As pessoas encontraram um cavalo exausto: não tinha forças nem para se levantar
Era uma tarde quente de verão quando eu e Leonor, minha namorada, caminhávamos devagar pela charneca, entre a erva alta que quase nos chegava à cintura. Íamos de mãos dadas, sorrindo um para o outro com aquele olhar cúmplice próprio de quem está completamente apaixonado. Absorvidos um pelo outro, nem reparamos no que se escondia por entre a vegetação.
Foi Leonor que se assustou primeiro deu um salto para trás, deixando escapar um pequeno grito. Instintivamente coloquei-me à frente dela, pronto a protegê-la, sem saber do quê. Foi então que vi, deitado na erva amarelada, um cavalo.
Ou pelo menos aquilo que um dia tinha sido um cavalo. Agora parecia mais uma sombra do que fora, pele e osso, um esqueleto coberto de couro ressequido.
A pele, fendida e esticada sobre as costelas, parecia prestes a romper-se. Por todo o corpo viam-se crostas secas em redor das quais zuniam moscas teimosas.
A cena era de tal forma assustadora que senti um arrepio percorrer-me o corpo. Senti-me, ao mesmo tempo, impotente e revoltado com tanta miséria.
Coitado do animal! exclamou Leonor, comovida.
O silêncio da natureza pareceu ganhar peso de repente, como se tudo tivesse parado.
Então, quase impercetível, o corpo do cavalo estremeceu.
Senti os pelos dos braços eriçarem-se de pura adrenalina.
De imediato levantou-se entre nós um grito de pânico e fugimos em corrida pela erva, sem olhar para trás, até encontrarmos a estrada de terra batida que atravessava a aldeia. Só quando parámos, ofegantes, é que nos apercebemos de que ninguém nos perseguia.
Aos poucos, o medo foi passando e voltámos a falar sobre o que tínhamos visto.
Está vivo murmurou Leonor, incrédula.
Vivo, mas parece um fantasma respondi, sombrio.
O corpo mexeu-se, não foi imaginação.
Leonor sugeriu que deveríamos confirmar, mas não queria ver de perto. Não conseguia suportar a ideia de um animal a ser devorado por dentro. Pediu-me, quase implorando, para ir eu verificar.
Voltei à clareira. O matagal estava intacto, não havia sinais de outros animais, só o cavalo. Aproximei-me devagar. Ele virou ligeiramente a cabeça, soltou um suspiro fraco e o seu flanco subia e descia de forma lenta.
As pálpebras semicerradas deixavam apenas entrever um olho coberto por um véu avermelhado estranho.
O lábio inferior pendia, os membros e a cauda estavam imóveis. Só as orelhas tremiam de vez em quando, confundindo-se com o vento.
Nunca imaginei ver um cavalo tão fraco. Lutava pela vida, agarrado a um fio, e parecia já vencido.
Olhei em volta, tentando perceber como teria ido ali parar. O mato não estava calcado, o que dava a impressão de que ali permanecia há imenso tempo.
Voltei ao encontro da Leonor e contei-lhe tudo.
Ela, de imediato, acenou com a mão, aflita:
O que interessa como veio aqui parar? O que vamos nós fazer? Vai morrer ali e eu nem sei quem neste sítio percebe de cavalos.
Lembrou-se então que, na aldeia vizinha, o senhor Armando tinha cavalos e dava voltas a miúdos nos fins de semana. Decidimos contactá-lo.
Ligámos e, apesar do nervosismo da nossa explicação, prometeram aparecer assim que pudessem.
Pouco depois, vimos ao longe um carro a levantar pó. Ao nosso sinal de braços, estacionou um atrelado junto a nós.
Quando o casal desceu e viu o cavalo, não quiseram acreditar no que viam horror estampado nos rostos.
Tentar pô-lo de pé estava fora de questão e levantar um animal mesmo assim tão magro não seria tarefa fácil só para quatro pessoas.
Corri pedir ajuda aos vizinhos. Em minutos, um grupo de homens veio juntar-se a nós. Passámos um pano forte sob o corpo do cavalo e, muito devagar, levantámo-lo, sentindo-lhe os ossos debaixo dos dedos. Os olhos abriram-se, assustados, e uma das patas deu um último pontapé fraco.
Era impossível não se ficar emocionado com tanta fraqueza e abandono.
Devagar, colocámo-lo na carrinha e fechámos a porta do atrelado. As rodas rodaram para um destino incerto, mas com esperança.
Quando chegámos ao picadeiro do senhor Armando, já estavam à espera o veterinário e alguns ajudantes.
Tiraram o cavalo com todo o cuidado. O veterinário começou logo o exame, apalpou, tirou amostras.
Entretanto, apareceu a GNR, a quem demos relato e declaração sobre o que sucedera, e ouviram o veterinário e todos os que ajudaram. No entanto, avisaram-nos de que provavelmente nunca se descobriria o antigo dono e que se devia era pensar no animal.
