O meu marido detestava ser apanhado em situações caricatas, porque, claro, ele é todo viril. Por isso, espreito em silêncio para a casa de banho, aprecio o que vejo, viro-me discretamente para trás da porta e… Provavelmente vou desatar a rir às gargalhadas!

O meu marido nunca gostou de ser apanhado em situações ridículas; afinal, sempre se achava muito viril. Por isso, naquela tarde, olhando de relance para o passado, lembro-me de como fui silenciosamente espreitar para dentro da casa de banho, curiosa pelo barulho abafado. Encostei-me à parede, deliciada com o que via, e quase desatei a rir até perder o fôlego.

Se és um bom gatinho, diz miau!
Se és um ótimo gatinho, diz miau!
Se és o gatinho preferido, diz miau! murmurava o meu marido, António, em voz baixa enquanto dava banho ao nosso gato.

O nosso Mingos, normalmente uma fera arisca que deitava as garras e dentes a quem lhe tentasse pôr água, naquele dia estava estranhamente quieto. Não sei se hipnotizado pelas cantigas ou simplesmente em choque, mas ali estava ele, submisso ao capricho das canções.

Vamos lavar as tuas costas, diz miau…
Vamos lavar as tuas patinhas, diz miau…
Vamos lavar o rabinho, diz miau… insistia ele, cada vez mais empenhado na serenata de banho.

Miau respondeu, num fio de voz, o Mingos.

E eu, encostada à parede, quase me engasguei de tanto rir. Até hoje lamento não ter guardado esse momento em vídeo… embora, pensando bem, ter tal prova em mãos talvez fosse perigoso para mim.

Não gostas? Então deixa lá, que canto outra coisa propôs então António, com mais um olhar cúmplice para o gato.
Miau, resmungou Mingos, compactuando.

Por momentos, António ficou calado, mas logo se pôs a ensaboar o gato outra vez, entoando baixinho:

Outra vez a chuva pinta no meu vidro molhado
O teu vulto, triste e calado,
Minha Madonna

As lágrimas escorriam-me pela cara, mas era de tanto rir.

Foi nesse instante que me dei conta: em todos estes anos, o António nunca me cantara nada. Não era, de facto, um homem romântico. Tinha outras qualidades, é certo, mas serenatas nunca me calharam. E agora, para o gato, havia óperas inteiras. Faria mágoa, tal coisa, não fosse tão hilariante.

Bem naquela altura, Madonna, vulgo Mingos, voltou a miar baixinho e o António mudou o repertório para Balança Coração, uma velha cantiga das brincadeiras lusas. Foi aí que percebi que, se me vissem, a cena seria desmascarada em segundos de tanto que ria. Estava na hora de disparar dali antes que fosse apanhada.

Já me recompunha e me afastava a caminho do sofá ainda a sufocar riso quando ouvi António sair-se com aquela pérola:

Pirilampo, pirilampo,
Pirilampo, pirilampo,
Pirilampo, pirilampo!…

E eu, incapaz de resistir, juntei no refrão, já a deslizar para a sala:

E dois amigos bem aqui!

Fugi para o sofá, desmanchada em gargalhadas incessantes.

Durante uns bons minutos não sei se eles cantaram mais alguma coisa, porque o riso não me deixava ouvir nada. Mas logo surgiram, dois burocratas sentidos e molhados marido e gato lançando-me olhares indignados, sentindo o orgulho ferido. Escondi o rosto na almofada, rindo até perder a força.

O Mingos e o António, cheios de dignidade ofendida, saíram em fila para a cozinha, como se eu tivesse estragado toda a solenidade daquele banho. E, olhando para trás, rio-me até hoje de imaginar tal cena num postal antigo.

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O meu marido detestava ser apanhado em situações caricatas, porque, claro, ele é todo viril. Por isso, espreito em silêncio para a casa de banho, aprecio o que vejo, viro-me discretamente para trás da porta e… Provavelmente vou desatar a rir às gargalhadas!