarto dia, ao regressar a casa, a avó recebeu-a num ataque de lamúrias.
Onde é que tu andavas? Isto está uma imundície, António na boa vida e eu aqui a apodrecer!
Lúcia cerrou os punhos, esforçando-se para soar serena.
Ouça bem, avó. O pai está mal, pode apanhar um AVC se continuar assim.
Não digas disparates! Ele é rijo que nem um carvalho, toma lá, vira-me de lado.
Não. Não a viro nem vou dar-lhe comida.
Eugénia arregalou os olhos.
O que é isso?! Ficaste doida, rapariga!?
Não tenho dinheiro. Nada. O pai não trabalha, não há prémio, e a tua reforma nem chega para as tuas fraldas e medicamentos.
Mentes! O António deve ter alguma escondida!
Já foi tudo nos exames do mês passado. Por isso, ou assinamos já os papéis para vender a casa, ou amanhã chamo a Segurança Social e vão buscar-te para um lar público. De graça.
Tu não te atreves! guinchou Eugénia. Sou tua avó! A matriarca!
Matriarca de quê? Estás a afundar o teu próprio filho. Não queres saber se ele morre no hospital. Só te importa o cobertor quente e a sopa à frente.
Liguei ao lar que sugeri. Têm vaga. O dinheiro da venda da casa paga o melhor quarto. Vais ser tratada como uma duquesa.
Não ponho lá os pés! tossiu Eugénia.
Então passa fome. Não há dinheiro para ti. Amanhã vou trabalhar, volto tarde. Tens água na mesinha. Pensa bem.
Lúcia saiu e fechou a porta. Tremia por dentro. Nunca foi dura, mas via que se não travasse aquilo, perdia o pai.
A avó sobrevive a todos, se a deixarem secar-nos até ao tutano.
Aquela noite foi de silêncio: ouviu gritos, choros, impropérios só entrou na manhã seguinte.
Dá-me um bocadinho de água murmurou Eugénia, vencida.
Lúcia levou-lhe o copo.
Então? Assinamos? O notário vem às doze.
Malandros sussurrou Eugénia, sem fúria já. Vocês querem tudo Vá lá. Escreve lá as tuas papeladas.
Diz ao António diz que venha visitar-me.
Ele vai, mal volte a andar. E eu também vou. Prometo.
***
Meses depois, António sentava-se num banco do jardim do lar, já mais corado e com menos olheiras. Ao lado, na cadeira de rodas, a mãe, limpinha e de xaile novo, mastigava com aplicação uma maçã.
António? Oh, António! chamou ela.
Diga, mãe?
E a Maria Emília? Já falaste com ela? Fizeram as pazes ou não?
António ficou surpreendido:
Falei. Prometeu cá vir no sábado.
Muito bem, Eugénia virou-se para a relva florida. Que venha. Aqui temos uma enfermeira, a Dona Lena, que é um cavalo, sempre a ralhar comigo.
A tua Maria Emília que veja como me tratam. E olha, António, não faças como alguns: homem que faz a mulher chorar não vale nada.
O teu pai
António sorriu e apertou-lhe a mão. Pelo caminho vinha Lúcia, a correr e a acenar:
Pai! Avó! Consegui a bolsa! E subiram-me o ordenado lá no trabalho!
António levantou-se, braços abertos. Eugénia observava, semicerrando os olhos.
Continuava convencida que fora despejada injustamente do seu próprio ninho, mas já não se queixava tanto.
Quando a ajudante veio chamar para a fisioterapia, Eugénia ergueu-se com pose:
Vamos, menina. Mas olha que eu sou frágil, se te pões a fazer força como o outro, ainda me partem uma perna
Lá seguiu cadeira e enfermeira. Lúcia abraçou o pai. Ficaram um tempo, juntos, a olhar os pinheiros altos.
Foi a primeira vez, em muito tempo, que os três estavam verdadeiramente felizes.
***
Eugénia ainda viu o bisneto Lúcia formou-se, casou com um homem bom, teve um filho.
António casou com Maria Emília. A sogra aceitou-a surpreendentemente bem tinham, enfim, uma relação vá, confiável, até calorosa. Maria Emília até esqueceu as praxes da sogra à chegada.
Eugénia foi-se tranquila, durante o sono, sem guardar mágoa nem à neta, nem ao filho.