Após os primeiros exames, o veterinário deu-lhe injecções, limpou as crostas e ligou-lhe uma garrafa de soro.
Ajudámo-lo a instalar-se num boxe vazio. O estado era tão crítico que nem o próprio veterinário podia garantir que conseguiria salvar o animal, mas ia tentar.
O cavalo praticamente não comia e quase não bebia. Descobriu-se que um parasita de pele, provavelmente ácaros, lhe causava comichão e feridas horríveis.
A doença era tão intensa que secou-lhe o corpo, deixando a pele gretada e tirando-lhe todo o apetite.
Além disso, tinha o terceiro olho inflamado e vermelho. O veterinário suspeitou de tumor, mas só com cirurgia se resolveria, se ganhasse força suficiente. Também tinha graves problemas dentários, e estas não podiam esperar.
Durante semanas, aquele boxe transformou-se num hospital de campanha. O veterinário visitava-o todos os dias. Com tratamento, expulsaram o parasita e as crostas amaciaram. Os dentes foram limpos e finalmente o cavalo voltou a conseguir comer.
Nos primeiros dias tinha de ser alimentado quase como um potro, à base de soro e biberão. Mas, aos poucos, foi reconquistando forças. Ainda assim, cabia aos tratadores ajudá-lo a manter a cabeça direita, para não se esforçar.
O animal parecia não perceber onde estava. No início, parecia já ter desistido da vida. Limitava-se a ficar deitado, imóvel. Mas as pessoas não desistiram. Os novos donos vinham vê-lo até de noite, acertavam o soro, vigiavam.
Com o tempo, começou a reconhecer vozes, a procurar mãos amigas com o focinho e até a sobressaltar-se quando o veterinário resmungava no exame.
Já via pouco e orientava-se sobretudo pelo toque e pelo som.
Lentamente, começou a virar o corpo sozinho, a erguer a cabeça e, passadas semanas, a sustentar-se quase sentado durante horas.
Mas permanecia sem conseguir ficar de pé. Os músculos estavam atrofiados e a lembrança de caminhar parecia-lhe distante.
O veterinário avisou-nos que só fisioterapia e paciência devolveriam forças às pernas. Era preciso ajudá-lo a levantar e a apoiar-se.
O peso começava a aumentar, à medida que a alimentação fazia efeito, e a ajuda de oito pessoas era necessária para lhe segurar o corpo e treiná-lo a andar.
Inventámos uma espécie de arnês envolto num cobertor e correias que o mantinham em pé no boxe. No pátio, precisávamos de bastante gente para o segurar.
Por sorte, muitos vizinhos e amigos se comoveram: todos os dias apareciam para ajudar nos exercícios.
Durante vários dias, guiávamos manualmente as suas patas. Mais tarde, começou a mexê-las sozinho, ainda hesitante, mas a evolução era notória.
Ele cansava-se depressa, nós também, mas ninguém desistiu.
Meses de treino mudaram tudo. Primeiro conseguiu ficar de pé, depois demorou menos tempo a caminhar.
O exercício era leve, só umas voltas no pátio, e depois regressava para descansar. Mas o cavalo já não queria ficar fechado. Cheirava o ar fresco do campo e olhava as pastagens com saudade.
Quando o veterinário achou que podia avançar para a cirurgia ao olho, preparámos tudo.
Levámos-no de novo à clínica, onde lhe foi retirada a massa inflamada. O pós-operatório foi trabalhoso, mas passou a ver melhor. Pela primeira vez, o cavalo reconhecia nitidamente quem o tratava, o próprio boxe e o campo ao redor.
Agora, tinha de levar gotas nos olhos todos os dias, e colaborava sem protestos.
Era calmo, inteligente e uma companhia herdada que passou a ser motivo de grande alegria para o Armando e família.
Recuperou tanto que pôde começar a sair com os outros dois cavalos do picadeiro. Rapidamente ganhou amizade com eles, dividia a relva cortada e acalmava as birras do poldro mais novo.
Os meses passaram e já ninguém reconhecia o saco de ossos que resgatámos. O pêlo brilhava, o corpo arredondou-se, apenas as marcas nas ancas e o andar ainda cauteloso denunciavam o passado sofrido.
Ninguém teve pressa em montá-lo. Mas um dia, vendo o movimento do selim e as pessoas a montar outros cavalos, começou a bater com o casco no chão e a bufar, ansioso.
Um dia, ao sol, levei-o até ao campo, coloquei-lhe o arreio e ele relinchou de felicidade.
O meu peso pareceu-lhe estranho, mas não se queixou nem um segundo.
Fizemos uma volta curta ao redor do campo. Vi, ali, um cavalo feliz, grato por estar vivo e rodeado de quem se importava.
Percebi, nesse dia, que até os sonhos mais feridos podem renascer com esperança, dedicação e compaixão. E aprendi que não somos verdadeiramente donos de nenhum ser somos apenas responsáveis pelo seu bem-estar, enquanto eles confiam em nós.







