À minha sogra, preparei-lhe um presente que a vai deixar logo sem fala! Vai tremer cada vez que olhar para ele. Mas não se livra, não pode deitar fora. Vai ter de guardar e pôr bem à vista! É assim que é. O karma das lágrimas do rato também chega ao gato! Dona Benedita, minha querida sogra! Em quinze anos de casada com o Ricardo, nunca me disse uma palavra simpática. Um poço de simpatia, vê-se logo. As outras sogras ainda dizem qualquer coisinha, nem que seja entre dentes. Esta, nada. Só me fita com aqueles olhos negros! Evito ir a casa dela e, quando vou, é só uma vez por ano para despachar, cinco minutos no máximo desabafava Leonor à amiga Sílvia.
A Sílvia escutava e concordava com entusiasmo. No fundo, também não morria de amores pela própria sogra, Dona Áurea.
Tinham feito o habitual serão feminino já era tradição: de quinze em quinze dias, as três amigas de infância juntavam-se ao sábado.
A Leonor era cabeleireira e renovava sempre o visual das amigas com arte. Nesse dia, apareceu de fugida porque tinha clientes à espera. Sílvia, que era cozinheira, trazia sempre montes de petiscos, aqueles que o filho de Leonor, Tiaguinho, chamava de os melhores mimos da tia Sílvia.
A terceira amiga era a Clara, que trabalhava como enfermeira e tinha mudado há pouco para outro hospital. As amigas queriam saber para onde, mas a conversa descambou logo para o assunto sogras.
Não a suporto! Não me diz nada, não sei para quê ainda cá está… começou de novo Leonor.
E foi aí que a, até então calada, Clara se meteu há conversa, interrompendo-a:
E depois, Leonor? Achas que ficavas logo mais leve? disse com uma sobrancelha levantada e meio sorriso.
Estou capaz que sim… suspirou Leonor, calando-se de repente.
Lembrou-se da manhã daquele dia. Como tinha levado o presente, todo bonito embrulhado, com um ar de quem já se estava a rir por dentro. Entregou à sogra, Dona Benedita, que desfez o embrulho toda ansiosa, parecia uma menina a abrir presentes dos Reis! Mas Leonor avisou: só podia abrir depois dela sair. Pelo menos, assim, já tinha dado cabo da festa à mulher.
Meninas, perguntaram-me para onde fui trabalhar, não foi? disse de repente Clara.
As outras animaram-se logo.
Clínica privada? arriscou Leonor.
Vais nadar em euros agora! brincou Sílvia.
Não, estou num hospital de cuidados paliativos respondeu simplesmente Clara.
Ficou logo um silêncio estranho.
Tu… mas porquê? conseguiu perguntar Sílvia, abalada.
Aquilo é sítio de doença grave… Não custa? E o dinheiro? balbuciou Leonor.
Vocês e o “dinheiro, dinheiro”. Leonor, desculpa, mas apetece-me chamar-te uma coisa: “parva” disse Clara, num tom amargo.
Quem? Eu ou a minha sogra? bufou Leonor.
Tu, Leonor! O que fazes e dizes é uma maldade. Não conheço bem a tua sogra Benedita, mas dizes que nunca te disse nada simpático? E quando vocês precisaram de dinheiro para comprar casa maior, quem é que vendeu o apartamento no centro do Porto para ir viver para uma casa humilde nos subúrbios? A tua sogra. Sem reclamações, sem dramas. E quando o teu Tiaguinho esteve tão doente, quem o levou ao melhor médico do Hospital de Santa Maria, a um especialista que era filho de uma amiga dela de infância? E salvou o miúdo! Podia não ter corrido tão bem. Quando tu, Leonor, festejaste tanto na última reunião de turma que só acordaste em casa de um colega? Não aconteceu nada, eu sei, mas o Ricardo nunca te perdoaria se soubesse. E quem te salvou de boa? D. Benedita, que disse que tinhas dormido na casa dela!
Leonor, tu atiras pedras a quem te dá pão! E não falo só de dieta: quantas vezes comemos contigo os pickles, os doces, as compotas, o molho de tomate, tudo que ela te dá? Tu própria não distingues um manjerico de um tomateiro! É tudo ela a fazer por vós! Há pessoas assim, caladas, que mostram tudo nos gestos. Podem não ter jeito para palavras grandiosas, mas provam o amor no que fazem. Outros falam, falam, mas não dão nada!
Fixe, amiga… Eu já pensava que me davas apoio, afinal só levo nomes feios! Leonor levantou-se, visivelmente tocada.
No fundo, sentiu uma coisinha mexer-lhe na alma. Aquela vozinha, que antes vibrava de gozo com a engenhoca do “presente”, agora remexia inquieta, a estragar-lhe o sabor da vingança.
Sílvia, que enquanto discutiam devorou cinco rissóis de camarão seguidos (era o seu antídoto para o stress), também ficou calada e pela primeira vez não apoiou Leonor.
