Pai, como é possível?! Como pudeste fazer isto à mãe?!
Beatriz passeava pelo Jardim da Estrela com a amiga quando viu, ao longe, um homem envolvido nos braços de uma mulher. Ele sussurrava-lhe algo ao ouvido e ela sorria, radiante. Os olhos de Beatriz abriram-se de espanto, incapaz de desviar o olhar.
Beatriz, estás bem? Beatriz! perguntou Mariana, perplexa.
Não é nada. Vamos andando, respondeu a Beatriz, estranhamente apressada.
Despiram-se de um adeus, cada uma rumando ao seu destino. Mas Beatriz seguia a caminho de casa, o peito apertado, repetindo para si que aquilo não poderia ser verdade.
Pai, como pudeste? Sempre te vi como o homem perfeito para a mãe E agora tu
Mais cedo, ainda à saída da aula de piano, Beatriz lançara:
Mariana, vamos dar uma volta ao jardim?
Vamos, antes que escureça! concordou a amiga.
O jardim de Lisboa não lhes era nada em caminho, mas a vontade de fugir ao quotidiano era irresistível.
Caminharam por entre as alamedas, observando discretamente os casais de namorados, invejando-lhes a leveza e o riso fácil. Ninguém reparava nelas.
Subitamente, atravesando uma praceta mais isolada, depararam-se com um homem já entrado nos anos, de costas, e uma mulher unidos num abraço cúmplice, promessas murmuradas entre sorrisos.
Mariana nem reparou, mas Beatriz ficou petrificada, um olhar queimada de incredulidade.
Beatriz, acorda!
É só impressão minha. Vamos embora, murmurou Beatriz, acelerando o passo.
Saíram do jardim em silêncio. No regresso a casa, Beatriz seguia absorta nos pensamentos, as imagens martelando-lhe a memória: a felicidade daquela mulher junto à árvore; o pai, a sussurrar-lhe juras que sempre julgara reservadas só à mãe, indiferente ao mundo à própria filha!
Como é possível, pai? És o meu herói, sempre foste perfeito! Agora descubro que tens outra? Se não o tivesse visto com os meus próprios olhos
Chegou a casa já noite cerrada.
Anda jantar! soltou a mãe, impaciente. Nunca sabemos a que horas chegas tu ou o teu pai.
Já vou, só vou lavar as mãos, desculpou-se Beatriz, desconfortável.
Fechou-se na casa de banho, tentando compor-se. Quando regressou, o pai ainda não havia chegado. Jantou em silêncio e recolheu-se no quarto.
Sentou-se diante do portátil, mas nada lhe prendia a atenção. A imagem do parque continuava a atormentá-la.
Então é isto, na vida dos adultos, é tudo mentira e traição? O que falta ao meu pai? Será capaz de abandonar-nos por ela?… Ou talvez aquela mulher nem saiba que eu existo!
Ouviu a porta de casa:
Desculpa, querida O dia foi longo, murmurou o pai.
Antigamente só tinhas dias assim no fim do mês. Agora são todos “difíceis”, respondeu seca a mãe, e a discussão parecia prestes a começar.
Gabriela, é o trabalho, só isso!
Como sempre, passou pelo quarto da filha para lhe dar um beijo, mas Beatriz afastou-se:
Vai, senão a comida arrefece!
Filha, que se passa?
Nada do meu lado. E do teu?
O pai ficou a olhá-la, prestes a falar, mas calou-se e seguiu para a cozinha.
Nessa noite, Beatriz não saiu mais do quarto. Mentalizava-se, arquitectava planos: queria o pai de volta. Com esse pensamento adormeceu e acordou.
Ainda nesse domingo de manhã, ouviu os pais à conversa:
António, onde vais?
Tenho de ir ao escritório. É urgente.
Hoje é sábado, podias ficar connosco.
Só vou de manhã. Depois do almoço saímos os três juntos.
Beatriz saiu do quarto, forçou um bocejo:
E tu, onde vais? perguntou a mãe.
Tenho explicações, mãe. Estou atrasada.
Sempre ocupados, céus! resmungou a mãe, mas Beatriz já fechava a porta da casa de banho.
Apressadamente arrumou a mala, vigiando o pai no corredor:
Filha, levo-te até ao metro!
Bia, ao menos bebe um café! chamou a mãe. Já te preparei um.
Vai, eu espero, insistiu o pai, tentando soar afável.
Beatriz engoliu o café à pressa e saiu para o hall:
Vamos, pai.
Andaram lado a lado na Avenida de Roma, silêncio cortante. O pai foi o primeiro a falar:
Estás chateada comigo, filha?
Claro que não, pai. Se calhar são as hormonas Mas sabes que te adoro, não sabes?
E eu a ti, Beatriz!
Mais do que tudo?
O pai estremeceu, hesitante, mas respondeu firme:
Mais do que tudo, filha!
Pararam na estação.
Pronto, é aqui. Espero-te ao almoço. Disseste que passávamos o fim-de-semana juntos, não te esqueças!
Mal ele se afastou, Beatriz virou e ocultou-se entre as árvores. Seguiu o pai à distância, esperando encontrá-lo no escritório mas ele tomou outro rumo.
Foram ruas adentro, até um bairro que Beatriz não conhecia. O pai parou junto a um prédio, telefonou. Uns minutos depois, saiu uma mulher, elegante.
Que bonita, murmurou Beatriz, sentindo uma pontada no peito. Será que ele a prefere a nós?
A mulher lançou-se nos braços do pai, beijou-o. Saíram juntos, mãos dadas. Entraram num jardim sossegado, sentaram-se no banco, conversaram com seriedade. Depois trocaram um beijo longo e ficou tudo dito.
Beatriz sentia-se consumida pela mágoa.
Viu-os regressar juntos ao prédio. Um último beijo, um sorriso cúmplice, e separaram-se o pai virou costas, a mulher sumiu na escada.
Eis que, instantes depois, a mulher reaparece, carregando um saco de lixo, dirigindo-se aos contentores. Sem hesitar, Beatriz aproxima-se e bloqueia-lhe a passagem.
Olá!
Olá Precisas de alguma coisa? estranhou a mulher.
Ouve bem: se voltares a encontrar-te com o António, juro que não vais gostar.
Desculpa?! Quem és tu?
Não te fiz entender?
O que queres?
É simples. Tira o telemóvel, ordenou Beatriz.
A mulher obedeceu.
Liga-lhe. Diz-lhe para não voltar a procurarte. Eu sou a filha dele. E ele ama a minha mãe!
A mulher discou lentamente. Do outro lado atendeu o pai:
Sofia, o que se passa?
António Não devemos voltar a ver-nos.
Porquê?
Não faz sentido. Tu tens família, e eu vou sair de Lisboa depois da faculdade.
Beatriz ouviu, pela primeira vez, o pai respirar de alívio do outro lado.
Pronto, António. Não procures mais.
Como quiseres, Sofia. Adeus.
Mais tarde, já em casa, encontrou os pais à mesa, calmos.
Que cara satisfeita é essa? resmungou a mãe. Vens jantar?
Venho, mãe!
Estás tão sorridente hoje. Que se passa, filha? perguntou o pai.
Pai, gostas de mim? respondeu Beatriz com outra pergunta.
Adoro-te.
E à mãe?
O pai hesitou, mas respondeu firme:
Também amo a tua mãe.
Eu também vos adoro! repetiu Beatriz, agora aliviada.
O amor ressurgira à mesa, como se nada pudesse mais separá-los naquela Lisboa onde tudo podia começar, acabar e, por vezes, recomeçar.
