Com apenas quatro anos, Mafalda ficou órfã. As recordações da mãe evaporaram-se num acidente trágico causado pela distração de um vizinho ao volante. O pai dedicou-se, corpo e alma, a criar Mafalda, mas a vida não lhe foi nada meiga: desgaste, rugas precoces e uma barriguinha de tanto pão com manteiga. Apesar dos esforços do pai, Mafalda quase nunca o visitava. Depois de casargrande festa com bacalhau e fado, clarodedicou-se à sua própria vida e raramente aparecia. Trabalhava tanto que transferiu para o marido a responsabilidade de enviar uns trocos ao pai. Mas o marido, que achava que generosidade também era com g, não aceitava gastar euros com alguém sem préstimo.
O pai, sem saber das aflições da filha, manteve a esperança de receber carinho na velhice. Em vez disso, um vizinho, sempre metido em conversas alheias, sugeriu-lhe de ir ao tribunal pedir pensão alimentícia. O reencontro foi digno de novela dramática portuguesa. Mafalda, de lágrima ao canto do olho, desatou:
Ó pai, estavas mesmo com saudades minhas ao ponto de me arrastares a tribunal?
Mafalda, nem para pão tive dinheiro nestes últimos dois dias. Tinha esperança que cumprisses a tua palavra. Se calhar, eduquei-te mal…, suspiro triste do pai.
Sabes bem que ando sempre a trabalhar. O meu marido enviou-te dinheiro e ainda te comprou comida. Não uses chantagem emocional, por favor, retorquiu Mafalda, com o marido a fazer-lhe segunda voz, qual dueto no fado triste.
A discussão aqueceu até o pai decidir largar a bomba. Olhou para Mafalda, lágrimas na cara:
Tenho uma revelação importante para ti.
Mafalda, suspensa, escutou enquanto o pai narrava uma tarde em que a mãe ainda era viva. Naquele dia, a mãe encontrou nos arredores um caixote com uma menina dentrosim, tão dramático como parece. A pequenita estava ao lado dos contentores do lixo, e a mãe decidiu criá-la como filha própria. Essa menina era Mafalda. A emoção tomou conta, Mafalda pediu perdão ao pai, e ele, de coração mole, desistiu da ação em tribunal.
Mais tarde, descobriu que o marido nunca tinha posto os pés em casa do sogro e que os euros destinados ao pai tinham ido pelo cano abaixo, gastos sabe Deus onde. Consumida pelo arrependimento, Mafalda largou o marido e foi viver com o pai. Juntos, encontraram felicidade e paz, provando que famílias portuguesas, no fundo, vivem à mesacom pão e muita conversa fiada.







