Papéis de Rebuçado

És um verdadeiro papelucho, ó Zézinho! Merecias era um bom puxão de orelhas, mas já não é tempo disso, nem há quem te faça frente! Estás crescido e continuas sempre na mesma, cabeça vazia!

A dona Simona cuspiu para o chão, mesmo ali ao lado do vizinho, e, coxeando por causa da perna ruim, lá seguiu caminho. Já tinha dito o que tinha a dizer, agora que fosse a consciência dele a explicar-lhe como é que se deve viver. Não houve quem lhe desse juízo até agora; talvez o destino se encarregue disso

Ora vejam lá: pôr a própria mãe num lar de idosos! Onde é que já se viu isto? Sim, a Cláudia agora está de cama, mas ele, que é filho dela, deveria cuidar, não a despachar! Só de pensar já lhe dava voltas ao estômago. Se ainda estivesse com saúde, nem ponderava – levava logo a amiga para sua casa. Mas assim…

E dá pena da Mariana. Boa rapariga, sempre pronta a ajudar, mas sozinha também não pode carregar tudo às costas. Já ficou na aldeia, não foi estudar para Lisboa quando a mãe adoeceu. Na verdade, chegou a ir, mas voltou pouco depois. Não conseguiu deixar mãe e avó sós. Só mesmo ajudando, porque a Simona já mal se aguentava. Tratar de si já era difícil desde que partiu a perna há dois anos. Agora, muito pior.

A filha mais nova tinha proposto trazê-la para o apartamento deles na cidade, mas Simona recusou. Como, se mal têm espaço para eles todos? O genro é bom homem, mas não sabe dar a volta à vida. Têm dois miúdos pequeninos, é uma luta constante. E ela, a Simona, já não é ajuda nenhuma. Já não há galinhas, nem horta; dantes ajudava em tudo, agora nada, só um peso morto… A Mariana irrita-se quando a avó fala assim, mas a verdade até dói. A saúde perdeu-se, a força também, e só para sair da cama de manhã já parecia que tinha de se recompor toda, como quem junta as brasas espalhadas no borralho. Passo a passo, lá vai

Ainda bem que Mariana é desenrascada e ágil como um cabrito novo. Quando Simona acaba de se levantar, já a neta tratou da casa, da mãe, e saiu para o trabalho. Sempre apressada, sempre pronta. Sempre foi assim desde pequena.

Simona teve a filha mais velha, mãe da Mariana, já tarde. Já nem contava ser mãe.

O primeiro marido nunca perdoou o facto de não terem tido filhos logo de início. Acabou por ir-se embora. Simona chorou um pouco, mas não muito. Bem lhe parecia que ele nunca a amara realmente; ela era fogo, ele era cinza.

Na juventude, Simona era linda, cheia de vida. A mais bonita da terra. Todos os rapazes andavam atrás dela, mas ela nunca se deixou levar, à espera do tal grande amor. E ele teimava em não aparecer. O tempo passou, e a mãe sempre a martelar:

Vais acabar sozinha, Simona! Porque é que não escolhes logo alguém?

E como havia de explicar que não conseguia gostar de quem não sentisse?

Até que um rapaz regressou da tropa à aldeia vizinha. Simona quase nem o conhecia – os pais dele viviam noutro lado, mas regressou aos avós. A razão nunca se soube, e ela também não lhe perguntou.

Bastou vê-lo uma vez: o Alexandre ficou-lhe no coração. E pouco tempo depois, ele mandou os pais falarem com ela para o pedido de casamento. A mãe da Simona ficou radiante. Mais valia aceitar logo, ela já passara da idade, diziam.

O casamento foi grande e animado. Ela nem notou os cochichos pelas mesas; só depois percebeu, quando a sogra se aproximou, tomando-a pela mão, para lhe mostrar uma mulher de lenço preto junto de um carrinho de bebé. O coração falhou-lhe. Já percebia tudo.

Alexandre depois contou, claro: deixara uma noiva antes da tropa, mas não lhe dera crédito quando ela disse que estava grávida dele. Famílias a dizerem que as contas não batiam certo… Passado algum tempo, a mãe do Alexandre, pressionada pelas vizinhas, foi conhecer o neto. Lá estava o miúdo, igualzinho ao pai.

A ex-namorada recusou ficar com o Alexandre, não o perdoou. Nem sequer soube que a mãe e o filho tinham ido àquela boda, disfarçados de visita à “tia”.

Mas para quê? Simona perguntou, de olhos na mulher cansada. Para saberes com quem te casaste.

De pouco valeu esse conhecimento, Simona amava o marido. O que havia antes dela era passado. Os santos não andam por aqui e todos temos direito ao erro, não?

Nunca proibiu Alexandre de visitar o filho, mas ele nunca mostrou vontade. Percebeu cedo que ele era daqueles que só sabia gostar verdadeiramente de si próprio os outros eram molduras.

Ele era bom trabalhador, a casa nunca faltava nada. Mas faltava alegria, faltava alma. Não havia calor, só silêncios.

