Perdi a carteira. Quem a devolveu foi um homem cujo rosto eu conhecia das fotografias de família. Mas ninguém jamais disse quem ele era

Perdi a carteira. Devolveu-ma um homem cuja cara eu conhecia das fotografias antigas da família. Mas ninguém alguma vez dissera quem ele era.

Perdi a carteira no centro comercial. Só dei por falta dela quando cheguei a casa uma busca frenética na mala, no bolso do casaco, no carro. Nada. Cartões, documentos, dinheiro tudo desaparecido. Fui à polícia, bloqueei o cartão, furiosa comigo mesma, um nervoso miudinho a tremer, como num despertar do sono.

Dois dias depois, ouço o intercomunicador. Dona Matilde Duarte?, perguntou uma voz masculina. Acho que tenho algo que lhe pertence. Encontrei a sua carteira. Posso subir?

Desci as escadas, o coração a bater estranho no peito. À porta estava um homem já idoso, talvez setenta anos. Bem arranjado, cabelo branco, sobretudo azul-escuro. Na mão, a minha carteira, perfeita.

Estava num banco à entrada do Fórum do Colombo, disse ele. Alguém deve tê-la deixado cair.

Agradeci, convidei-o para um chá.

Recusou. Mas antes de se virar, olhou-me com atenção e perguntou:
Como se chama? É mesmo Matilde?
Surpreendida, confirmei com a cabeça.
Sorriu de maneira triste. Desconfiava. Tem os olhos iguais aos da Filomena.

Fiquei gelada por dentro. A minha mãe chamava-se Filomena.

Desculpe, conhece a minha mãe? perguntei.
O homem recuou um passo. Não devia Mas não pensei que a lembrasse tanto. Perdão. E já se afastava, mas consegui dizer:
Espere um pouco. Conheço a sua cara desde miúda. Está numa fotografia velha, na gaveta da minha mãe. Ela só dizia que era alguém de outros tempos. Nunca contou quem era realmente.

Parou. Suspirou.
Fui muito próximo da tua mãe, disse baixo. Demasiado próximo.

Convidei-o a entrar.

Sentámo-nos na cozinha. O chá ficou arrefecido.
A tua mãe foi minha noiva. Muito tempo atrás. Em 1972 íamos casar. Mas algo se atravessou.
Fiquei sem fala.
O meu pai não aceitava o noivado. A família pressionava. Fui fraco. Fugi para França, deixei a tua mãe sozinha. Quando regressei, já estava com outro homem. Não quis saber de mim. Só muito depois soube que estava grávida. Mas nunca ninguém confirmou se a criança era minha.

Olhou para mim e o silêncio encheu o ar.
E depois, que fez?
Fui uma vez a casa dela. Vi-vos de longe. Tinhas uns três anos. Eras igual à tua mãe. Mas fugi outra vez. Faltou-me coragem. Durante anos segui-vos de longe. Cheguei a ver-te no cemitério. Sei que soa estranho. Mas nunca quis destruir a tua vida.

Não sabia o que dizer.
Então está a dizer que pode ser meu pai?
Acenou. Não quero nada de ti. Só queria saber se és feliz.

Conversámos por horas. Sobre escolhas, desencontros, e como um pequeno medo pode torcer uma vida inteira. Quando saiu, deixou-me um número de telefone. E um envelope. Lá dentro, uma fotografia antiga da minha mãe abraçada a ele, ambos jovens, muito apaixonados. Atrás, alguém escreveu: Para sempre B. 1971.

Semanas depois, fiz um teste de ADN. Confirmou era mesmo minha filha.

Só contei ao meu marido. O pai que me criou já partiu há anos, e a minha mãe levou o segredo consigo para o outro lado. Mas agora, sei mais do que sabia. E aprendi que o amor, mesmo calado, deixa sempre rasto. Às vezes, esquece-se numa gaveta. Outras, brilha no olhar de um estranho que te devolve muitos anos depois a carteira e o passado.

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Perdi a carteira. Quem a devolveu foi um homem cujo rosto eu conhecia das fotografias de família. Mas ninguém jamais disse quem ele era