Perder uma Pessoa Querida

Perder uma pessoa

Diário de Leonor

Leonor, vou-me embora disse o Henrique, depois de pigarrear, com uma voz estranha, vazia, como se nem fosse dele.

Vais à garagem? murmurei em tom automático, quase sem olhar para ele.

Não. Leonor, vou mesmo embora de casa. Para outra mulher…

Deixei cair a batata meio descascada das mãos. Ela saltitou animada até se esconder debaixo da mesa. Fiquei, por breves segundos, a observar a fuga da batata, enquanto tentava engolir o que tinha acabado de ouvir. Depois, virei-me de repente, fitando o Henrique com olhar fixo. Finalmente, o significado das suas palavras caiu-me em cheio. Por fora eu podia parecer calma, fria como uma rocha entre ondas, mas por dentro senti uma avalanche. Os meus sentimentos, tudo à minha volta, desabaram. Enterraram-se ali mesmo: o amor, a alegria, os pequenos sonhos que nunca saíram do papel

E quem é ela? perguntei, com todo o autocontrolo que consegui reunir, para não gritar ou mandar-lhe com a tábua das batatas.

Não a conheces, Leonor. Mas ela é… ela é diferente… Está tudo certo connosco, sabes? Entendemo-nos apenas com um olhar, partilhamos tanto, mesmo tanto dizia ele, quase encantado. Eu, porém, imaginava-me a espetar-lhe o descascador, apreciando a dor dele como se me desse algum alívio.

Olha, talvez tenhas mesmo encontrado a tua felicidade. Parabéns, Henrique saiu-me seco, enquanto lavava os dedos e o descascador debaixo da torneira. Não preciso de detalhes. És livre. Vai, não te convido para jantar. Suponho que já te estejam à espera…

O Henrique fungou, um som que me pareceu misto de alívio e emoção, e foi para o quarto começar a fazer as malas. Eu, para não cair no chão, agarrei-me à borda do lava-loiça, espreitando os meus próprios dedos brancos de tensão. Só queria duas coisas: não cair e que ele se fosse embora depressa…

Pronto, Leonor, vou então, está bem? murmurou à porta, com um ar quase assustado. Voltei-me para ele. Tinha a expressão tranquila, serena. Via-se que ele estava surpreso com a minha calma; provavelmente estaria à espera de lágrimas ou recriminações, mas encontrou apenas indiferença. Deu um pequeno suspiro e saiu da cozinha.

Esperei ouvir a porta da rua fechar e, sem forças, deixei-me cair no chão da cozinha. Mordi o punho para não gritar e chorei como uma alma perdida, um animal ferido que já não tem salvação. Só passadas três horas, inchada e rouca de tanto chorar, consegui arrastar-me até à cama sem sequer me despir. O meu mundo tinha-se desfeito

Acordei a meio da noite, dourada pela tristeza e pelas saudades. Vieram-me à memória os dias em que conheci o Henrique. Eu era uma rapariga inexperiente, tinha acabado de chegar a uma vila do interior, colocada lá pelo concurso público. No primeiro fim de semana, fui ao baile do centro recreativo com as amigas. E foi logo aí, nessa noite, que o vi. Ele estava com uns amigos, faziam parte do grupo que organizava os bailes.

Alto, sempre sorridente, com um ar de segurança de quem já sabia o que queria, o Henrique destacava-se entre todos. Quando o vi, fiquei paralisada. Só conseguia pensar: É este, perdi-me. Ele olhou para mim com um sorriso maroto, um certo ar distante. Também fiquei logo nos olhos dele. Nessa noite, acompanhou-me a casa e dali em diante nunca mais nos largámos.

Namorávamos todos os dias. Ao fim de três meses, demos entrada dos papéis na Conservatória. No verão seguinte fizemos uma festa de casamento cheia de juventude e alegria. Primeiro vivemos num pequeno T1 arrendado. Quando nasceu a nossa primeira filha, a Câmara atribuiu-nos um T2. Só nós sabíamos quão felizes éramos: amávamos-nos com sinceridade, entendendo-nos em tudo, bastava um olhar. E nunca, nunca discutíamos. Acho mesmo que encaixávamos como duas peças de puzzle, como o Yin e o Yang.

Faz precisamente trinta e seis anos de casamento esta semana. E o mais terrível… é pensar que provavelmente não chegaremos aos trinta e sete. Só a ideia fez-me voltar a chorar, baixinho, como se velasse um luto.

O dia seguinte foi cinzento, igual ao meu estado de espírito. Mas tinha de me levantar, a casa e a quinta também não se tratam sozinhas. Forcei-me a beber um chá com açúcar (à portuga, claro), mas não consegui comer mais nada. Fui trabalhar: limpei a casa, dei de comer às galinhas, soltei a cabra no cercado, lavei os pratos que ficaram da noite anterior. Fiz tudo com fúria, para não pensar, para evitar parar e olhar para o buraco deixado. Restava contar a notícia aos filhos: o Vasco e a Matilde. Consegui reunir coragem só à hora de almoço.

Mãe, mas ele ficou doido? Outra mulher, como assim? Isto só pode ser brincadeira, mãe! Queres que eu vá já para aí? dizia a Matilde, aflita.

Não venham, Matilde. Estás quase a ter o bebé, não precisas de chatices. Eu dou conta do recado. No fim de contas, não morreu ninguém.

O Vasco, por seu lado, reagiu com raiva: praguejou tanto que tive de o repreender. Disse-lhe: Chega, filho, não insultes o teu pai. A vida tem destas coisas. No fim, combinámos que viria cá ao fim de semana.

