O Pai Decide Casar-se: A História de Joana, que Perdeu a Mãe, Distanciou-se do Pai, e Agora Enfrenta…

O pai decidiu casar-se

A mãe da Madalena faleceu há cinco anos. Tinha apenas quarenta e oito anos. O coração parou quando ela regava as violetas na cozinha. O pai estava então com cinquenta e cinco.

Ele não chorou, não fez escândalos. Simplesmente sentou-se na poltrona da esposa e ficou a olhar para a fotografia dela, como se, com a força da mente, pudesse trazê-la de volta à vida.

Nesse dia, Madalena perdeu não só a mãe. No fundo, perdeu também o pai. Ele continuava ali, no mesmo apartamento, mas era como um duplo físico, um fantasma enclausurado num casulo de luto.

O primeiro ano foi difícil. Aos vinte e três, a Madalena teve de ser filha, cuidadora e confidente do pai. Cozinhava caldo verde, que ele não tocava, lavava as camisas, que ele não vestia, e falava, falava muito, tentando puxá-lo do abismo onde ele mergulhara.

Mas o pai calava-se. Limitava-se a responder com monossílabos, e cada resposta era como um tapa nas mãos dela: não te metas! Não incomodes! Não toques!

Entre os dois ergueu-se, aos poucos, uma muralha densa, impenetrável, cinzenta…

***

O tempo foi passando. Viviam lado a lado, mas em mundos diferentes.

De manhã encontravam-se na cozinha e saíam. À noite, regressavam e cruzavam-se de novo na cozinha antes de se separarem cada um para o seu canto. Pouco diálogo. Nenhuma convívio de verdade.

Madalena deixou de se impor com a sua preocupação. O pai, de certa forma, agradecia-lhe por isso. E cada um, à sua maneira, foi-se habituando à nova realidade.

Sem mulher… Sem mãe…

***

Com o tempo, o pai começou a mostrar sinais de vida.

Sorriu à vizinha, que de vez em quando presenteava-os com pastéis de nata caseiros. Saiu para pescar com um amigo. Lembrou-se do computador portátil e dos seus filmes favoritos.

Madalena já não via no pai aquela figura acabrunhada. Pensou que o pior já teria passado. Sentiu-se confiante o suficiente para aceitar um trabalho de verão num resort algarvio, deixando-o sozinho.

Quando voltou, esperava-a uma surpresa enorme.

***

O pai disse que ia casar-se.

Disse-lhe logo que ela entrou em casa. Com voz calma, como se o assunto já estivesse decidido.

Sentaram-se na cozinha, o pai de frente para ela.

Conheci uma senhora anunciou ele, sorrindo. Chama-se Leonor. Vamos casar.

Madalena ficou gelada. Não por ele ter arranjado companhia. Na verdade, até gostaria de o ver sorrir novamente. O que lhe disparou na mente foi um alarme: «O apartamento!»

O lar que sempre conheceu! Onde ainda estava, no canto, a máquina de costura da mãe; no armário, a chávena preferida dela! E não esta, deixada por uma estranha, suja na mesa!

Madalena olhou para a nova peça de louça com desprezo

Pai disse ela, procurando as palavras , não achas que é tudo muito rápido? Conheces bem essa senhora? Onde é suposto viverem? Espero que não aqui Este apartamento não é só teu. Também era da mãe…

O pai ergueu lentamente os olhos para a filha. No seu olhar só havia cansaço e um gelo cortante.

Ah, era isto então respondeu em voz baixa. Começou. Que rapidez. E eu ainda estou vivo Bem depressa dividem a pele do urso antes dele morrer.

Não é isso! Só quero perceber! exclamou Madalena, mais acalorada. É natural pensar no futuro. Se arranjares outra família e depois eu O que eu faço se acontecer alguma coisa?

Pensas nisso na altura respondeu o pai, seco, e retirou-se para o quarto.

***

Leonor apareceu dias depois. Alta, magra, olhos tristes mas muito atentos, esforçava-se por ser atenciosa.

Madaleninha, entendo bem o que sente disse ela, docemente. Acredite, não quero nada de ninguém. Tenho a minha vida, o meu apartamento. O que sinto pelo seu pai é apenas amor.

