O pai determinado tentou obrigar o filho a casar-se, mas não imaginava as surpreendentes reviravoltas que o destino reservava.

Sai daqui, rapariga ingrata!, gritou o pai, e Leonor saiu de casa cambaleando como se estivesse a flutuar entre sombras e luzes. Tinham-se passado oito anos desde que perdera a mãe, e agora, com dezoito anos, Leonor concluía o último ano da faculdade de medicina com uma medalha de ouro reluzente, uma medalha que parecia brilhar mais do que o sol de Lisboa num sonho febril. O desejo dela era seguir as pegadas da mãe, mas o pai tinha outros planos, apresentados como se fossem um presente embrulhado em nuvens carregadas. Anunciou-lhe o noivado com o filho do melhor amigo, um gesto estranho que soava a saudade malvada.

Sentindo-se presa entre paredes invisíveis mas decidida, Leonor instalou-se num lar de estudantes com quartos que mudavam de forma, e começou a trabalhar a meio tempo numa pastelaria onde as chávenas rodopiavam sozinhas. Numa noite, ao terminar o turno, avistou um homem moreno muito bem vestido, sentado entre mesas flutuantes. O porte dele cabia mais num restaurante elegante do que naquele espaço de aroma a pastéis de nata e café queimado. Leonor não conseguiu impedir-se de pensar que ele era a peça de um puzzle perdido.

No caminho para o lar, cruzou-se de repente com o mesmo moreno, que estava encostado a um carro que parecia ter rodas de balão. Ele gritou: Leonor, preciso falar contigo! Surpresa, Leonor parou e deixou o silêncio escorrer entre eles. Ele explicou que era o noivo-surpresa, aquele que o pai dela arranjara para o dia do seu aniversário, mas tinha chegado tarde.

Chamo-me Rui, apresentou-se ele, e a voz soava a vento na praia. Vamos tratar-nos por nomes próprios. Tenho uma proposta de negócio para ti. Ouve primeiro e só depois decides se aceitas ou não. Leonor, suspensa entre curiosidade e incredulidade, acenou em concordância.

Rui explicou que também era prisioneiro de um sonho estranho: queria criar o seu próprio negócio, mas o pai ameaçava tirar-lhe a empresa se não casasse com uma rapariga escolhida por ele, como quem troca moedas por sonhos. Rui propôs-lhe um casamento fingido ela teria liberdade total, um quarto só dela e apoio financeiro, tudo pago em euros soltos pelo ar, sem interferência na sua vida.

Leonor, atordoada como se tivesse acordado dentro de um livro, pediu tempo para pensar. Rui entregou-lhe um cartão colorido que parecia desaparecer na palma da mão, e pediu-lhe para ligar quando se sentisse preparada. Durante noites que se moviam como ondas, Leonor ponderou a proposta até que finalmente decidiu contactar Rui.

A cerimónia do casamento decorreu apenas com os pais presentes, num salão onde os relógios andavam ao contrário e os vasos floriam em tons impossíveis. Quando se beijaram, surgiu um raio entre eles que iluminou o chão com fragmentos de lembranças. Leonor sussurrou ao ouvido de Rui que gostava dele, e ele sorriu com alegria, como se tivesse encontrado um troféu. Nos meses seguintes, essa faísca transformou-se numa fogueira, e ambos descobriram, num sonho dentro do sonho, que estavam verdadeiramente apaixonados.

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O pai determinado tentou obrigar o filho a casar-se, mas não imaginava as surpreendentes reviravoltas que o destino reservava.