Persistência Implacável: A História de Determinação e Superação de uma Mulher Adversária das Adversidades

Ana era conhecida na aldeia como uma mulher teimosa. Nunca desistia; quando estabelecia um objetivo, ia até o fim, mesmo que enfrentasse dificuldades.

— Teimosa! — gritava furiosa a vizinha Zélia, cada vez que Ana recusava vender a casa de dois andares que herdara dos pais. — Como vais cuidar de uma casa tão grande sozinha? Acabarás por vendê-la!
— Teimosa! — reclamava o pretendente rejeitado, ao ser enxotado por Ana com uma vassoura.
— Teimosa, o tempo passa e os pretendentes acabam! — diziam as vizinhas.

Ana já se acostumara a ouvir a mesma palavra repetidamente. Não que fosse fácil ter tal personalidade, mas quando o assunto era a casa ou a vida pessoal, Ana era inflexível. Desde pequena, os pais ensinaram-lhe que as coisas mais importantes eram a casa e a pureza. Por isso, mantinha uma limpeza rigorosa em casa e em vida, sem se envolver com qualquer um, e bons homens solteiros na aldeia eram escassos.

Num sábado de manhã, acordou decidida a resolver todas as pendências; queria, antes de tudo, capinar a horta e, possivelmente, dar um rumo à sua vida amorosa. Não era tarefa fácil: trinta canteiros de cenoura, beterraba, tomate, pepino e outras hortaliças que tornavam o inverno rural mais suportável. Depois de um café da manhã rápido, vestiu um leve vestido vermelho que caía bem em sua silhueta saudável e foi para a horta, murmurando um “Que grande trabalheira!” Ficou alguns momentos parada, mas logo começou a trabalhar.

Há dez anos que Ana cuidava de tudo sozinha. Tornara-se órfã no ano em que atingiu a maioridade. Vivia só, contando apenas com sua força: trabalhava na fazenda e cuidava da casa. Claro, desejava casar, mas esperava o momento certo, sempre fiel aos seus princípios.

A notícia de uma chance de mudança surgiu: o sobrinho da tia Adélia chegou à aldeia. Segundo as mulheres da fazenda, o rapaz era atraente, educado, com trinta anos e solteiro. “Parece ser boa pessoa. Adélia ficou doente e chamou-o para ajudar – e ele veio logo, mesmo não sendo tão próximo antes”, comentavam as mulheres, dando olhares significativos para Ana.

Apesar de não prestar atenção ao falatório, a conversa ficou na cabeça de Ana. Era estranho que ainda não tivesse visto António, o sobrinho de Adélia, mesmo morando em frente, do outro lado da rua. Sabendo que a horta podia ser vista da rua, Ana decidiu fazer o melhor possível: com a coluna reta e a enxada nas mãos, trabalhava ao longo das fileiras de vegetais, até que o sol forte a fez rever a estratégia. Após tomar água do poço e esquecer sua intenção de impressionar, agachou-se e arrancou as ervas daninhas com as mãos, continuando até se ajoelhar na terra, imersa no trabalho. Vista a alguns metros do quintal, poderia até parecer um pequeno trator vermelho trabalhando na vegetação.

Finalmente, ao terminar, Ana saiu da horta e, ao entrar na cozinha, viu-se no espelho: o vestido vermelho estava coberto de folhas verdes e terra, e no rosto sujo sobressaía o nariz escaldado pelo sol. Porém, seus olhos, embora cansados, brilhavam como o céu azul de julho.

Quando olhou para o relógio, Ana sobressaltou-se: “Meu Deus, já são quatro e meia; a loja fechará em meia hora!”

Após lavar o rosto e se livrar do vestido sujo, cobriu-se com um pano, pegou uma toalha e concluiu uma rápida lavagem, percebendo um leve mal-estar.

“Deve ser fome”, pensou ela, vestindo um novo vestido de algodão antes de sair de casa. Mesmo com o calor diminuído, o ar ainda estava pesadão; o asfalto esquentado criava uma miragem ao longe. Ana correu até o armazém, dito “Armazém da Terra” — um comerciante que tomou conta da loja nos anos 90 tentou modernizá-la com uma placa de “Supermercado”. Os locais, no entanto, não aceitaram: quebraram janelas em protesto contra o aumento dos preços, depois incendiaram caixas no quintal, e finalmente derrubaram a placa quando perceberam que não podiam mais comprar fiado.

Ao chegar ao armazém e subir a escada, Ana viu estrelas — não como no planetário que visitou na escola, mas estrelas que pulsam, expandem e se encolhem em sua visão. Seu corpo ficou leve, flutuando entre essas luzes.

Imediatamente, um “anjo” sorridente e vestido com uma camiseta de listras apareceu por entre a névoa.

— Vens me buscar? — Ana perguntou sem abrir a boca.

O “anjo” sorriu e assentiu.

— Já morri? — indagou Ana, repetindo a pergunta clichê dos livros.

O “anjo” balançou a cabeça negativamente, mas de modo incerto.

— Posso continuar aqui por enquanto? — implorou ela num lamento interior.

— Só se te borrifar com água — respondeu ele com um grave e reconfortante tom de voz.

— Água benta? — questionou Ana, sentindo-se tranquila.

— Pode ser — e o “anjo” segurava uma garrafa de “Água do Santo” e sorria.

Isso trouxe uma estranha paz a Ana, embora ela notasse uma sombra de barba no rosto do visitante. A camiseta listrada ainda fazia algum sentido, mas a barba confundiu todas as suas ideias sobre a natureza angelical.

— Os anjos têm barba? — perguntou ela, hesitante.

— Shhh — o “anjo” se inclinou sobre ela, e Ana sentiu uma onda de conforto.

Quando sua mente se desvaneceu, vozes cercaram seus pensamentos. Elas falavam de seus antigos pecados, ressaltando seu orgulho e independentemente.

— Orgulhosa, nunca pede ajuda — dizia uma voz rouca e envelhecida. “Orgulho é um pecado”, lembrou-se Ana.

— O que sabe fazer, enfrenta sozinha — redarguia uma voz feminina, defendendo-a. “Um a um”, percebeu Ana.

— É severa, nunca deu importância a ninguém — dizia outra mulher, aprovadora.

— Mas faz uns bolos tão deliciosos — uma voz juvenil complementou.

“Que julgamento estranho”, pensava Ana, mas afastou essas questões. As vozes tornaram-se indistintas e, de repente, o “anjo” borrifou água sobre ela, revivendo-a.

Acordando do transe, Ana encontrou um jovem com a camiseta listrada e uma mochila que segurava sua cabeça levantada. Na mão, ele tinha uma garrafa de água mineral. Uma pequena multidão se reunira, todos aliviados por Ana ter despertado.

— Se não fosse meu António… obrigados a ele ou a teríamos perdido! — exclamava a tia Adélia. — Ana, querida, como trabalhas assim no sol? É perigoso. — Adélia começou a relembrar um incidente dos anos 60 com alguém chamado Joaquim durante a segada ao sol.

Ana, porém, não ouviu mais — António levantou seu corpo robusto e a carregou para onde o início da noite prometia frescor e tranquilidade. Andava com desenvoltura, segurando-a firme contra o peito, e, embora mancasse ligeiramente, Ana sentia que ele a levava, quase flutuando…

***

Celebraram o casamento na festa da Nossa Senhora da Assunção e, um ano depois, tia Adélia, recuperada das suas maleitas, andarilhava contente pela aldeia junto ao carrinho azul, ferrulhada em conversas com os vizinhos. “Os bebés hoje não vêm a conta-gotas!”, brincava ela.

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