Olívia nunca cogitou convidar o Sérgio a mudar‑se para sua casa. Namorar é uma coisa, mas viver juntos é outra totalmente diferente. No sábado, Olívia esperava o Sérgio para o habitual passeio. Ao abrir a porta e abraçá‑lo, viu‑o com duas enormes malas.

Inês nunca lhe passou pela cabeça sugerir ao Sérgio que fosse morar consigo. Namorarse é uma coisa, conviverse é outra bem diferente. No sábado, Inês aguardava o Sérgio para a caminhada de sempre. Abriu a porta, fez o gesto de receber, e deu de cara com ele carregando duas malas enormes.

Sérgio, o que se passa? indagou ela, meio perplexa.

Inês, posso entrar? Já explico.

Entraram no salão. Sérgio deixou as malas no corredor e sentouse no sofá.

Sabes, a senhorita da casa onde estou a alugar decidiu vender o apartamento. Têm uma semana para eu me mudar.

E agora?

Agora não tenho onde ficar. Não dá para arranjar outro apartamento à hora e ainda não tenho dinheiro para isso.

Inês começou a perceber onde o rapaz queria chegar.

Sérgio, penso nós estamos numa relação séria. Já nos vemos há meio ano, conhecemonos bem. Será que não tentamos viver juntos?

Juntos? repetiu ela, surpresa.

Pois, a tua casa tem três quartos, há espaço de sobra. Eu ainda trabalho, então dividimos as despesas de comida e tudo mais.

Sérgio, nunca falámos sobre isso.

E por que conversar antes? A vida já nos dá as pistas.

Inês sentiuse atolada. Não estava preparada para tal reviravolta.

Preciso de um tempo para pensar.

Pensar? Mas nós gostamos um do outro.

Amar e viver sob o mesmo teto são coisas distintas.

Por que diferentes? Na nossa idade já devemos decidir.

Decidir o quê?

O futuro da relação. Se nos encontramos, deveríamos estar juntos, não?

Inês lançoulhe um olhar às malas empilhadas no corredor. Era como se o Sérgio já tivesse decidido por ela, trazendo a bagagem e impondo a situação.

E se eu disser que não?

Contra quê? Contra a felicidade?

Contra alguém que aparece com as malas sem sequer pedir licença.

Inês, não estou a fazer nada de mal. As circunstâncias simplesmenteseapresentaram.

As circunstâncias não aparecem, são criadas.

O que queres dizer?

Que devias ter falado comigo antes de trazeres a bagagem.

Sérgio ficou calado, ponderando.

Muito bem. Então falemos agora. Proponhonos viver juntos.

Recusome.

Porquê?

Porque gosto de viver sozinha. Gosto da nossa companhia, mas não de dividir o quotidiano.

Mas porquê? Combinanos bem.

Combinanos para encontros, passeios, merendas ao parque, mas não para dividir a louça e o despertador.

Qual a diferença?

O quotidiano exige hábitos, ordem, concessões. Eu não quero adaptarme. Estou bem como está.

O Sérgio pareceu abatido.

E se eu sugerir casamento formal?

Pra quê?

Para ter tudo à portuguesa, certinho, como se deve.

Casamento não muda nada. Ainda assim não quero viver contigo.

Então qual o sentido da nossa relação?

O mesmo de antes: encontramosnos, conversamos, partilhamos momentos.

E depois?

Continuamos a encontrarnos.

Mas isso não parece sério!

Por quê? Esse tipo de relação encaixame.

Eu quero estabilidade.

Que tipo de estabilidade procuras? perguntou Inês, sentandose à sua frente.

A típica, de família. Acordar ao lado da pessoa amada, planejar o futuro.

Eu não quero partilhar o pequeno-almoço todos os dias. Não quero encaixarme nos planos de ninguém.

Mas estás só!

Não, tenho as minhas filhas, as amigas, tenstu. Solidão e viver só são coisas diferentes.

Não percebo a diferença.

A diferença está em eu escolher quando e com quem socializo. Se morarmos juntos, essa escolha desaparece.

Inês, aos sessenta e poucos anos é altura de pensar em quem vai estar ao teu lado na velhice.

Penso nisso, mas não tem de ser um marido.

Quem então?

As filhas, uma cuidadora, a Segurança Social. Há opções.

Mas não são o que eu quero!

Pode não ser o que pretendes, mas funciona para mim.

Sérgio levantouse e passeou pela sala.

Então, estás a sugerir que eu continue a viver numa casa de aluguer, e a encontrarte só nos finsdesemana?

Proponho que vivas como te convém, e que nos encontremos quando ambos quisermos.

E se eu não puder arrendar outro apartamento?

Essa é a tua responsabilidade, não a minha.

Cruel, Inês.

Honesto. Não sou responsável pelos teus problemas de habitação.

Mas ainda nos vemos!

Sim, vemosnos. E isso não me obriga a resolver a tua vida.

Sérgio sentouse de novo no sofá, pensativo.

Inês, se eu encontrar um apartamento, continuamos a conversar?

Claro, se ainda quiseres.

E enquanto procuro, posso ficar contigo por uns dias?

Não.

De jeito nenhum?

De jeito nenhum.

O homem percebeu que Inês estava a levar a sério. Pegou nas malas e dirigiuse para a porta.

Parece que vou ter de procurar tanto casa quanto um novo romance.

Talvez.

Inês, não vais arrependerte?

Não.

Sérgio saiu e nunca mais a telefonou. Inês voltou à sua vida tranquila, sem marido ao lado. Aos sessenta e poucos anos, valorizava mais a paz do que um relacionamento, e a liberdade acima de qualquer companhia

E tu, o que farias nesta situação? Deixa a tua opinião nos comentários e dá um like!

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Olívia nunca cogitou convidar o Sérgio a mudar‑se para sua casa. Namorar é uma coisa, mas viver juntos é outra totalmente diferente. No sábado, Olívia esperava o Sérgio para o habitual passeio. Ao abrir a porta e abraçá‑lo, viu‑o com duas enormes malas.