Graciano caminhava pelas ruas enfeitadas para o Natal. Olhava nas vitrines decoradas. Ele nunca tinha experimentado um Natal assim. Quase vinte anos de casamento jogados fora.
Habilidoso e inteligente, Graciano casou-se com Beatriz aos 19 anos. Nunca se arrependeu, jamais reclamou da vida. Beatriz, trabalho, estudos, a filha Helena, amigos. Ganhava bem, podia mimar suas meninas.
Helena sempre foi encantada com papel e tintas desde criança. Sua brincadeira se transformou em belas pinturas, e ela foi estudar em uma escola de arte.
Apesar de poder ficar em casa, Beatriz trabalhava para “manter o ritmo e não desanimar em casa”. De fato, talvez essa fosse a razão para ela estar sempre em boa forma, sabendo de tudo – uma colega adorava literatura, e Beatriz tentava acompanhar; outra era fã de esportes, e Beatriz a acompanhava nas atividades físicas. Todos estavam satisfeitos com a vida.
Há cerca de quatro anos, Graciano conseguiu um emprego em uma grande empresa, trabalhando com máquinas e equipamentos complexos. Recentemente, um dos sócios decidiu seguir tendências modernas na gestão de pessoal. Inicialmente, vieram coaches e psicólogos para ensinar a viver corretamente. A empresa até publicou um livro com os principais conceitos de uma vida bem-sucedida. Graciano precisou fazer uma prova sobre isso para ganhar o bônus anual. Nunca tinha ficado tão cansado, nem em um ano de trabalho.
A próxima etapa foi uma viagem de team building com as famílias. Basicamente, o grupo deveria se unir para melhorar os resultados da empresa. Cada um entendeu de uma forma, e até o meio do primeiro dia, apenas seis pessoas ainda conseguiam participar das atividades: Graciano, Beatriz, o diretor e mais três funcionários.
O diretor ficou bastante desapontado com a atitude dos funcionários. Graciano sentia pena dele – uma boa pessoa, respeitava a equipe, mas não tinha sorte na vida pessoal. Diziam que sua esposa o deixou antes de ele se tornar sócio e diretor. Graciano pediu a Beatriz que participasse com ele de todas as atividades planejadas. Beatriz cuidou do diretor com chá, correu, atravessou uma ponte estreita sobre um buraco e até pulou em saco – tudo para apoiá-lo.
Nos feriados de novembro, Beatriz informou a Graciano que tinha se apaixonado pelo diretor e que queriam casar e ter um filho. Graciano pensou em confrontar, mas percebeu que isso não resolveria nada e deixou a esposa ir. Os amigos o convidaram para passar o Ano Novo com eles, mas ele não estava no clima.
Graciano parou na faixa de pedestres e, enquanto esperava o sinal verde, olhou ao redor. Em um poste, havia um anúncio: “Procuro companhia para o Ano Novo”. Seguia um número de telefone e o nome “Sofia”. Sem saber por que, Graciano anotou o número e ligou. Do outro lado, respondeu uma voz feminina.
– Boa tarde. Posso falar com a Sofia? Eu vi o anúncio sobre o Ano Novo.
– Onde você viu isso? Coloquei alguns, mas depois achei que era bobagem e retirei quase todos.
– Estava na passagem da avenida.
– Ah, aquele eu esqueci. Desculpe.
– Que tal nos encontrarmos na praça central? Eu sempre passei a virada em casa. Se houver oportunidade, vamos aproveitar.
– Eu também estava pensando em ir para lá.
No dia 31 de dezembro, às 11 da noite, Graciano estava no local combinado com um saco de tangerinas e doces. Trazia chá quente no termo. Ao lado, uma mulher simpática, um pouco mais jovem, também segurava um saco com um termo à mostra. “Talvez seja algum tipo de engano? Por que uma mulher assim precisaria encontrar alguém para o Ano Novo? Mesmo assim, o que ela poderia fazer? Que tolice, por que liguei? Agora não posso voltar atrás”, pensou Graciano e se aproximou dela.
– Você é a Sofia?
– Sim.
– Vamos dar uma volta. Ou quem sabe um café?
– Preparei frango e sanduíches. Podemos passar no café e depois ir à praça.
Mas todos os cafés estavam lotados ou fechados. Graciano e Sofia se aventuraram por uma viela e se depararam com um grupo discutindo perto de um restaurante.
– Que tal esse jovem casal?! – exclamou um homem e dirigiu-se a Graciano. – Jovem, quer passar o Ano Novo com sua acompanhante no restaurante?
– Aqui o pessoal começou a festa de manhã e foi dormir. Disseram que sempre sonharam em comemorar na cama, com bolo. O banquete está pronto e precisamos de mais pessoas. Estamos procurando quem ocupe os lugares.
– Vamos tentar?! – sugeriu Sofia. – Sempre quis passar em um restaurante. Acabei de receber um bônus, vamos curtir.
– Sim, vamos. Depois voltamos à praça.
Conseguiram voltar para a praça mais tarde, quase às quatro. A festa no restaurante estava tão animada, que ninguém queria sair. Graciano dançou com Sofia, depois com a filha de alguém, a mãe de outro, e até arriscou uma dança tradicional com o mesmo homem que os tinha convidado.
– Esta é a noite de Ano Novo mais divertida da minha vida – disse Sofia. – Normalmente mal consigo ficar até duas da manhã. Agora quase amanhece e não estou nem um pouco cansada.
– Eu também não quero dormir. Vamos comer as tangerinas e os doces, como planejamos. E o que faz amanhã, ou hoje mesmo? Vamos ao ringue de gelo ou esquiar.
– Vamos ao gelo. Faz tempo que não patino.
No ringue, Graciano finalmente ouviu porque Sofia procurava companhia para o Ano Novo.
– Às vezes, quando não esperamos nada, tudo acontece. Me separei de meu marido. Ele é um bom homem, mas vivia na expectativa de um futuro rico. Eu vivo o presente. Primeiro, ele esperava uma grande oportunidade em nossa cidade, depois me convenceu a nos mudarmos. Cidade grande, mais oportunidades. E ele só esperava no sofá. Cinco anos depois, decidiu se mudar para o sul. Mas estou bem aqui, tenho um bom emprego. Então nos separamos. Não quis passar com amigos – todos me olham com pena e dizem que exagerei. Afinal, um homem que não bebe, não fuma e é pacífico não se encontra fácil. Por isso escrevi o anúncio. Depois me arrependi e os removi.
– Eu me divorcei porque minha esposa se apaixonou por outro. Vamos esquiar no parque amanhã?
Um ano depois, às 11 da noite, um carro parou perto da praça. Graciano ajudou Sofia a sair.
– Vamos entrar no café, como no ano passado? Nos convidaram – Sofia ajeitou o chapéu, e o anel no dedo brilhou sob a luz dos postes.
– Está abafado e cheio de fumaça ali. Você está grávida de seis meses. Vamos cumprir o plano – Ano Novo na praça central e depois para casa. Precisa descansar. Mas… Vamos entrar por meia hora… E depois para a praça…






