O meu filho trouxe a noiva para casa. Assim que vi o rosto dela e ouvi o nome, liguei imediatamente para a polícia… Senti o chão fugir dos meus pés—eu conhecia-a. Ai, como eu bem a conhecia.

O meu filho trouxe a namorada para casa. Assim que vi o seu rosto e ouvi o seu nome, liguei imediatamente para a polícia e senti o chão a fugir-me dos pés. Eu conhecia-a. Ah, como eu a conhecia. Jamais pensei que seria capaz de tal coisa…

Tudo mudou em apenas três meses. O meu filho tornou-se um estranho: saía mais vezes, chegava tarde, sorria para o vazio como quem ouve uma música secreta. Mas foi num jantar, quando limpou a garganta e murmurou que tinha uma namorada, que quase deixei cair o garfo. Nada sabíamos dela nenhum nome, nenhuma história, nunca uma fotografia. Era só mistério.

Conhecemo-nos numa pastelaria ao pé da faculdade, disse ele. Ela chama-se Beatriz.

O nome ficou suspenso no ar, como se ecoasse numa cúpula estranha. Porém, ele disse-o com orgulho. Segundo o meu filho, Beatriz era tímida até aos ossos e sentia um medo inexplicável de encontros familiares. Isso deixou-me inquieta, mas tentei não me intrometer. Os filhos crescem, afastam-se. Contudo, três meses depois, ele surgiu com uma notícia que me gelou as mãos: pediu-a em casamento.

Eu e o meu marido insistimos: ela tinha de vir cá a casa. Era imprescindível conhecer a futura nora. Passei o dia todo a preparar o jantar, dobrei guardanapos um a um, o meu marido escolhia os melhores bifes do talho. Queríamos recebê-la com dignidade. Mas dentro de mim, rastejava uma ansiedade sem nome.

Quando a porta se abriu e eles entraram, o mundo pareceu ondular, como um quadro pintado pela madrugada. O meu filho brilhava como criança em manhã de Reis. E ela Beatriz Por segundos, o meu fôlego sumiu. Havia no seu rosto algo tão familiar que era como escutar uma canção adorada na infância, há muito esquecida. Bastou ela dizer o nome e tudo encaixou, estalando como relâmpago na minha mente.

Beatriz, vem comigo à cave escolher um vinho para o jantar, pedi, com uma voz serena que não era minha. Ser demasiado calma, naquele momento.

Fui à frente, mas fiz-lhe sinal para descer primeiro. A cave estava húmida, fria, cheirando a cascos de carvalho e ecos velhos. Assim que entrou, fechei a porta e rodei a chave. Detrás, ouvi apenas o seu nome, dito baixinho.

Quando subi, o meu marido e o meu filho olhavam-me como espectros.

Agora, vamos chamar a polícia, disse eu. Tenho coisas para contar.

Dez anos antes, desaparecera uma menina, filha dos nossos vizinhos. Chamava-se Beatriz. Bonita, calada, olhos grandes. Vinha muitas vezes ter connosco, ajudava-me a podar as roseiras, ria das piadas do meu filho Achava que ia ter o mundo inteiro. Até ao dia em que desapareceu. Só encontraram as suas coisas à beira do Tejo; a polícia falava em acidente. Mas corpo, nunca apareceu. Nesse dia, ela pediu-me para telefonar a chamar um táxi do telefone da nossa cave. Foi a última vez que alguém a viu.

Por anos tentei não pensar nisso. E, de repente, diante de mim, estava a imagem em carne e osso. Mesma cara. Mesmos olhos.

Mãe, isto é loucura! gritava o meu filho. Ela nem sabe do que estás a falar!

O pressentimento dentro de mim, esse, não falhava nunca.

Chamámos a PSP.

Enquanto esperávamos, Beatriz ficou na cave. Nenhum grito, nenhum pontapé na porta. Só silêncio. Um silêncio frio e estranho, que me arrepiou até aos ossos.

Quando vieram os agentes, pediram-lhe que subisse. Pensei que protestasse, mas Beatriz apareceu tranquila, como se aquilo fosse apenas mais uma noite.

Você parece-se com uma jovem desaparecida há dez anos, comentou um dos agentes.

