Prepara a mesa para o jantar

Mete a mesa

Mariana, vê se não te esqueças de fazer a tua famosa empada de carne! Adoro dizia animada ao telefone a minha sogra, Dona Conceição.

No entanto, para mim, aquela animação não podia estar mais longe. Mal terminei a chamada, sentei-me pesadamente. Daqui a poucos dias era a Páscoa e, como sempre, toda a família do meu marido, Ricardo, vinha até nossa casa.

A vossa casa tem tanto espaço, cabe cá toda a gente. Antes éramos apertados nos nossos apartamentos minúsculos. Agora finalmente temos um sítio para juntar esta família enorme! sentenciou a Dona Conceição, já lá vão mais de dois anos.

Agora, eu já estava a detestar o nosso T3, aquele mesmo pelo qual ainda vamos pagar prestações durante muitos e muitos anos. Era por causa da casa que todos faziam questão de vir, desarrumavam tudo e eu ficava sem dormir direito.

Ricardo entrou na cozinha e deu-me um beijo carinhoso na cabeça.

Já trataste de tudo com a mãe? perguntou.

Sim, mais uma vez a festa é aqui. Ricardo… não podes falar com a tua mãe?

O Ricardo franziu o sobrolho.

Mariana, já tivemos esta conversa. A minha mãe adora-te, e delira com a tua comida! Como é que lhe vou dizer para não vir cá? A mulher já está reformada, não a vais pôr na cozinha a fazer comida para tanta gente. Olha que criou quatro filhos, merece o descanso.

Todos os anos acabava por ceder aos argumentos dele. Mas, por dentro, só pensava: «E eu? Quem é que cuida de mim? Porque é que tenho de passar o dia do feriado a cozinhar e servir aquela multidão?»

Queixar-me era inútil. Eu gostava demasiado do Ricardo para arranjar problemas por isso. No dia seguinte, lá fui eu às compras. Na véspera da Páscoa, passei o dia fechado na cozinha, de volta dos tachos.

Até às tantas da noite, ali estive eu a preparar comida para uma data de gente. Todos os filhos da Dona Conceição vinham, cada um com a família. Isso dava mais de dez pessoas!

Porque é tudo sempre para mim? Não há ninguém que venha ajudar? Nem que seja outra nora? Já percebi, parece que estão todas também de descanso desabafei, enquanto amassava a massa da empada.

O Ricardo olhou para mim, surpreendido.

Sabes que nem eu, nem os meus irmãos, percebemos nada disso. As minhas cunhadas têm filhos pequenos, outras estão a trabalhar, não posso estar a pedir-lhes isso assim.

E eu?! Também trabalho nem que seja de casa. Não é menos cansativo por isso.

Vá, não te enerves abraçou-me e tentou animar-me. Logo temos a casa cheia, todos a elogiar a tua comida e vais ver que ficas logo mais bem-disposta.

Mais uma vez cedi. Quase nem dormi de tão cansado que estava. Sabia que deveria dormir que nem uma pedra, mas a cabeça não parava.

«Para que quero eu os elogios? Também gostava de aparecer de mãos a abanar, sem perder tempo, energia, nem dinheiro.»

Quando finalmente peguei no sono, o telefone começa a tocar bem cedo. Dona Conceição quis ser a primeira a felicitar o filho mais velho. E logo em seguida avisou-me:

Daqui a uma hora, estamos todos aí. Já mandei mensagem a toda a gente. Vai começando a pôr a mesa! dizia ela cheia de energia.

Eu nem forças tinha para me levantar da cama. Já me via a correr entre a sala e a cozinha, a pôr e tirar pratos, a arrumar tudo no final.

Não quero murmurei, enterrando a cara na almofada.

Mariana, ainda estás na cama? A mãe vem já a caminho! ouvindo isto da porta, o Ricardo olhava-me reprovador.

Já vou respondi de má vontade, sentando-me na beira da cama. Tens de aguentar, Mariana, tu consegues

Fui lavar a cara e repetir para mim mesma que era capaz. Consegui pôr tudo na mesa a horas.

…A mesa era um reboliço. Toda a gente a falar, a rir, a contar histórias. Dona Conceição não parava de me elogiar em alto e bom som:

A Mariana cozinha que é um espetáculo! Que mesa maravilhosa! Eu nunca teria conseguido fazer uma coisa assim. sorria-me, agarrando-me na mão.

Mal agradeceram, já eu arranjava maneira de sair dali. Ia para a varanda, só para fugir ao barulho e às perguntas sobre filhos. Eu e o Ricardo decidimos esperar um pouco mais para termos filhos, mas para os outros isso parecia irrelevante.

Mariana! ouvi a voz da sogra. Já está na hora do doce! Onde te meteste?

Logo ela surge na varanda.

