Ontem fui lá acima ao meu vizinho a pedir-lhe a furadeira emprestada. Abriu-me a porta o Henrique, de 51 anos, de calças de fato de treino e t-shirt:
Entra, pá, acabei agora de jantar.
Lá fui eu. O apartamento estava impecável, na cozinha sentia-se o cheiro a frango assado. Em cima da mesa tinha o portátil aberto e, ao lado, um copo de vinho tinto.
O Henrique tem 51 anos, divorciado há doze anos, vive sozinho e trabalha como engenheiro. Ganha uns 2100 euros, para teres ideia.
Conheço-o desde que me mudei para este prédio, já lá vão cinco anos. Nunca lhe vi mulher lá em casa, nem sequer visitas femininas.
Estendeu-me a furadeira e foi buscar dois copos e uma garrafa de whisky:
Já que cá estás, senta-te, pá. Não nos víamos há séculos.
Ficámos na cozinha, a trocar dois dedos de conversa enquanto bebíamos algo.
A certa altura, não resisti:
Ó Henrique, tu nunca pensaste em ter outra mulher? Estar com alguém?
Ele deu uma risada:
Honesto? Nem procuro, Miguel. Vivi estes doze anos sozinho, e percebi que assim é que é bom para mim.
Mas porquê?
Serviu mais um pouco de whisky, encostou-se para trás e começou a listar as razões. Foram seis!
Primeiro motivo medo de ficar na penúria depois do divórcio
Henrique partilhou:
Separei-me há doze anos atrás. Estive casado dezoito anos com a Vera. Temos uma filha, a Inês, agora com vinte e oito anos, já vive por conta própria.
Bebeu um golo:
Apanhei-a numa traição com um colega. Pedi logo o divórcio.
E depois?
O tribunal dividiu a casa a meias. Eu pagava quase tudo da hipoteca No fim tivemos de vender o apartamento, dividir o dinheiro a meio, e comprei esta T1.
Olhou para mim:
Repara, Miguel, perdi metade do que era meu por causa de uma traição dela. E segundo a lei, está tudo bem. Eu a trabalhar, a pagar e ela a viver à larga e ficou com metade!
Pois, é o divórcio…
Exatamente. Agora pensa: para quê voltar a meter-me nisso? Imagina que arranjo outra, vamos viver juntos, caso-me outra vez, compramos carro, mais uma casa Depois ela decide ir embora. Para quê arriscar acabar outra vez prejudicado assim?
Eu fiquei só a ouvir.
Segundo motivo falta de apoio aos sonhos
Henrique continuou:
Miguel, eu tenho uma mania antiga Quero comprar uma motorizada clássica. Daquelas antigas, uma Sachs ou uma Casal. Restaurá-la eu mesmo e passear nos fins de semana.
Fixe, parece mesmo porreiro.
Há um ano que junto dinheiro, só me falta meio ano para lá chegar. Nos tempos do casamento já era igual. Queria aprender guitarra, comprei uma, inscrevi-me. A Vera só dizia: Isso já não é para a tua idade, pensas que és o Rui Veloso? Desisti. Sonhei ir de canoa até ao Gerês. Ela: Estás parvo? Temos o empréstimo do banco para pagar. Nunca fui.
Olhou pela janela:
As mulheres não encaram os nossos sonhos como coisa séria, acham tudo uma tontice. Agora faço o que me dá na gana, sem ninguém a pôr travões. Se me apetecer comprar a motorizada, ninguem me chama de tolo.
Terceiro motivo autoestima inflacionada das mulheres
Henrique contou:
Há uns três anos decidi experimentar aqueles sites de encontros. Completei o perfil honesto: idade, emprego, salário, gostos.
E correu bem?
Falei com umas quantas. Uma era a Patrícia, tinha 46 anos, era recepcionista num salão de beleza. Ganhava mil euros, se tanto. E escreveu-me: Você parece-me interessante, mas só procuro alguém que ganhe mais de três mil euros.
Desatou a rir:
Perguntei-lhe: E você quanto recebe? Ficou ofendida e bloqueou-me logo.
A sério?
