Lurdes, e esses quilos a mais? Não é problema? insistia a mãe de Diogo, nunca se cansando.
Na minha opinião não tenho excesso, muito menos quando os meus futuros maridos os aprovam. Nem todos podem ser palitos de fósforo e hastezinhos. Lurdes lançou um olhar sarcástico a Olívia e à mãe de Diogo. O tom tão atrevido fez Olívia ruborizar.
Mãe! Compraste chá para perder peso? E sementes de chia? Por que puseste tanto azeite na aveia? São quilos a mais! exclamou Diogo, lembrandose das advertências da infância. Diogo, compraste novamente pão de fermento? Isso faz mal! Três copos de água de manhã, senão o peso não desce Onde está a minha água? assim lhe dizia a mãe, sempre preocupada com a silhueta.
A mãe e a irmã mais velha viviam perpetuamente a observar o próprio corpo. Olívia já tinha trinta e oito anos, nunca se casara e lembrava Diogo de um cavalo magro, curvado, com olhos famintos. A mãe, por sua vez, lembrava uma agulha de tricô, reta e inflexível.
Esse ambiente o cansava; ele sempre se aproximou de gente alegre, de apetite saudável. Sonhava que a futura esposa fosse diferente da sua mãe e da sua irmã. E encontroua.
Chamavase Lurdes. O próprio nome era suave, agradável, como um biscoito recémassado. Não era gorda, mas, com 1,73m de altura, pesava 85kg. Aqueles quilos irradiavam saúde e bom humor. Peito firme, cintura fina, curvas femininas e bochechas rosadas com covinhas que conviriam ser beliscadas. Tudo isso fez o coração de Diogo disparar ao vêla.
Numa noite, levou a irmã ao Banco de Portugal, na Baixa de Lisboa, para tratar de assuntos. Ela pegou o talão e sentouse na cadeira indicada, enquanto ele perambulava pelos salões, à espera.
De repente, ouviu um riso leve, prateado como sino. Era tímido, porém tão contagiante que Diogo sorriu involuntariamente. Sentiu uma curiosidade irresistível para descobrir a dona daquele riso e seguiu o som.
Era uma jovem operadora que atendia um cliente sénior. O senhor fez um comentário engraçado; a moça riu outra vez. Diogo não tirava os olhos dela dos cabelos ondulados, dos lábios em boca de fita. A postura dela mostrava que estava à vontade, algo que se percebia a olho nu.
Ele voltava ao carro, ouvindo a monótona conversa da irmã, mas a mente permanecia ali, naquele banco, com a menina.
Diogo, estás a prestar atenção? perguntou Olívia, irritada.
Claro, Olívia, estou a ouvir. respondeu ele, esforçado em decifrar o que a irmã dizia.
Então, eu digo ao meu pretendente que não como carne grelhada, só peito de frango cozido reclamava Olívia do seu pretendente. Diogo acenou com compaixão, balançando a língua como quem diz esse sujeito é um inútil.
No dia seguinte, já ao entardecer, voltou ao banco. O objeto do seu desejo estava lá, e Diogo suspirou aliviado. Ao fechar o estabelecimento, retirou do carro um ramo de rosas e dirigiuse à menina.
Moça, ainda procura marido ou talvez um marido para a mãe? murmurou, num tom meio travesso, e entregou-lhe as flores.
O rosto de Lurdes ficou tão confuso e engraçado que ela riu alto, aceitando as rosas.
Meu Deus Que beleza! Que perfume! baixouse sobre as flores, inalando o aroma, enquanto Diogo a admirava.
Desde então ficaram inseparáveis. Há quem diga que, ao encontrar alguém, sente que tudo está completo e não precisa mais procurar. Foi assim que Diogo e Lurdes se encontraram. Após um mês de namoro, fez-lhe a proposta; ela aceitou alegremente. Restava apenas conhecer as famílias.
Os pais de Lurdes receberam Diogo com mesa farta, pastéis de nata, risos e conversa animada. A mãe de Lurdes, uma linda senhora chamada Natividade, beijouo nas duas bochechas, deixandoo sem jeito. O pai, Joaquim, deu-lhe um tapinha amigável no ombro, como a um velho conhecido, e conduziuo à cozinha.
Fica longe das mulheres, senão vão cansarte. Mas não te preocupes, Natália Eugénia, a mãe de Lurdes, é uma mulher pacífica! É por isso que a adoro há trinta anos. E Lurdes, nossa jóia, é um diamante. Cuidaa bem, filho. disse Joaquim, fitandoo atentamente.
Sentaramse longamente à mesa, comeram tudo com voraz apetite, riram alto, relembrando histórias engraçadas. Depois, Joaquim tocou guitarra e todos cantaram em coro. Diogo sentiuse tão em casa como se já conhecesse aquela família há toda a vida.
Três dias depois, foram à casa dos pais de Diogo. No caminho, pararam numa pastelaria e Lurdes comprou éclairs artesanais para as mulheres. Chegaram ao final da tarde.
Abriu a porta a mãe de Diogo, Margarida.
Oh Olá, meus queridos exclamou, surpresa ao ver Lurdes, ficando boquiaberta, segurando a maçaneta.
Mãe, eu também te adoro. Não vamos ficar à porta e entrar logo? disse Diogo, puxandoa suavemente, e entraram.