Beatriz sorriu. Gélida.

Eu sei, disse.

O interrogatório durou duas horas. Mandaram-nos para casa esperar. Porém, em menos de uma hora a polícia regressava enervada, pálida.

Ela desapareceu, anunciou o agente. Evaporou-se dentro da sala. Nas câmaras de vídeo, só se vê o vazio. Entrou mas ninguém a viu sair. Como se se dissolvesse no ar.

O mundo rodou, líquido, à minha volta.

Os dias seguintes foram caos desdobrado. O meu filho fugia de olhar-me, trancava portas, culpava-me por tudo. Ele amava-a. E vi que, nos seus olhos, a dor era maior que a raiva.

Na terceira noite, ele próprio desapareceu.

Procurámos por toda a casa, pelo quintal, pela rua nada. A minha filha desceu à cave e chamou-me em sussurros assustados.

Na mesa do vinho estava um bilhete: letra bonita, certinha.

“Não procurem por nós. Voltarei quando puder. Beatriz.”

Ao bilhete, estava preso um retrato antigo: eu, o meu filho, e ao lado outra menina. Beatriz verdadeira. Olhava para nós como quem olha para casa ao fim de um dia longo.

Percebi: aquela fotografia esteve ali escondida todos estes anos. Mas quem a tirou de lá?

Uma semana passou. Tocaram à porta ao amanhecer. Era o meu filho. Parecia mais velho, encovado, olhos esparsos.

Ela não é humana, mãe, sussurrou.

Em mim tudo tremeu.

E ele contou:

Depois do desaparecimento, há dez anos, pessoas misteriosas encontraram Beatriz mas ela estava viva. Só que o corpo, esse, não reagia. Cientistas um projeto secreto, privado tentaram salvá-la. Não era medicina, era outro ramo. Deram-lhe um corpo artificial, a sua consciência foi mantida. Mas a memória dela aos pedaços, fragmentada como espelhos partidos.

Quando te reviu, recordou-se, relatou o meu filho. Era demasiada coisa.

Beatriz regressou de propósito. Para retomar aquilo que ficou por dizer. Lembrar o derradeiro instante, o que a memoria não segurava. A cave. O último telefonema. As palavras que alguém lhe murmurou antes de ir para o Tejo.

Um calafrio subiu-me do cóccix à nuca.

O que foi que ela recordou? perguntei trémula.

O meu filho entregou outro papel.

“Disseste-me ao fim do dia: vai para casa sozinha. É importante. Confiei. Depois só água.”

Tapei a boca com a mão. Lembrava-me. Nessa tarde, presumi que o pai dela a esperava no carro.

Foi um erro. Um desastre que lhe custou a vida.

Ela perdoou-te, murmurou o meu filho. Mas não conseguiu perdoar-se a si. Por isso voltou.

E agora, onde está? perguntou o meu marido.

Ele abanou a cabeça.

Voltou para a água. Para onde tudo começou. Para sempre.

Nessa noite estivemos os três à beira do rio. O Tejo corria sereno, opaco. O vento trazia um frio húmido. Encostei a mão ao ombro do meu filho.

Foi então que a vimos uma figura na distância, na ponte. Imóvel, como uma estátua. Virou-se devagar, encostou a mão ao peito um gesto de gratidão.

E evaporou-se. Como reflexo apagado pela maré.

O meu filho ficou calado um longo tempo, antes de dizer:

Era metade máquina, mas o coração era real.

Assenti. Porque, finalmente, entendi: não devia nada à polícia, nem ao meu marido, mas sim à memória. Beatriz não voltou para se vingar mas para concluir o que nunca chegou ao fim.

Desde então, a cave ficou vazia. Mas, às vezes, ao passar por lá, ouço um tilintar ténue de vidro de garrafa sussurro entre ecos:

“Lembro-me de tudo. E perdoo.”

E isso é, em simultâneo, o mais assustador e o mais doce que alguém pode ouvir.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

O meu filho trouxe a noiva para casa. Assim que vi o rosto dela e ouvi o nome, liguei imediatamente para a polícia… Senti o chão fugir dos meus pés—eu conhecia-a. Ai, como eu bem a conhecia.