9 de junho
O que foi, mãe querida? Tens a tua própria casa, não é? Pois é lá que deves ficar. Só aparece aqui se te convidarmos.
A minha mãe vive numa aldeia pequenina e sossegada, à beira do rio Mondego. Atrás do quintal dela começa um pinhal cerrado, onde em cada época apanhamos uma fartura de amoras, medronhos e cogumelos. Desde pequena, corri pelos campos verdes com o cesto na mão, embrenhada na natureza de braços abertos. Acabei por me casar com o António, meu colega da escola, cujos pais moram também por ali, mas do lado oposto da estrada. Só que, do terreno deles, não se acede nem ao rio nem ao pinhal. Por isso, sempre que vimos do Porto, ficamos na casa da minha mãe.
Nos últimos tempos, a minha mãe mudou bastante talvez por causa da idade, ou talvez por ter ciúmes do meu pai já falecido. As férias começaram a ter muitas discussões, e nada se resolvia sem levantar a voz. Até quando ficámos algumas noites na casa dos meus sogros, a mãe foi lá arranjar confusão, desta vez com o sogro, e nem sequer era nada importante. A sogra ficou tão indignada que gritou de tal forma que toda a rua ouviu. Fizeram logo saber as mágoas antigas, as duas.
Passado um mês, com a poeira assente, o António e eu pensámos que era altura de termos a nossa própria casa. Assim, ninguém se chateava, teríamos um recanto só nosso, onde pudéssemos sentir-nos verdadeiramente em casa.
Arranjar terreno foi uma dor de cabeça, mas lá conseguimos encontrar um cantinho perto dos sogros. Eles ficaram radiantes e meteram mãos à obra connosco. O sogro estava sempre no nosso futuro lar, de martelo na mão e sorriso no rosto.
Só a minha mãe é que complicava. Aparecia sem avisar, dava mil conselhos, criticava tudo o que já estava feito nunca nos deu descanso, nem ali. A construção foi uma verdadeira tormenta por causa disso.
Um ano depois, finalmente tínhamos casa pronta. Achámos que íamos respirar de alívio, mas enganámo-nos! A mãe não largava as visitas, acusava-nos de egoísmo, e ainda dizia que já não ia aceitar ajuda nossa. Não se lembrava que o António sempre lhe fazia todos os trabalhos pesados no quintal cortava a relva, arranjava o telhado quando chovia, tudo.
Certo dia, ouvi-a dizer:
E agora, para que vens cá? Fica na cidade! Se cá apareceres, estás só a mostrar o que tens.
Foi a gota de água para o António. Aproximou-se dela, sereno, mas era um sossego que até fez a mãe recuar para junto da porta:
Que vais fazer, genro?
Nada, mãe querida. Tens a tua casa, vive nela. Só apareças aqui quando te convidarmos, está bem? Merecemos um fim de semana tranquilo, só de vez em quando. Se precisares de ajuda, liga-nos. Se houver um incêndio, cá estaremos!
Incêndio?! Que conversa é essa?
Ao ouvir aquilo, a mãe quase que saiu a correr pela porta fora. Tive de morder os lábios para não rir ao vê-la lançar olhares desconfiados para trás, enquanto marchava rápida para o portão. O António, depois de acalmar-se, levantou as mãos:
Pronto, se calhar exagerei com o incêndio.
Não, disseste bem.
Rimo-nos juntos, lembrando a cara dela. Desde aí, a paz reina na nossa casa nova. A mãe já não aparece, aceita a ajuda do António quando dá jeito, mas fala só o essencial. Aposto que ainda pensa no incêndio…