Claro, filho. Entrem, entrem E vós sois também a Lurdes, não? Margarida se recompôs e examinou Lurdes da cabeça aos pés.
Sim, sou Lurdes! Muito prazer. estendeu Lurdes a mão a Margarida e entrou. A mãe de Diogo ficou ali, atônita, observando a jovem.
Pai, Olívia, mãe, esta é a Lurdes, minha noiva; já apresentamos a papelada e o casamento está marcado. Lurdes, esta é a minha família: irmã Olívia, mãe Natividade e pai Mário Sérgio. apresentou Diogo a sua futura esposa aos parentes.
A notícia do casamento surpreendeu a família de Diogo; ficaram em silêncio, apenas o som dos talheres se fazia ouvir.
Lurdes! Estamos muito felizes por vós e bemvindos à família. Têm alguma garrafa? Ah, isso é ótimo! E alguns quitutes, mas são para vocês, meninas. quebrou o gelo o pai, Mário Sérgio.
Não, não comemos sobremesas à noite. rebateu Natividade, afastando a caixa de doces.
Vocês não comem, nós sim! Vamos abrir a caixa, ver o que tem. Acho que Lurdes não traz nada ruim. Certo, Lurdes? brincou o pai, rindo.
Todos acomodaramse, a tensão diminuiu. Sobre a mesa havia chocolate, petiscos leves e uma garrafa de espumante. Abriram a garrafa, brindaram, beberam um gole e, novamente, a quietude recaiu.
Mãe, conheci os pais da Lurdes. São pessoas excelentes. Vão gostar deles. disse Diogo, apenas para dizer algo. Lurdes observava o copo, enquanto Olívia fitava-a. O pai contou uma piada, todos riram e a atmosfera relaxou.
Lurdes, não se preocupe, tenho um excelente especialista que a ajudará a resolver o seu problema. disse a mãe de repente.
Problema? Eu não tenho problema. respondeu Lurdes, surpresa.
Ora então, Lurdes, e esses quilos a mais? Não é incômodo? insistiu a mãe de Diogo, que já não desistia.
Na minha opinião não tenho excesso; além do mais, agradam ao meu futuro marido. Nem todos podem ser palitos de fósforo e hastezinhos. Lurdes olhou Olívia e a mãe de Diogo com sarcasmo, fazendo Olívia corar.
Lurdes, são vinte quilos a mais! Faz mal à saúde. Quando tiveres filhos, nem imagino o que acontecerá
Quando eu der à luz, ficarei ainda mais bonita, com o meu marido e o nosso bebê. E tu, Olívia, estás casada? Uma mulher tão esguia devia ter um belo marido e, ao menos, dois filhos retrucou Lurdes, mordendo o biscoito com prazer.
Olívia engoliu a saliva, pronta para responder, mas Mário Sérgio interveio, enchendo os copos e propondo um brinde.
Aos mulheres desta família, tão distintas, mas tão queridas!
Saíram à rua duas horas depois, olharamse, suspiraram em uníssono e riram juntos, sem conspirar.
Não esperava ouvir da futura sogra que sou cheia.
Lurdes, minha querida, tu és linda e sabes disso! Quanto à mãe e à irmã perdoaas, a vida não escolhe parentes.
O casamento fora marcado para 25 de agosto. Nesse dia, parentes e amigos reuniramse no civil, na Casa do Povo de Coimbra, para testemunhar a união dos amantes. Após a cerimónia, todos foram ao restaurante.
A noiva reluzia num vestido elegante que realçava a sua figura feminina e encantadora. O noivo não retirava os olhos dela. A mãe da noiva, Natividade, não deixava a filha em segundo plano; o vestido realçava ainda mais a silhueta. Os homens presentes não a tiravam os olhos de soslaio. Contrastava com a velha madrinha, baixa e rígida, vestida de modo desengonçado. A irmã de Diogo, Olívia, era um reflexo da mãe, apenas mais jovem.
A música começou, os recémcasados começaram a valsa. Giravam, abraçados, ao som de uma melodia mágica; a todos parecia que só existiam eles dois naquele mundo. Os convidados ficaram em silêncio admirado.
Ah a noiva poderia perder uns kilinhos. Está enorme, o vestido não ajuda murmurou a mãe de Diogo, descontenta.
Como dizem, palavra não tem volta. Natividade tentou intervir, mas já era tarde; a frase ecoou no salão.
Além disso, muitos homens não se lançam nos ossos; preferem mulheres normais, vivas. O teu filho, aliás, está entre eles. E tu, senhora, cuide das palavras, pois sou mulher, embora suave, mas nervosa. Não consigo lidar quando se trata da minha filha exclamou Natividade, braços ao lado do corpo, apertando o busto generoso, empurrandoa delicadamente contra a parede.
As duas mulheres se encaram, trocando olhares afiados. Natividade, assustada; Natividade, irritada. O tio Joaquim, rapidamente, desanuviou a situação.
Ah, meninas! Vejo que já se tornaram amigas. Mas devo roubar a minha esposa, querida Margarida! Natividade, convidote para um baile. Os jovens já dançaram, agora a nossa vez.
Ele agarrou a esposa pela cintura e giroua numa valsa. A música retumbava, rostos felizes ao redor. O casamento cantava e dançava, como nas canções populares.
Restanos torcer para que os jovens vivam, prosperem e colham o bem
Pois, no fim, isso é o que realmente importa, não é?



