Diário, 14 de abril
Ontem fui bater à porta do meu vizinho, António, porque precisava de lhe pedir uma furadeira emprestada. António abriu a porta com umas calças de fato de treino e uma t-shirt daquelas velhas de andar por casa.
Entra, acabei de jantar, disse ele.
Entrei. O apartamento estava impecavelmente limpo e ainda cheirava a frango assado acabado de sair do forno. Na mesa, o portátil aberto e um copo de vinho tinto do Dão já a meio.
O António tem cinquenta e um anos. Está divorciado há doze. Vive sozinho e trabalha como engenheiro. Ganha perto de 1.400 euros líquidos por mês, suponho. Conheço-o há uns cinco anos, desde que me mudei para este prédio. Nunca o vi com mulher nenhuma, nem sequer em festas cá em casa.
Deu-me a furadeira e, enquanto enchia dois copos de whisky, disse:
Já que vieste, senta-te cá um bocado. Já não nos víamos há um tempo.
Sentámo-nos na cozinha e brindámos.
Acabei por não resistir e atirei-lhe:
Ó António, tu nunca pensaste em arranjar alguém? Nunca procuraste?
Ele sorriu de lado.
Não procuro, Rui. Sabes, já vivi doze anos sozinho E percebi que assim, para mim, é melhor.
Mas porquê?
Encheu-nos de novo os copos e reclinou-se na cadeira.
Vou-te dizer. Seis motivos. Bem concretos. Custaram-me a aprender.
Primeiro motivo risco de perder tudo no divórcio
Começou por contar:
Separei-me há doze anos. Estive casado dezoito, com a Filomena. Temos uma filha, a Beatriz, vinte e oito anos agora, já vive por conta própria.
Deu um gole, suspirou:
Ela traiu-me. Descobri que andava enfiada com um colega do trabalho. Avancei para o divórcio.
E então?
O tribunal mandou vender o apartamento do Barreiro a meio. Mesmo tendo sido eu a pagar a maior parte. Dividimos ao meio, cada um ficou com o seu. Comprei esta pequena T1 aqui no Lumiar.
Olhou-me nos olhos:
Rui, perdi metade do que tive, mesmo sendo eu quem trabalhou mais. E isto é perfeitamente legal. Eu a dar no duro, ela a passear, e no fim embolsa tudo igual.
Bem, faz parte, é o divórcio
Exato. Agora diz-me, para quê meter-me nisso outra vez? Imagina que conheço alguém, começamos a viver juntos, até casamos. Compramos um carro novo ou trocamos de casa. Depois ela resolve bazar. Quem é que fica a perder? Eu. Não arrisco outra vez.
Eu fiquei calado. Ele continuou.
Segundo motivo falta de apoio às nossas paixões
Sabes, sempre tive uma pancada grande: quero comprar uma Vespa antiga e restaurá-la. Passear ao fim de semana, ouvir o motorzinho a roncar. Há um ano meto dinheiro de parte, daqui a pouco compro uma de 1974, como aquelas do meu pai.
Bebeu um gole de água, a cortar o whisky.
No casamento também tinha sonhos destes. Quis aprender guitarra, inscrevi-me em aulas. A Filomena: Para quê isso? Já tens quarenta, não és nenhuns Xutos. Desisti. Quis ir canoar no Douro, ela: Estás maluco? Temos crédito da casa, não tens juízo nenhum. Nunca fui.
Fixou o olhar na rua:
Elas acham sempre isto estúpido, infantil. Agora estou só, faço o que me apetece. Ninguém goza comigo por comprar motas velhas.
Terceiro motivo expectativas irrealistas das mulheres
Falou depois do mundo dos encontros pela internet:
Há três anos inscrevi-me num daqueles sites de dating. Fui sincero: pus idade, profissão, salário, interesses.
E então?
Troquei mensagens com umas quantas. Lembro-me de uma, a Mafalda, quarenta e seis anos, rececionista num cabeleireiro. Ganha pouco mais de 700 euros. Respondeu-me: É interessante, António, mas procuro alguém com salário acima dos 2.000.
Riu-se:
Perguntei-lhe: E você quanto ganha?. Fiquei bloqueado logo a seguir.