Leonor era delicada, mas as perguntas dela!

E a vossa casa de campo é longe? perguntava com inocência. Há quanto tempo têm este apartamento? Os prédios antigos desta zona do Porto valem muito.

Além disso, Leonor achava errado falar de heranças em vida, dizendo que conversas assim feriam o pai e faziam-no sentir-se descartável.

Depois dessa visita, as dúvidas de Madalena aumentaram. Tinha plena certeza que esta mulher era interesseira, e a relação com o pai, já tensa, ficou insustentável. Madalena via nele um velho iludido pela paixão tardia, pronto a entregar tudo ao primeiro sorriso. O pai, por seu lado, via nela uma filha desconfiada, egoísta, incapaz de pensar na felicidade dele.

Cada conversa era uma disputa amarga. O pai defendia o seu direito à vida própria; Madalena, o direito a um futuro seguro. Maguavam-se mutuamente, sem perceber o que perdiam.

***

Até que Madalena não aguentou mais e sugeriu irem ao notário para decidir, de uma vez, o destino dos bens.

O pai hesitou bastante, mas acabou por aceitar.

Está bem suspirou, resignado. Que seja como queres.

No caminho, seguiram calados. Madalena remexia nervosamente na mala.

No cartório, tudo estava silencioso. O pai sentou-se afastado, mãos pousadas no colo, rosto impassível.

A notária, senhora idosa de rosto austero, abriu a pasta.

Então, viemos cá para… começou formalmente.

Um momento interrompeu o pai, numa voz baixa mas firme, que fez Madalena estremecer. Eu venho cá por outro motivo…

Entregou um documento à notária.

Aqui está.

A senhora pôs os óculos, leu e arregalou os olhos:

Tem a certeza? Isto é uma doação. Está a passar todos os bens, gratuitamente, para o nome da sua filha?

Madalena ficou sem fôlego. O quê? Ele dá-lhe tudo? Assim? Alguma armadilha? Vai acusá-la de o ter obrigado?

Fitou o olhar do pai, tentando perceber-lhe as intenções.

Mas o pai olhava-a com uma expressão que gelou todo o seu corpo. Não havia ali raiva, nem mágoa. Apenas uma tristeza profunda, piedade por ela.

Pronto disse ele em voz baixa, levantando-se e depositando o documento à frente dela. Toma. Tudo o que tanto desejaste. O apartamento. A casa de campo. Toma. Agora já não precisas preocupar-te que eu troque o teu património por uma felicidade qualquer.

Disse felicidade com tal amargura que Madalena estremeceu.

Pai eu eu não queria murmurou, com lágrimas a correr-lhe pelo rosto.

Não querias? sorriu ele, um sorriso mais doloroso do que um grito. Madalena, nos últimos seis meses nunca me perguntaste pela saúde, se estava frio, se precisava de remédio. Só querias saber de papéis, de metros quadrados. Não me viste como pai. Viste-me como obstáculo ao que julgas ser teu. Achas que não percebi?

Deu um passo para a porta. Antes de sair, lançou-lhe:

Era esta jaula que ambicionavas? Fica com ela. É tu própria agora.

O pai saiu. Madalena ficou ali, estática, a apertar uma folha de papel gelada. Ganhou tudo, venceu! Mas, subitamente, percebeu que perdeu.

***

Vários anos se passaram.

O pai e a Leonor continuam juntos. Às vezes, Madalena cruza-se com eles no supermercado ou no jardim. Quase sempre de mãos dadas. O pai, já mais velho, irradia felicidade sempre que olha para Leonor.

Madalena vive sozinha.

Num T3 renovado e moderno, com mobília nova.

Vai à casa de campo nos fins de semana. Está tudo em ordem.

Só a felicidade se perdeu pelo caminho…

Madalena percebe, tardiamente, que o pai não lhe entregou o apartamento nem por mágoa nem por raiva. Entregou-lhe aquilo que ela própria escolheu: paredes em vez de pessoas, papelada em vez de amor.

Trocou o próprio pai por três divisões e uma casa de campo. E essa consciência é a herança mais dura que já lhe coube.

No fim, percebeu: nada material substitui o amor e a presença de quem nos quer bem.

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