Depois de lhes contar tudo, senti algum alívio. Mas ao passar pelo espelho do corredor, vi-me e parei. Uma mulher inchada, de roupão, sem maquilhagem, olhos vermelhos e lábios gretados. É claro que ele procurou alguém mais nova, pensei. Olha para mim: gorda, descuidada, sem manicure nem penteado. Deve ter encontrado uma daquelas todas jeitosas. Eu? Esqueci-me de mim faz anos. Primeiro vieram os filhos, depois o marido, depois os netos. A seguir a quinta e as galinhas Suspirei, imaginando a tal novinha com o Henrique.

Puxando memórias do último ano, percebi que tudo já estava a descarrilar: a gestação difícil da Matilde, o nascimento do neto do Vasco, a lufa-lufa das tarefas. Focava-me nos outros, deixava o Henrique sozinho ao jantar ele chegava a casa e era só. Passava fins de semana isolado, enquanto eu me desdobrava com os netos. Terá encontrado tempo para conhecer outra pessoa, alguém que lhe desse atenção. Não vi, ou não quis ver, esse afastamento.

Os dias foram avançando. Custava muito, mas fui aliviando. Pedi aos filhos para não se virarem contra o pai. Ele gosta deles, nunca deixou de os amar, e ama os netos também. Não merecem levar com os nossos problemas. Eles resmungaram, mas aceitaram. Ao fim de meio ano, já andava mais calma. Afinal, não havia tempo para tristezas: casa, filhos, netos, a quinta toda sob a minha responsabilidade. Até arranjei um part-time na Junta, assim continuava ativa. Perdi peso, mudei o cabelo, fiquei com outra cara. Aos poucos, voltei a sorrir e percebi que a vida continua.

Até que, passados uns meses, recebo uma chamada de um número desconhecido. Oiço uma voz que, apesar de esquecida, me estremeceu por dentro.

Leonor, meu amor Perdoa-me, deixa-me voltar. Não aguento sem ti. Os primeiros dois meses foram como se vivesse num nevoeiro, mas depois Mal fecho os olhos só vejo a tua cara. Deixas-me voltar?

Não te deixo, Henrique. Vai ter com a tua novinha. Tu e ela têm tanto em comum. Eu cá estou bem sem ti. e desliguei o telefone.

A partir daí passou a ligar-me quase todas as noites, pedindo desculpa, jurando amor, tentando convencer-me com ternura.

Leonor, nós já não somos novos. Para quê esta teimosia? Perdi-me, mas ainda te amo. Amo a nossa família, o Vasco, a Matilde, os netos. Quero estar com vocês.

E quem te impede, Henrique? Ama os filhos e os netos. Eles não te rejeitam. Mas sem mim já não vai dar. Tal como um prato partido nunca volta a ser novo, assim é a nossa relação. respondia eu com firmeza.

No início, os filhos estavam do meu lado, mas pouco depois começaram a advogar por ele.

Mãe, vê-se bem que está arrependido. Perdoa-o. Toda a gente erra, diz a Matilde.

Sim, mãe, isso acontece a qualquer um. Ainda se vê que gostas dele. dizia o Vasco.

Não, meus filhos. Depois de tudo, não consigo. Nunca mais. Ia sempre lembrar-me da traição. Não peçam mais.

Continuei com a minha rotina: trabalho, tarefas, filhos, netos. Tudo sem Henrique.

Quanto ao Henrique, com quem tinha muito em comum, desfez essa relação passados uns tempos. Foi morar para casa da mãe, já velhinha. Morria de saudades minhas lembrava-se muito da nossa vida juntos e arrependeu-se até ao fundo da alma. Mas sabia que algumas coisas não se podem corrigir. Teria de viver com isso.

Até que um dia destes resolveu que ia pedir-me perdão de frente. Vestiu-se o melhor que pôde e pôs-se a caminho. Bateu à porta da nossa casa; estava vazia. Eu tinha saído para o turno da noite, ia trabalhar. Esperou na varanda, sentou-se no banco velho e acabou por adormecer ali, como há muito não dormia, embalado pelo cheiro de casa e pelo cansaço.

Voltei ao romper do dia. Ao chegar, vi o Henrique e parecia que nem respirava, tão branco ao luar. Toquei-lhe devagar; nada. Bati-lhe no ombro, mexi nele, nada. Comecei a chorar, deitada sobre ele, sentindo todo o desespero.

Ai, meu querido Henrique… E agora, como é que eu vou viver sem ti? soluçava.

De repente, ele pega-me nos ombros e começa a encher-me de beijos.

Então amas-me! Eu também te amo, Leonor, minha mulher. Perdoa-me, por tudo! caiu de joelhos, escondendo o rosto nas mãos.

Mas que susto, homem! Que figurinha! Julguei que tinhas morrido e vieste para casa só para morrer aqui! Andaste anos feito gato vadio, e agora isto! comecei a ralhar entre choros e risos.

Desde esse dia, a nossa vida mudou. Eu e o Henrique fizemos as pazes, recomeçámos do zero e acho que nos amámos ainda mais de verdade, de corpo e alma. Compreendemos o que é perder uma pessoa: aquela pessoa, a que é nossa, a mais próxima de todas. Descobrimos também o valor do perdão, porque a teimosia raramente faz bem. Às vezes, mesmo que alguém nos faça sofrer, há um espacinho no coração para o perdoar. Mais importante: há que valorizar o que temos, não o que se perde. E assim, esta história tem final feliz.

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