A sério?
É assim, Rui. A maioria acha-se princesa, vivem de arrendamento, mas exigem homem com casa paga, bom carro, ordenado gordo. E depois oferecem energia feminina, seja lá o que isso for.
Acabou o whisky num trago.
Eu tenho apartamento próprio, carro, vida arrumada. Ganho o que ganho, honestamente. Para muitas mulheres sou fracasso, porque não sou gestor ou médico cheio de notas. Não preciso de alguém que me veja assim dispenso.
Quarto motivo não sabem, ou não querem saber, da lida da casa
Perguntei-lhe:
Mas e o lado prático? Não te falta companhia, aquela rotina de casal, a comida feita?
O António soltou uma gargalhada.
Olha à volta, Rui: está limpo, não está? Faço tudo uma vez por semana. Cozinho? Cozinho, sim senhor. Hoje foi frango no forno com legumes, meia hora chega. Roupa? A máquina faz quase tudo, só preciso carregar e pôr a secar.
Fez um gesto em direção à cozinha.
Não preciso de mulher para isto. E sabes quantas já nem sabem cozinhar? Metade. Chegam a casa e é take-away ou pizzas congeladas.
Mas ainda há quem seja dona-de-casa
Não duvido. Mas são raras, e as que o são exigem depois que eu pague tudo. Prefiro fazer eu.
Quinto motivo medo de manipulações e mentiras
António serviu mais um pouco de whisky, para ele e para mim.
Depois do divórcio, tive dois envolvimentos. Curta duração.
Correu mal?
Primeiro, a Paula. Dizia-me divorciada. Ao fim de um mês soube, por terceiros, que era casada, só queria andar comigo porque o marido mal ganhava para as contas.
Bebeu mais um, os olhos fixos no copo:
A segunda, Lourdes. Jurava que não tinha filhos. Dois meses depois, descubro que tem dois, mas não me contou para não me assustar.
Ena…
Pois. As mentiras vêm de caras. Escondem coisas, omitem tudo normal para elas. E depois admiram-se que não confiemos.
Sexto motivo qualquer iniciativa é castigo
António apoiou-se na cadeira.
Última vez que tentei conhecer alguém, foi no Pingo Doce, secção de livros. Uma senhora por volta dos quarenta e cinco anos, simpática. Pus-me a jeito, disse: Gosta de Eça? Posso recomendar-lhe um livro muito bom. Olhou-me como se fosse um criminoso. Obrigada, sei escolher sozinha, respondeu ela, seca.
Riu-se amargamente:
Rui, qualquer investida hoje é logo vista como assédio. Se abordas na rua, assustam-se. Escreves no Facebook, és stalker. Convidas para um café, és interesseiro.
Mas nem todas são assim…
Nem todas, mas a maioria, sim. Cansei de ser rejeitado, de olhares frios. Agora não faço nada, se ela quiser que venha ela. Eu não baixo mais a guarda.
Porquê este desabafo? O que isto me fez pensar?
António rematou, terminando o copo:
Rui, não digo que não haja mulheres boas. Há, claro. Mas encontrá-las é quase impossível. E errar custa caro demais perdes dinheiro, saúde, tempo.
Levantou-se.
Tenho cinquenta e um anos. Bons amigos, emprego estável, casa, carro, hobbies. Vivo feliz assim. Para quê arriscar por uma relação que pode acabar mal e deixar-me sem nada?
Fui-me embora para casa. Deitei-me a pensar nisto tudo.
Tenho quarenta e nove anos. Sou casado há vinte e três. Tudo corre bem, mas e se um dia acabasse sozinho faria eu o mesmo caminho que ele?
Acho que sim.
Será cobardia do António não procurar ninguém por medo de perder? Ou é só realismo de quem já viveu e não quer repetir erros?
Divórcio arruína sempre assim tanto alguém, mesmo se há traição da mulher? Ou será exagero?
É egoísmo de homem de cinquenta evitar relações para não arriscar, ou bom senso?
Serão as mulheres mesmo assim tão descrentes nos sonhos dos homens, ou escolhemos nós quem não devia?
Fico a matutar, sem resposta definitiva.