Simona ainda acreditou, durante os mais de quinze anos juntos, que a felicidade viria com os filhos. Mas nunca aconteceu. Um dia, assim de passagem, ele disse-lhe que ela nem mulher era, só um tronco inútil, porque não conseguia engravidar. Nesse instante, Simona percebeu que a vida com ele não levava a lado nenhum; só passava o tempo, nada mudava.

Separaram-se depressa. Alexandre saiu quase de imediato, deixou-lhe a casa, pediu desculpa pela última vez:

Não guardes rancor. A culpa é dos dois, mas eu devia ter sido o responsável.

Simona nunca chegou a perdoá-lo de verdade, mas sentiu-se mais leve. Tanta beleza que Deus lhe tinha dado, mas esperou em vão pela felicidade.

Viveu dois anos sozinha, sempre cabeça erguida pela aldeia, sem ligar a más-línguas. Mas o coração doía. Queria abrir a porta e encontrar alguém com voz quente.

Demorou a confiar em Nicolau. Vinha de fora, ninguém o conhecia. Viveu sozinho a arranjar a casa dos avós e a cuidar da horta, sempre a ajudar quem precisava, mas raramente pedia ajuda. Era homem sereno, educado.

Começou a cortejá-la e Simona quase já se tinha esquecido de como era sentir esse carinho. Alexandre só lhe oferecera flores uma vez. Nicolau, mesmo sem grandes gestos, nunca ia de mãos vazias fosse o que fosse, sempre com boa disposição e jeito para arranjar as coisas. Simona convenceu-se: pior do que já fora não ficaria e o pior era a solidão a gritar-lhe todos os dias.

Não esperava nada do novo casamento, mas de repente a vida deu-lhe a volta e os milagres aconteceram.

Na primeira gravidez, Simona só suspeitou lá para os cinco meses. Tantos problemas de saúde, nunca nada regular, e a barriga crescia devagar.

Foi a Cláudia, vizinha, quem reparou primeiro.

Simona, tu estás com um ar estranho, o que se passa?

Eu? Não, olha que não…

A minha avó dizia que nem sempre a culpa é das mulheres. Olha que podes ter uma surpresa!

Simona foi à cidade e voltou outra. Brilhava como o sol de verão. Duas filhas depois, Simona já não baixava os olhos por vergonha. Era mãe, finalmente.

Criou as filhas com tanto cuidado e orgulho que quem passava por elas elogiava a sua graça e boas maneiras sempre de laço no cabelo, asseadas, mas cheias de arrojo para subir a árvores, saltar poças e nadar no rio. Jamais uma palmada; ensinava antes a resolver, a coser meia ou a esfregar roupa.

Perdeu Nicolau quando a filha mais nova casou-se em Lisboa. Fora lá ver a filha e nunca mais voltou, vítima de acidente. Simona quase se apaga de desgosto, mas a chegada da neta Mariana reavivou-lhe a vida.

Vivia agora com a neta. Da filha mais nova só notícias em férias e festas, longe na cidade. Mas Mariana era o seu espelho: bonita, forte, teimosa. Quando metia algo na cabeça, ninguém a demovia.

O orgulho tornou-se preocupação quando Mariana se apaixonou doidamente pelo vizinho Zé. Ele tinha mais cinco anos, já crescido, e Mariana só fazia dezasseis. Não a entendia, era só uma miúda, ainda ele já tinha outros interesses.

Zé perdeu a cabeça por uma outra rapariga, Lucinda, vistosa e bem vestida, filha de gente abastada. O pai dava-lhe tudo, e ela mandava em toda a aldeia. Não dava grande confiança a Zé, até que aconteceu um episódio estranho.

Lucinda tinha um namorado da aldeia vizinha, também bem de vida. Certo dia, os dois desapareceram de mota e ela só voltou de madrugada, toda arranhada e com o vestido rasgado. Só Simona a viu chegar, porque estava na horta cedo.

Ninguém mais soube. Uma semana depois, a aldeia só falava no casamento apressado de Lucinda, com Zé. Zé ficou nas nuvens, Cláudia não gostou:

Há aqui gato escondido Mas ele não me vai ouvir. Só me dói ver o meu filho assim, apaixonado por quem não o merece.

Simona ouvia tudo em silêncio, mas em casa também havia drama: Mariana chorava dias seguidos, sem falar, olhando o pátio do vizinho, que andava numa azáfama de festas e preparativos. Nada a fazia esquecer, nem a promessa de estudar noutra terra.

No dia do casamento, Mariana foi, seca de lágrimas, sem se juntar à festa. Saiu mais cedo e foi arrumar as malas; despediu-se, abraçou mãe e avó e partiu para o Porto, onde a tia vivia. As duas choraram e rezaram para que a dor passasse e o tempo a curasse.

Poderia ter dado certo se a mãe de Mariana não tivesse adoecido gravemente. Teve que regressar, tratar da casa, da avó Simona agora sozinha e da mãe acamada. Medo só de voltar a cruzar-se com Zé e Lucinda, mas eles tinham sumido depois do casamento.

