«Pode pensar o que quiser sobre mim, mas não vai conseguir provar nada» — declarou ameaçadoramente a sogra, colocando a nora diante de uma escolha difícil.

A verdade às vezes dói mais do que a mentira.

Então, Maristela, escuta com atenção. Podes pensar em mim o que quiseres, mas nunca vais conseguir provar nada. Não tens testemunhas, e o Óscar acredita em mim. Se quiseres ficar na nossa família, vais ter de aceitar: vais limpar, cozinhar e calar a boca. Está claro?

Maristela casase com Óscar há alguns anos. Logo têm um filho o Diogo, que já tem seis. Ambos trabalham, esforçandose para garantir à família tudo o que precisam e não cair na escassez.

Vivem modestamente, mas em harmonia: Maristela cuida da casa, do filho, e trabalha como contadora numa pequena empresa; Óscar é engenheiro. Parece que tudo segue o rumo certo.

Mas, de repente, a mãe de Óscar a Inês recebe o diagnóstico de doença isquémica do coração, que exige tratamento constante, cuidados e muita atenção. A mulher tem de abandonar o emprego e, a partir de então, depende inteiramente do filho.

Maristela tenta apoiar a Inês da melhor forma: depois do trabalho, passa à casa dela com sacos de compras, prepara sopas e caldos. Por vezes leva o Diogo consigo, porque não tem quem o deixe à noite. Em outros dias, o próprio Óscar visita a mãe.

No início tudo parece natural. Com o tempo, a tensão vai crescendo. O dinheiro escapa mais rápido: medicamentos, consultas, alimentação especial. Óscar, sem dizer palavra, entrega parte do salário à mãe, e Maristela aceita. Mas logo ela percebe que falta dinheiro para as próprias necessidades. E Óscar parece não notar o problema.

O Diogo precisa de novos sapatos, a atividade extraescolar encarece, a máquina de lavar avariou. Tudo sai do trilho. Já há mais de cinco anos Maristela usa um casaco de inverno gasto, que precisa ser substituído. Mas, em vez disso, ouve cada vez mais do marido:

Aguenta. Agora o que importa é a mãe.

Ela cala, entendendo que a saúde tem prioridade. Contudo, por dentro, um peso crescente a aperta. Não sabe quanto tempo isso vai durar nem o que o futuro reserva.

Num dia, antes de um feriado, Maristela tem jornada reduzida. Enquanto está a trabalhar, ouve da Inês algo que a deixa em choque.

Nesse mesmo dia, Maristela recebe um bónus. Não é enorme, mas é uma quantia agradável que não esperava. Já imagina a noite: Óscar e ela a colocar o Diogo na cama, abrir uma garrafa de vinho, cortar queijo, enchidos, frutas simplesmente sentarse juntos, como antes, longe do cansaço e das tarefas intermináveis.

Com esses pensamentos, vai ao supermercado, compra legumes frescos, verduras, leite. Pensa: «Levo tudo à Inês e depois voltoa casa para preparar a nossa noite».

Tem uma chave da casa da sogra por precaução. Assim, abre a porta tranquilamente e entra. Do interior da cozinha escuta uma voz. Primeiro pensa que vem da televisão, mas, ao aproximarse, fica imóvel como se estivesse petrificada.

Inês está à janela ligeiramente aberta, com um cigarro na mão, mandando a fumaça para fora. Na outra mão segura o telemóvel.

Claro que vou continuar a fingir, diz ela, rouca, ao telefone. E o que me resta? O filho ajuda, a nora anda na ponta dos pés à minha volta. Não me recuso a nada. Obrigada, Verónica, por me fazeres o atestado.

Maristela sente tudo girar à sua frente. As palavras chegam como um golpe. Salta para trás, bate a cabeça no batente da porta, e a sacola de compras escorrega das mãos. Tomates e maçãs espalhamse pelo chão.

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«Pode pensar o que quiser sobre mim, mas não vai conseguir provar nada» — declarou ameaçadoramente a sogra, colocando a nora diante de uma escolha difícil.