Os familiares do interior vieram passar uma semana – cinco pessoas – no nosso T1, e recebi-os cheia de pintas verdes pelo corpo, parecia catapora

Os parentes do interior decidiram, de surpresa, passar uma semaninha no nosso T1 aqui em Lisboa, chegando em cinco. Recebi-os toda pintada de verde, simulando varicela.

O meu sábado começou logo com o toque estridente do telemóvel, ainda antes do café. No visor, lia-se: Tia Manuela.

Ó Tomás, prepara-te! e a voz dela, enérgica e festiva, mais eficaz que qualquer despertador. Estamos a caminho, amanhã cedo batemos aí à porta! Pensámos em surpreender-vos: vir conhecer a capital e dar-vos um abraço. Família é família!

Fiquei sentado na cama a digerir a notícia. O que me assustou mesmo foi o estamos.

Quem é esse nós, tia Manuela? arrisquei, enquanto dava um toque com o pé à Inês debaixo dos lençóis, para a acordar depressa.

Ora, quem havia de ser! Eu, o tio António, a Marta com o marido e o pequeno Rodrigo! Nem te preocupes, somos desenrascados é só para dormir, o resto do dia vamos passear!

Cinco pessoas. Mais eu e a Inês. No nosso T1 de trinta e três metros quadrados, onde espaço livre é só o tapete da entrada e o corredor entre o sofá e a televisão.

Desliguei em silêncio e olhei para a Inês. O terror na cara dela era inequívoco, aquele olhar de quem planeava fugir do país ou ao menos ir ao pão durante uma semana.

Fui logo assaltado por memórias do último acampamento deles cá em casa, há três anos. Na altura eram só três. Bastou uma semana para nunca mais dormir como deve ser. O tio António fumava no terraço, entornando a cinza nos meus vasos: Isso é adubo, rapaz. A tia Manuela queria ensinar a Inês a fazer caldo verde, colada à bancada da nossa kitchenette: Deixa-me mostrar como se corta. Nós dormíamos num colchão insuflável que mirrava durante a noite e acordávamos quase no chão, enquanto os convidados se apoderavam com majestade do sofá.

Agora viriam cinco. A Marta e o marido, ambos barulhentos e acelerados, e o filho deles, o Rodrigo, um furacão de sete anos a quem o não soava sempre a desafio.

Não dá. Temos mesmo de lhes dizer que não! decretou a Inês, fixa no teto.

Dizer como? Já estão a caminho Mandar voltar? Conheces a tia Manuela: ia chover discurso de laços de sangue, de como me viu crescer, que nos achamos uns lisboetas mimados. Depois era a aldeia toda a comentar que não acolhi a família, e lá vinha a minha mãe com ansiolíticos de vergonha.

Na cozinha tentámos alternativas, cada uma mais irrealista que a anterior. Alugar casa? Fora de questão: depois de um arranjo no carro, mal sobra para as contas. Ceder e sair nós de casa? Rendição total, e nem amigos tínhamos dispostos a acolher-nos uma semana. E se não atendêssemos? Só faltava chamarem a polícia…

De repente, tive uma ideia brilhante. Um motivo que não desse discussão. Daqueles de fugir.

Varicela sussurrei.

Hã? estranhou a Inês.

Varicela, quarentena! Nos adultos é sério: febre alta, risco de mazelas.

Inês hesitou:

E se já tiveram?

A tia Manuela e o tio António não, lembro-me da mãe contar. A Marta é dúvida, mas não arriscam, muito menos com o miúdo.

Faltavam apenas quatro horas até à chegada deles. Fui buscar aquela bisnaga de mercúrio-cromo esquecida na gaveta.

Abusa aí nos pontos! orientei, estendendo-lhe a cara. Testa, bochechas, pescoço, mãos. Quanto mais assustador, melhor.

A Inês, a conter as gargalhadas, lá me desenhou pontos enormes e esverdeados. No espelho, parecia uma personagem de banda desenhada. Para compor o cenário, enfiei o roupão mais velho, pus um cachecol e despenteei-me todo.

E eu? perguntou ela.

Foste exposta, és contacto direto. Um foco de infeção ambulante. Mais assustador, impossível.

A história inventada ficou ensaiada: adoeci na véspera, febre a roçar os 40, vinha aí médico de família que recomendou isolamento rigoroso e alertou para uma variante perigosa do vírus.

Quando a campainha tocou, como um relógio suíço, do outro lado ouviam-se sacos a bater, vozes confusas, o Rodrigo a resmungar. Pus ar de moribundo, e a Inês abriu só um pouco a porta, barrando bem o acesso.

Ó António, então não vêm cá ao apeadeiro? o tio tentava meter o pé na entrada.

Não podem entrar! berrou a Inês. Temos um problema grave!

Lá apareci eu, a cambalear, agarrado à parede, respirando com esforço.

Bom dia… murmurei, rouco. Estou com varicela. Grave. O médico avisou: isto pega que nem fogo.

Ficaram todos estáticos no patamar. Olhares colados às manchas verdes.

Varicela? a Marta logo se encolheu, agarrando o Rodrigo. Aos trinta?!

Fraqueza do sistema imunitário… suspirei. Febre… perigo de sequelas…

Vi ali, nos olhos da tia Manuela, a luta entre ficar sem pagar hotel em Lisboa, e o risco de adoecer.

António, tiveste varicela?
Não faço ideia… acho que não… recuava já, pé ante pé.

Nem eu, mãe! Vamos para um hotel, por favor!

E tu, genro? desconfiou a tia.

Eu? Estou tramado. Dormimos juntos… é uma questão de dias.

Foi tiro e queda. A ideia de partilhar um T1 com dois doentes contagiosos deve ter sido pesadelo suficiente.

Melhoras, rapaz rosnou o tio António, a chamar o elevador. Ficamos com as compotas, que sempre dão jeito no hotel.

O elevador levou malas, frascos e, com eles, os nossos problemas.

Assim que fechei a porta, quase caí de tanto rir. Olhámo-nos, ambos estoirados. Eles arranjaram pousada depressa: dinheiro, pelos vistos, não lhes faltava a lógica era só gastar dos outros quando possível.

Dois dias depois, a minha mãe liga:
Ó Tomás, ninguém me disse nada! A tua tia Manuela jurou-me que estavas às portas da morte todo verde!
Já estou melhor, mãe disse, cheio de energia. A medicina moderna é uma maravilha!

A verdade, essa, ficou entre nós. Antes que digam que tenho mau feitio, mais vale pensarem que sou frágil de saúde.

As manchas saíram com água e sabão e o resto do fim de semana passou-se num silêncio abençoado, pizzas à mesa, a saborear cada metro livre do nosso pequeno, mas finalmente tranquilo, T1.

Aprendi que, por vezes, para proteger o nosso espaço, temos mesmo de ser criativos. E que nem tudo o que vem de verde faz mal.

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Os familiares do interior vieram passar uma semana – cinco pessoas – no nosso T1, e recebi-os cheia de pintas verdes pelo corpo, parecia catapora