Mariana tratava dos campos, dos animais, arranjou emprego na cooperativa, ia-se aguentando. Não era mulher de fugir ao trabalho.

Do lado de Cláudia, também não foram tempos fáceis: viúva, filho longe, cartas raras, só alguns euros enviados de vez em quando. Soube que Lucinda teve dois filhos rapaz e rapariga mas Cláudia nunca conheceu os netos. Diziam que Lucinda não queria voltar à aldeia; Zé andava sempre fora, a fazer fretes de camionista, sempre cansado. As cartas eram vagas, mas Cláudia percebia nas entrelinhas o cansaço do filho.

Entre uma coisa e outra,Cláudia acabou por cair doente e Mariana tratou logo de a enviar ao hospital distrital. Visitava-a sempre, mas os médicos não davam esperanças.

Simona escreveu a Zé logo que Cláudia entrou no hospital. Nunca respondeu, nem apareceu. Mandou outra carta, depois desabafou com Mariana:

Deve ter esquecido da mãe. Pobre papelucho E eu que sempre pensei que era homem de palavra!

Oh, avó, espera… Sempre disseste que não devemos julgar sem certezas. Ele é que há de prestar contas à consciência dele.

Não consigo acreditar, filha! Sempre tão carinhoso com a mãe Onde foi parar esse miúdo?

Porque lhe chamam papelucho?

Ah, foi uma história antiga Ele era pequeno e os miúdos dessa altura colecionavam papéis de embrulho de rebuçados, coisa rara, só nos aniversários. Era uma relíquia! Pois Cláudia tinha duas galinhas brancas, coisa fina, e o amigo do Zé apareceu com um cão. O cão, traquinas, matou as duas galinhas! Cláudia chorou dias, mas não disse nada ao filho. Então sabes o que o Zé fez?

O quê, avó?

Trocou toda a coleção de papeluchos, e até as moedas do mealheiro, por outra galinha igual, que trouxe à mãe. Não por vaidade, mas por amor à mãe. E agora, vê lá tu…

Que filho é esse que esquece a mãe doente? Onde foi parar a ternura?

Mas Simona ficou sem palavras quando, uma semana depois de Cláudia voltar a casa, tudo mudou. Mariana já sabia cuidar das duas doentes; tratava da mãe, depois corria visitar Cláudia.

Zé chegou de surpresa. Mariana lavava o soalho em casa de Cláudia quando um miúdo entrou porta adentro, sujando tudo e parou-lhe à frente:

És a minha mãe?

A pergunta, tão inocente e certeira, deixou Mariana sem saber o que dizer.

É vizinha Zé cumprimentou-a, segurando pela mão uma miúda pequena, igual a ele. Desculpa só vir agora. O meu filho esteve no hospital, não lhe podia faltar nem sabia onde deixar a Milena.

E a Lucinda? escapou-se a Mariana, logo arrependida por se meter na vida dele.

Não há mais Lucinda. Foi-se embora com outro. Fiquei sozinho.

Sozinho como? E os filhos? A Mariana achou coragem para lhe olhar nos olhos; já não era a menina de antigamente.

Pois é, tens razão. Pensei em tudo, e eles ficam. Não os levo mais de um lado para outro. O médico vai ficar de olho na minha mãe e eu vou a casa resolver tudo e buscar as nossas coisas.

Naquele momento, Mariana mostrou de que fibra era feita. Aproximou-se do Zé, fitou-o firme:

Os teus filhos ficam aqui. Eu cuido deles. E espero por ti. Compreendeste?

Compreendi respondeu ele, com um olhar como se a visse pela primeira vez. Como é que eu nunca reparei?

Tráz uns óculos da cidade, não vá ver tudo turvo outra vez disparou Mariana, pegando ao colo a rapariga, que se lhe agarrou às pernas. Vamos lá a casa da avó Simona, cheira-me a bolinhos no forno. Gostam de bolinhos?

Vários anos depois, Zé abre a porta do pátio, põe Cláudia sentada numa cadeira de baloiço e, depois, a sogra também.

Vá, minhas senhoras! Olhem só para estes bancos que trouxe da cidade! Sentadinhas ao ar livre, cheias de conforto!

Ouve-se, ao fundo, o choro dos gémeos:

A Mariana ainda não chegou?

Hoje tem o último exame, disse que queria ficar entre os cinco primeiros para voltar cedo. Por isso, está quase a chegar…

Um carro trava no portão, as crianças, que estavam a apanhar cerejas para fazer doce com a avó Simona, largam tudo e gritam:

Mamã! A mamã chegou!

E Mariana, já mulher feita, estende os braços, agarra as crianças e pisca o olho ao marido:

Cinco!

Quem diria? Zé sorri, entrando em casa.

Os gémeos são dos que não sabem esperar muito, a impaciência saía ao pai.

Papeluços, como sempre!

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