Juro-te. Hoje em dia, a maioria acha-se uma especie de princesa. Ganha mil euros, vive num apartamento alugado, mas exige homem com casa, carro e ordenado chorudo. Elas só oferecem a tal energia feminina
Deu um novo trago ao whisky:
Eu ganho dois mil, tenho casa minha, carro… e para muitas continuo a ser um fracassado porque não sou rico. Para que é que me hei de meter com quem nem me valoriza?
Quarto motivo não sabem cuidar da casa
Eu perguntei-lhe:
E o lado doméstico? Não sentes falta do conforto, da comida da mulher, essas coisas?
Riu-se:
Miguel, olha à volta: limpo, não está? Faço a limpeza ao sábado de manhã, em meia hora está tudo feito. Comer? Hoje foi frango com legumes. Demorei meia hora. Roupa? Máquina lava sozinha, só tenho de a pôr a secar.
Levantou-se e apontou para a cozinha:
Não preciso de ninguém para tratar da casa. Acho que há para aí tanta mulher que nem sabe cozinhar, vive de comida pré-feita ou encomendada.
Mas ainda há mulheres à moda antiga
Sim, mas raras. E por norma ainda querem ser sustentadas, como se fosse minha obrigação. Mais vale tratar eu de tudo, sinceramente.
Quinto motivo medo de ser manipulado e enganado
Henrique serviu mais um whisky, para ele e para mim.
Depois do divórcio ainda tive dois relacionamentos curtos. Ambas mentiram.
Como assim?
A primeira, chamada Mafalda, disse-me que estava separada. Andámos juntos um mês. Descobri por terceiros que afinal era casada e só procurava distrair-se porque o marido não dava para nada.
Bebeu:
A segunda, chamada Leonor, jurava não ter filhos. Dois meses depois, percebo que afinal tem dois filhos, mas inventou para não me assustar.
A sério? Que canseira
Pois. Farto disto, mesmo. Mentir é normal, ocultar coisas, só para conquistar e depois… o homem é que se lixa no fim. Não confio mais.
Sexto motivo ser penalizado por dar o primeiro passo
Encostou-se, meio suspirando:
Uma vez, há um ano, tentei meter conversa numa livraria. Havia lá uma senhora atraente, uns 45 anos, a ver livros de clássicos.
E?
Fui educado: Boa tarde, vejo que gosta de clássicos, posso sugerir um autor? Olhou para mim como se fosse maluco ou perigoso. Respondeu assim seca: Obrigada, mas não preciso. E virou costas.
Ele sorriu com ironia:
Miguel, hoje em dia qualquer abordagem é vista logo como assédio ou falta de respeito. Vais falar? És um tarado. Manda mensagem no Facebook? És um stalker. Um convite para café? Queres é viver à pala dela…
Mas há mulheres normais, ainda, não há?
Há, claro, mas são cada vez menos. Eu cansei de levar negas e ser mal-interpretado. Só se alguma senhora mostrar mesmo interesse, por mim acabou-se a iniciativa.
No fim destas razões, fiquei mesmo a matutar.
Henrique terminou o whisky, olhou para mim:
Não estou a dizer que são todas más pessoas, há mulheres do bem. Mas encontrá-las é como procurar agulha num palheiro. E se correr mal, o preço é alto: perdes dinheiro, tempo, saúde.
Levantou-se:
Tenho 51 anos, trabalho, casa própria, carro, os meus gostos, amigos. Sou feliz assim, pá. Para quê arriscar perder isto tudo por uma relação que mais depressa me vai trazer chatices que felicidade?
Fui-me embora, deitei-me e fiquei a pensar nisto.
Tenho 49 anos, sou casado há vinte e três, tudo mais ou menos bem lá em casa mas se estivesse sozinho, faria o mesmo caminho?
Acho que sim.
Será que o Henrique tem razão por estar sozinho há 12 anos e não querer arriscar, ou é só medo dele? Os homens depois de certa idade estão mesmo condenados a perder com o divórcio? Ou é exagero?
Terá sentido recusar relações depois dos 50 porque o preço do erro é demasiado alto, ou é puro egoísmo e medo de viver sem garantias?
Será mesmo verdade que as mulheres gozam dos sonhos dos homens, ou nós é que escolhemos mal com quem nos metemos?






