O que é que se passa? Estamos casados há dez anos! Que amante é essa? Eu já tenho você!
respondeu o João, sem pestanejar.
A Inês não conseguia aceitar aquilo. Sentia, como se fosse pele que o marido a estava a trair, uma dúvida constante que a corroía. Um dia, acabou por ter coragem de o confrontar diretamente.
É verdade ou é só coisa da minha cabeça? perguntou.
Ele respondeu da mesma forma:
O que é que estás a dizer? Já são dez anos de casamento! Que amante? Eu tenho-te a mim!
Parecia que o João falava com sinceridade, sem mentira nos lábios, no sorriso ou no olhar, mas ainda assim algo não lhe deixava a Inês tranquila.
A Inês não era do tipo que deixa o destino decidir, então decidiu descobrir a verdade a toda a hora. Como? Primeiro, leu vários conselhos à internet e resolveu espreitar o telemóvel do marido. Não encontrou nada de suspeito, apenas conversa vazia com umas antigas colegas de escola o que, para ela, não era motivo de preocupação. É só conversa, diziase.
João nunca tinha colocado senha no telefone. Não havia nada a esconder, ao menos parecia. Nenhum chat secreto, nenhuma mensagem distante. Como um anjo no corpo dele.
Às vezes a Inês sentia que tudo era imaginação, mas sempre que João chegava tarde do trabalho, um pressentimento ruim lhe apertava o peito.
A sua melhor amiga, a Marta, a consolava:
São só suposições! O João amate e nunca te vai trair! Só estás a destruir tudo com desconfianças!
Mas a Inês não ouvia a Marta. O coração dizia outra coisa, e dividir o marido com outra mulher era algo que ela nunca aceitaria.
Um dia, decidiu ir à empresa dele para ver se ele andava a catar mulheres no trabalho. Quando o viu, João enfureceuse, alegando que a sua presença o envergonhava perante os colegas. Pediuse desculpa, mas ele acabou por perdoar rápido.
Parecia que tudo corria bem na vida deles: a casa era confortável, os dois filhos cresciam, havia tudo para viver feliz. Mas a Inês ainda sentia que faltava alguma aventura, aquela quintafeira de emoção que, como dizem, quem procura sempre encontra só que ela ainda não encontrara.
A Inês, como muitas mulheres de trinta e poucos anos, temia ficar sozinha com duas crianças. Por fora parecia calma, por dentro um turbilhão.
João não mostrava nenhum sinal: nada de perfume estranho, nada de mudança de visual, nada no estilo de vida. Ainda assim, ela tinha a sensação de que algo estava errado.
Se não fosse por um acaso, a Inês talvez nunca tivesse descoberto a verdade. Será que tudo foi inventado ou real? Vamos ver.
Quando o filho mais novo entrou na primeira classe, Inês decidiu aprender a conduzir. Inscreveuse na escola de condução e, à noite, após o trabalho, ia às aulas. Três meses depois fez os exames e recebeu a carta de condução.
O João ficou tão orgulhoso que comprou-lhe um carro pequeno, mas prático. Inês era baixa e leve, por isso o carro era perfeito para ela, fácil de estacionar.
João não admitia nada, mas comprou o carro só para que a Inês não lhe pedisse para dar carona. Ainda é cedo para ela conduzir, dizia, precisa de experiência primeiro.
Numa manhã de fim de semana, Inês acordou antes do habitual e decidiu surpreender a família com um pastel de berinjela e frango a receita favorita de todos. Mas faltava farinha.
Ficava frio lá fora, a neve cobria as ruas, mas já tinha aprendido a conduzir no inverno. Foi até ao carro para ir ao supermercado, mas o motor não pegava. Voltou para casa, onde ainda dormiam os filhos. Caminhou silenciosamente para não os acordar.
Não queria andar a pé no frio, então decidiu roubar o carro do João só uma volta rápida, uns quilómetros, ele nunca perceberia.