A Leonor já estava pronta para bater a porta, zangada, como nos dramas das telenovelas, e sair a praguejar.
Mas aquele bichinho na alma não a deixou. Parecia colá-la ao chão.
Esquecem-se que eu não tenho mãe, não? E vivo assim há quinze anos, igualzinho ao teu casamento, Leonor. E tu sempre a lamuriar, porque tens sogra, que, ao contrário, até te ama. E eu aqui, morta de saudades e dor. Apetece-me tantas vezes ligar para o número dela, ainda o tenho guardado, pago o carregamento todos os meses e, de vez em quando, ligo só para ouvir “Mamã”. Depois falo para o vazio. Enrolo-me na manta dela, imagino que me está a abraçar. Falo, falo, até grito de falta. O que dói, é que parece tudo já queimado, por dentro.
Leonor, desculpa, mas não podia calar-me. Tu tens mãe e sogra. Para quê seres tão mesquinha com uma pessoa que só quer fazer parte da família? Lembro-me bem de te ouvir chamar-lhe “camponesa” e outras coisas… E mais: fazes-nos o melhor cabelo da cidade obrigada! Mas e à tua sogra, quando a penteaste ou pintaste pela última vez? apertou Clara.
Leonor sentiu aquilo como uma chapada.
E respondeu, pequenina:
Nunca…
O quê?! Estás a gozar? Isso está mal, minha querida! Olha, a minha… bem, é até boa mulher. Aliás, esqueçam o que disse! Dou-lhe sempre os meus bolinhos, faço-lhe fatias douradas, pão-de-ló para a Páscoa. Ela adora! Fica toda contente, tira tudo do saco, sorri como uma criancinha, com as mãos gordinhas, parece um anjinho! Sílvia contava sorridente.
O bichinho calou-se por fim. E Leonor sentiu que já podia sair dali.
Veio-lhe à cabeça a manhã desse mesmo dia. As mãos da sua sogra, que ela criticava tanto, chamando de “garras”, mãos grandes de muito trabalho, venosas, não eram bonitas. Achava o rosto dela enrugado, com alcunha e tudo inventada: “batata podre”. No fundo, não sabia nada dela, nunca quis saber.
Na verdade, a sogra sempre esteve ali, sempre a ajudar quando era preciso. O Ricardo já lhe tinha contado que teve duas irmãs antes dele, ambas morreram novas e a mãe cuidou delas e do marido até ao fim. Agora só restava o filho Ricardo, tardio e orgulho da mãe. E, lá no fundo, Leonor adorava verdadeiramente o marido, como há quinze anos. Bonito, inteligente, fiel, trabalhador. Mas era o que era porque a mãe assim o educou, pensava ela.
Ele é assim graças à mãe! Podia era ter dado para ser bruto, batoteiro, infiel. Não tenho sorte nenhuma, acredita! E eu? Nunca lhe disse nada de bom. Só a gozar, como sempre. Todos têm direito a um gesto, a uma palavra, menos ela? E eu, que sou cabeleireira, nunca a tratei! gritava-lhe agora a consciência cá dentro.
Saltou da cadeira.
Leonor, estás bem? perguntou a Clara, preocupada.
Ela abanou a cabeça, a conter as lágrimas.
Devia mudar de assunto. Devia ir embora. Achou que ia ser só galhofa e brincadeira. Enganou-se.
A tentar não se desmanchar, perguntou baixinho:
E então, Clara? Gostas de lá trabalhar?
Ai, meninas, nunca vou esquecer certos olhares. Está-lhe a doer muito mas ainda trazem luz, esperança, bondade. Ouço conversas sobre a eternidade, sobre o que faltou viver. Tantas lágrimas. Um senhor jovem veio. Todo executivo, bem sucedido. A mãe está connosco. Só faltava chover-lhe ouro. Mas ela quis ir para o hospital. Descobri depois: queria visitá-lo à terra dela, lá para os lados do Alentejo. Ele, sempre a adiar. Coisas mundanas, sabem? Quando ela morreu, ele caiu de joelhos: Mamã, volta! Vamos já onde quiseres. Eu compro-te uma casa lá na tua aldeia, tudo! Só preciso de ti. E uma vez, havia um militar que vinha todos os dias visitar a filha. Coitada, sem cabelo nenhum, mas de um sorriso Mostrava-me fotos dela em criança, uma cabeleira que parecia de princesa. E ele, todos os dias, levava-lhe uma ganchinha bonita. Ela fazia coleção, brilhava de alegria quando o pai chegava. Ele dizia que a ia pentear quando o cabelo voltasse. Acabou por a perder. Depois, ofereceu os ganchos às enfermeiras. Olhei-lhe nos olhos: secos, mas cheios de dor, Agora está com a mãe, a minha princesa. E eu hei de ir ter com elas. Moral da história? Temos é de saber valorizar! Uns choram nas campas, outros lutam contra a doença, outros gastam a vida a enredos e intrigas. Mas quem anda lá em cima acaba por se cansar e, mais tarde ou mais cedo, a vida cola-nos à parede.
