Olha, deixa-me contar-te o que se passou cá por casa. A minha irmã, a Inês, casou-se há quatro anos e agora é mãe do Martim, um miúdo de três anos, de quem eu sou tia e madrinha. Eu, com vinte e três anos, ainda ando a estudar na universidade aqui em Lisboa e também trabalho, por isso dias livres são coisa rara e bem preciosa, sabes como é. Tento encontrar algum equilíbrio, mas entre trabalhos, aulas e ainda estar presente para amigos e família, nem sempre é fácil.
Por outro lado, a Inês, a mãe adorável do Martim, está desempregada. Mesmo assim, passa mais tempo nos salões de beleza do que propriamente em casa, o que me faz sorrir um bocado, porque o marido dela anda frequentemente fora, em viagens de negócios pelo país.
Há uns tempos, ela ligou-me a pedir que fosse buscar o Martim ao jardim de infância porque tinha uma marcação no salão e não podia ir. Como tinha um bocadinho de tempo livre depois da faculdade naquela tarde, acabei por concordar. Mas uma semana depois, o marido dela voltou de uma dessas viagens e pediram-me novamente para ficar com o Martim, porque queriam passar algum tempo a sós. Aceitei cuidar dele até às oito, mas quando tentei ligar-lhes mais tarde, ninguém respondeu a chamadas ou mensagens. O Martim ficou à espera deles, com olhos de chorar. Só chegaram perto da meia-noite, todos contentes depois de uma saída pela cidade.
E não ficou por aí… Alguns dias depois voltaram a ligar, dessa vez para celebrar o aniversário da irmã do marido dela, e queriam que eu ficasse outra vez com o Martim. Achei demais. Falei-lhes com sinceridade e expliquei que, apesar de me alegrar por eles, tenho a minha própria vida estudo, trabalho e também preciso de descansar um pouco. E lembrei à Inês que ela é mãe, que tem de assumir as responsabilidades, porque eu não posso ser sempre a “babysitter”. Até sugeri que levasse o Martim à festa, já que lá vão estar outras crianças para brincar com ele. Ela não gostou nada e ficou meio chateada. Então, para evitar discussões, acabei por pedir ajuda à nossa mãe, à Dona Rosa, que falou com a Inês e lhe disse que está a depender demasiado de mim, e que tem de ser ela a tratar do filho.
A Inês ainda está cá por casa e parece continuar a querer passar responsabilidades para mim, mas eu mantenho a minha posição tenho a minha vida e ela, como mãe, tem de cuidar do Martim. Não é fácil, mas também não vale a pena abdicar sempre dos meus planos por ela.