Estás a fumar? olhou para mim, surpreendida.

Eu? Não, claro que não! Vim só apanhar ar, está abafado lá dentro.

Pois, pois. É que não podes estragar esse pulmão, ainda tens de me dar netos! disse entre risos, a brincar.

Forcei um sorriso. Mas ela não reparou.

Anda, vamos servir a sobremesa!

Quando voltámos à sala, a sogra sentou-se logo. Fiquei eu sozinha a arrumar pratos, pôr sobremesas, distribuir novos talheres, tudo sozinha.

O teu bolo é o melhor do mundo, voltou ela a elogiar.

Fugi de novo para a cozinha, arranjando o pretexto de lavar a louça. Só pensava como queria tanto uma máquina de lavar loiça, mas o dinheiro nunca dava para tudo.

Depois de umas horas, começavam finalmente a ir-se embora.

Ricardinho, levas-me a casa? perguntou a sogra.

Claro, mãe, vou só buscar as chaves.

Fiquei então sozinho em casa, sentei-me no sofá da sala, olhei para a bagunça: casa virada do avesso, nem sinal da limpeza da véspera.

Tenho de me mexer e tratar disto tudo senão amanhã arrependo-me ainda mais disse para mim mesmo.

Com um suspiro, lá fui por as mãos à obra. Loiça, toalhas para a lavagem, a mesa novamente no canto, limpei tudo de novo. E pensei:

Mereço uma coisa boa depois deste esforço todo

Enchi a banheira, pus uma bomba de sal e pus a música a tocar. Só então peguei finalmente no telemóvel e vejo uma mensagem do Ricardo:

«A mãe pediu-me para ficar lá. Só volto amanhã.»

Claro, como sempre.

O Ricardo sabia bem que eu ia passar horas a limpar. Mesmo assim, preferiu ficar a dormir na mãe.

Já chega. Se é assim, também não faço questão.

O mês passou e chegou outro feriado. O telefonema da sogra não tardou:

Mariana, prepara-te! Sexta-feira é o aniversário do Tiaguinho, vamos aí festejar.

Sim, a mesa está pronta, mas para cozinhar terá de ser alguém diferente. Estou enterrado em trabalho e tenho de ir ao escritório. Nem sei se consigo ir ao jantar… menti, disfarçando até um pouco de tristeza.

O quê? Como assim?…

O trabalho, Dona Conceição, não posso fazer nada.

Bem logo se vê. Que pena… suspirou ela.

Passei a noite com uma amiga. E no dia seguinte mandei o Ricardo tratar da limpeza, afinal, era o aniversário do irmão dele.

Para o aniversário da Dona Conceição, resolvi tirar uns dias e fui visitar os meus pais noutra cidade. Dei o presente antecipadamente e avisei:

Então, mas como é que vamos fazer?

O Ricardo que vos abra a porta, eu não vou estar.

E a comida?

Peçam qualquer coisa ou as outras noras que levem algo. Vocês desenrascam-se!

Nas festas seguintes, estive em casa, mas a mesa era só presunto e bolo do supermercado. Só dizia:

Não tive tempo nenhum para preparar nada. O trabalho não para. Se quiserem, encomendem algo.

Mas ninguém queria abrir os cordões à bolsa por comida. E quando chegou o Ano Novo, toda a gente percebeu que não dava para se encostar a mim. A vontade de festejar juntos sumiu.

Este fim de ano, ficámos só eu e o Ricardo, exatamente como eu queria. Funcionou. E ao erguer o copo de espumante, pensei para mim: «Fiz bem. Mereço este brinde!»O Ricardo olhou para mim durante aquele brinde solitário, um brilho diferente no olhar.

Mariana, desculpa. Sei que pus tudo em cima de ti. Acho que só agora percebi.

Sorri, sem mágoa, e toquei o meu copo no dele.

Não tens de pedir desculpa, Ricardo. Só precisavas de reparar em mim. Não quero deixar de estar com a família, mas também quero ter espaço e tempo para mim.

Ele agarrou a minha mão, apertando-a.

Vamos aprender juntos, prometo. Para o ano, a ceia de Ano Novo é minha. Ou então viajamos, só tu e eu. Chega de festas impostas.

Era só isso que eu queria ouvir há tanto tempo. Ali, naquele silêncio de casa cheia de paz, senti finalmente que a nossa família era mesmo só nossa, do jeito que eu sempre sonhei. Fechei os olhos por um instante, ouvindo o estalido da lareira e o tilintar dos nossos copos e não trocava aquele momento por nenhuma mesa cheia do mundo.

A felicidade, percebi, nunca esteve no que punha na mesa. Estava em quem se sentava comigo, de verdade. E naquele primeiro dia do ano, soube: era ali, enfim, que eu pertencia.

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