A Sílvia abanava-se com o jornal e lamentava que já não havia bolos.
Iria para casa fazer mais, ia avisar o marido que ia haver serão com a família toda, sogros incluídos!
Tenho de ir! Vamos ter reunião familiar improvisada! Adeusinho! escapou-se sorridente.
Leonor também se levantou, foi apanhar as coisas à mala, mãos a tremer, deixou tudo cair no chão. A Clara ajudou-a a apanhar, em silêncio.
E assim se separaram.
A Leonor ficou o resto do dia ocupada, agenda cheia.
Mas, lá longe, nos subúrbios, neste momento, uma mulher idosa olhava para o tal presente. Aquele mesmo, que ela pensava que a ia atormentar.
Imaginou-se no lugar da sogra. Aquilo ia-lhe custar, e muito. O dia de aniversário teria acabado arruinado.
Ligou aos clientes, pediu desculpa, prometeu promoções e cancelou tudo.
Lá foi para a casa da sogra.
O telemóvel do marido estava desligado.
As mãos estavam a suar. O que diria o Ricardo?
Já era noite. As luzes no pequeno chalé brilhavam. De repente, as cortinas floridas e a gerbera à janela, que antes a irritavam, pareceram-lhe acolhedoras.
Vai ter de pedir desculpa. O que dizer? Levar outro presente? Não havia tempo. Bem, prometo que trato disso. Ela ficou tão desiludida… O que fui eu fazer? pensava, caminhando da cancela à porta.
A porta estava aberta. Na sala, uma travessa gigante de bacalhau com natas, arroz de pato, folhados. Leonor ficou à porta, a olhar. O marido conversava com o filho, que devorava os pasteis de carne tradicionais da avó. Dona Benedita, no seu vestido azul e trança impecável, estava junto da parede com duas vizinhas idosas e um senhor já bem grisalho.
Vejam só que coisa mais linda, não acham? dizia a sogra, entusiasmada, a mostrar o presente.
E continuou:
Esta é a minha Leonor, mulher do Ricardo. Parece uma princesa, tão branquinha, delicada, lindíssima. Quando olho para ela, até o coração canta. Quem me dera ter o dom de Deus para fazer gente assim! Agora, a Leonor vai estar sempre comigo. Um artista pintou-a, nem queria acreditar de tão feliz. Não quero mais nada!
Leonor sentiu as faces e as orelhas ficarem encarnadas, tanto que mais parecia uma beterraba. Ficou com vergonha, como em criança, quando partiu a jarra da avó e culpou o irmão mais novo.
O presente da sogra foi um retrato dela, Leonor! Sempre achou que a sogra não gostava, que o quadro a ia enervar, mas não deitava fora por vergonha. Só que afinal
A Leonor é tão bonita que até me intimido a falar com ela. Parece uma bonequinha! Olhos azuis de espigar, rosto perfeito, parece saída de uma pintura. Nada igual a mim, velha, desajeitada, sem saber falar bonito. Encabulada, sempre fui. Quando ela cá dormia, mal acordava, ajeitava-lhe o cobertor baixinho. Deus levou-me as filhas, mas deu-me outra, mulher do meu Ricardo. Sempre digo ao Ricardo que tem uma mulher de ouro!
E agora, vive com isto! pensou a voz interior, e calou-se para sempre.
Nem teve tempo de jurar mudança. Alguém já a tinha visto. O filho correu para abraçá-la, o marido levantou-se logo.
Mas tu não estavas a trabalhar? A mãe disse que tinhas passado de manhã sussurrou-lhe ao ouvido.
Cancelei tudo. Dona Benedita… posso chamar-te mãe agora? Como à minha. Parabéns! engoliu em seco.
Sentia vontade de se ajoelhar, como o homem da história que a Clara contou. Perante tanta sabedoria e bondade, só apetecia ajoelhar-se.
Leonor! Vieste ainda a tempo, filha. Para mim, uma velha, vieste! Aqui está a minha filha! exclamou Dona Benedita, cheia de orgulho.
O avô-vizinho ao lado sorriu, olhando da Leonor para o retrato.
Depois, todos se animaram, muitos risos.
Leonor sentiu-se em festa. E grata por estar viva, com saúde, ter pais e os sogros, marido e filho, trabalho que adora. Afinal, Leonor era uma mulher de sorte.
À mesa, toca a reunir! exclamava Dona Benedita, atarefada.
Ótimo! Depois fazemos uma tarde de beleza! Quem quiser corte, pintura, manicure, é só dizer! ofereceu Leonor, a sorrir.
Esse também era um presente. Para todos.