Pegou nas chaves do Audi do marido e saiu. Enquanto o carro aquecia, decidiu limpar as vidros. Meteu a mão no portamalas, onde sabia que havia guardanapos. Acabou por derrubar algo ao chão.
Ao levantar, encontrou um telemóvel que não reconhecia. Não era o do João, que conhecia ao pormenor. O aparelho era novo, com capa rosa. Um primeiro pensamento assustador foi que o João o teria deixado ali por engano, como costumava dizer, mas a curiosidade venceu.
Ligouo. Na primeira mensagem apareceu o nome Oksana.
Meu amor, morro de saudades! Vem aqui logo! Estou à tua espera!
Inês ficou boquiaberta. Não havia senha, então leu toda a conversa. O carro ainda aquecia, mas ela continuava a ler.
A troca de mensagens era interminável, parecia durar uma vida inteira. Descobriu que João trabalhava até às cinco da tarde e só chegava a casa por volta das sete. Nunca tinha imaginado que ele fosse sair antes do fim do turno.
Quase todos os dias, depois do trabalho, ele ia visitar a Oksana durante cerca de uma hora e depois voltava para casa como se nada tivesse acontecido, enviandolhe mensagens carinhosas que a própria Inês nunca tinha ouvido.
Numa foto anexada, havia uma mulher mais velha, por volta de quarenta anos. Inês ficou furiosa.
Estava a ponto de sair do carro quando viu João a entrar no prédio. Ela tinha deixado uma nota dizendo que tinha ido ao supermercado. Ele provavelmente ia aproveitar a ausência para mandar mais uma mensagem à Oksana.
Inês lembrouse de que João costumava descer ao carro à noite, às vezes esquecia a carteira ou deixava algo. Saía quase todas as noites, mas voltava rápido, por isso ela nunca suspeitou.
João percebeu a esposa ao volante e dirigiuse directamente para ela.
Quem te deu permissão? Não combinámos isto!
Inês, ainda mais irritada, apertou a marcha atrás, pisou no acelerador e o carro buzinou contra a cerca dos fundos. Sentiu um alívio imediato.
Desembarcou, encarou João, ainda atordoado, e gritou:
Vai logo para a tua! Vou ver como te vais virar sem casa e sem carro! Vai! Não quero mais ver-te!
Para provar o que dizia, atirou as chaves do Audi num grande monte de lixo e foi para dentro.
Os dois meninos ainda dormiam, confusos com o barulho. Alguns minutos depois, João tentou entrar, mas Inês trancou a porta com firmeza.
Vai para a tua! Não voltes aqui! vociferou, ecoando por toda a casa.
João, de pantufas e de casaco, saiu de casa furioso e dirigiuse para a casa da Oksana, na mesma rua, a duas casas de distância. Pensou que talvez lá encontrasse refúgio, mas a porta estava fechada.
Oksana abriu a porta e ouviu uma voz masculina:
Querida, já estás aí? Estou à tua espera!
Descobriuse que Oksana também tinha dois amantes, então os finsdesemana eram ainda mais movimentados.
Ela o olhou de soslaio e fechou a porta na cara dele. João, desanimado, acabou por caminhar até à casa da mãe, a Maria Rita, que morava duas ruas mais adiante.
Ao ver o filho, Maria Rita percebeu tudo de imediato, recebeuo, aqueceuo, alimentouo e ouviu a história da esposa má que o tinha expulso de casa. Depois, com um sorriso, consolouo:
Não te preocupes, filho! Quem diria que a tua Inês seria assim? Ainda há muito pela frente! Tens só trinta e cinco anos, ainda vais encontrar o amor verdadeiro, não duvides!
João acabou por ficar a viver na casa da mãe, decidindo recomeçar a vida. Sentiu até algum alívio por estar livre, até que Inês pediu pensão alimentícia. Foi então que percebeu que recomeçar não seria tão fácil. Ainda bem que a mãe não o abandonou, senão teria desaparecido de tudo.
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